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Amor, tragédia e comunicação falhada [Play, the Film]

21 Jun 2013
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Play, The Film. Fot. Aíípio Padilha.

Play, the Film, dobrado por: André Godinho (Frank), Joana Manuel (Mary), Ariana Russo (Babe), Paula Sá Nogueira (Otto), Paulo Lages (Gabbo), Michelle D’Oleans (good old days dancer), António Gouveia (the man in charge). Participação especial de: Cais Sodré Cabaret – a blast from the past. Figurinos: Mariana Sá Nogueira. Luz: Jochen Pasternacki. Som: Iuri Landolt. Adereços: Nuno Tomaz. Fotografia de cena: Alípio Padilha e Joana Dilão. Produção: Cão Solteiro. PT.13, Cine-Teatro Curvo Semedo, 31 de Maio, 2013.

Play, the Film foi co-produzido e estreado no Festival Temps d’Images, em 2011 e apresentado em diversas salas, por todo o país, em 2012 e 2013. Como é habitual, as performances da companhia Cão solteiro, integram diversas vertentes artísticas e, criadores distintos, que vão desde as artes plásticas, às artes visuais e performativas. Play, the Film, não é uma excepção e, conta desta vez com a participação do realizador André Godinho. O espectáculo abrange a arte teatral e a longa-metragem: em palco estão os actores que representam ao vivo e em simultâneo é projectado um filme sobre um ecrã cinematográfico. Numa abordagem simplista poder-se-ia chamar ao que acontece em cena, uma dobragem feita ao vivo mas, de facto, este espectáculo vai muito para além disso: nem filme, nem peça, é simultaneamente ambos. É retratada a história de um artista, entrecortada por encontros e desencontros amorosos, onde se vê reflectida em última instância, a vida de inúmeros artistas anónimos que se dedicam incondicionalmente à sua profissão, mas que terminam a carreira em miséria.

O público entra directamente para o palco e acomoda-se em cadeiras por detrás da tela onde é projectado um filme com as imagens invertidas, ou seja, o público habita a cena e a representação é feita para uma plateia fantasma do outro lado da tela. A peça começa com a entrada de um homem que parece ser o director de cena que apresenta uma breve explicação sobre a estrutura do espectáculo: “há um intervalo, mas apenas para os actores”. É projectado o filme The Great Gabbo, de James Cruze (1929) dobrado ao vivo pelos actores, sentados de costas para os espectadores, frente a uma enorme mesa rectangular, frente à tela de projecção. A dobragem não é fiel ao original, nem tão pouco é real a trama apresentada no filme. São cortes e colagens do The Great Gabbo que subvertem o enredo original. O trabalho de dobragem feito pelos actores é irrepreensível e está meticulosamente estudado para simular a sintonia perfeita entre o som e a imagem.

Na sinopse pode ler-se que este espectáculo é “não exactamente uma peça de teatro, não exactamente um filme”, mas situa-se entre estes dois planos que não são lineares: há uma acção a decorrer ao vivo que é distinta da que ocorre no filme, mas ambas estão ligadas.

O filme narra a história de Gabbo um ventríloquo famoso, um homem frio e prepotente que se apaixona por Mary, uma artista em inicio de carreira. Este homem calculista, só consegue exprimir o seu afecto através do seu boneco de madeira, Otto. Otto funciona como um alter-ego de Gabbo, que contraria a agressividade e a indiferença para com Mary. Os diálogos do filme são hilariantes (foram substituídos por colagens de letras de músicas), principalmente para o público português familiarizado com a música popular portuguesa dos anos 80. São trocadilhos transformados em pergunta-resposta, que utilizam partes de letras de canções, como por exemplo, de António Variações ou Adelaide Ferreira. No plano teatral assiste-se à interacção entre actores, a cumplicidade, a partilha. É uma outra história, mas que não se dissocia totalmente do que ocorre no filme. Comportam-se como se estivessem de facto a fazer apenas uma dobragem, mas entrevê-se uma outra camada. Após o anunciado intervalo para os artistas, inicia-se uma outra acção. Os actores já não estão sempre de costas voltadas para o público; quando cantam dirigem a sua performance para a plateia. Há uma espécie de fusão entre o filme e o teatro: ambos ilustram cenas de espectáculo – cantores, bailarinos, actores. Há uma duplicação das cenas, mas com intenções diferentes. A história de Gabbo e Mary desenrola-se. Não se avista um final feliz para Gabbo. Mary abandona Gabbo e abraça a sua própria carreira, tornando-se uma artista conceituada que se apaixona por outro homem, Frank, um esbelto cantor, sensível e carinhoso. A decepção amorosa sofrida por Gabbo conduz progressivamente a uma decadência moral, que termina tragicamente em fracasso profissional. Os actores em palco simulam esta euforia transformada em loucura. Uma história de mais um artista fracassado, que é transportada para o palco e reflectida nos actores em cena. Se por um lado temos a história do ventríloquo, uma história fantasiada do filme, em que resta um homem só a quem todas as portas se fecham, um homem só e sem posses. Temos por outro, ao vivo pessoas/artistas que indirectamente simulam a mesma realidade.

Permanece uma dúvida constante em relação àqueles personagens que se encontram em palco, quais as suas histórias? Quem é a diva imóvel que canta em diferentes línguas? Quem é a rapariga que lima as unhas e dança perto do final? Porque não se entendem os actores entre eles? É como se ao longo da peça/filme se somassem momentos em que falha a comunicação ou o entendimento mútuo. Assim como o incompreendido Gabbo não soube expressar o seu amor – não falava a mesma linguagem de Mary, afastando-a – também os actores em palco, quando comunicam entre si falam línguas diferentes e não se entendem. Será uma história de amor parecida à vida de um artista? Será a linguagem, dos apaixonados, idêntica à dos artistas? Serão os artistas uns apaixonados pela arte? Será o desfecho da carreira artística semelhante ao de um amor não correspondido? Será The Great Gabbo uma metáfora à vida de um artista? Talvez não haja apenas uma resposta. Play, the Film encena duplamente, ao vivo e na tela, a queda de um artista – da diva e de Gabbo – articulando a relação entre o artista e a sua vocação, com o amor, com o sacrifício, com a competição ou a traição. Como se assistíssemos a uma luta incessante para vencer na carreira artística, que finalmente encerra com a incerteza de realmente ter sido válido o esforço e, em prol de quê foi esse esforço. Sem explicações a peça termina com os actores a saírem de cena, com uma resposta para a imobilidade da diva, que sai empurrada numa cadeira de rodas dirigindo um olhar trágico à plateia.

Play the Film apesar de ser um espectáculo intrincado do ponto de vista das diferentes leituras que permite, é extremamente divertido e o desempenho dos actores é excepcional. Consegue abordar o tema da fragilidade, e inclusive da precaridade da vida de um artista, e a efemeridade da carreira, duma forma supostamente ligeira. Contudo demonstra cruamente esta realidade causando até um certo desconforto. Não podia ser um tema mais actual dada a conjuntura que se vive no meio artístico em Portugal. Cada vez com menos dinheiro, menos apoios e menos oportunidades, os artistas sobrevivem e continuam a fazer bons espectáculos. Mas será o fim trágico?

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Texto Mais Crítica no P3

20 Jun 2013

Mais um texto Mais Crítica fora do blogue: texto publicado no P3, elaborado no contexto da colaboração do ciclo Matérias Vitais com o Mais Crítica. Sobre Akio Suzuki & David Maranha, no Museu de Arte Contemporânea de Serralves, 15 de Junho de 2013.

Dois Corpos num Espaço [Wasteland] e [Cascas d’Ovo]

15 Jun 2013

Wasteland, criação e interpretação: António Cabrita e São Castro |acsc|. Co-produção: Vo’arte | Silk Z./resistdance. PT.13 Mix Program #1. Sociedade Carlista, 31 de Maio, 2013.

Cascas d’Ovo, concepção e coreografia: Lander Patrick. Interpretação: Jonas, Lander Patrick. Figurinos: Lander Patrick. Desenho de luz: Lander Patrick e Rui Daniel. Produção e difusão: Clara Antunes. Consultor criativo: Tomaz Simatovic. PT.13 Mix Program #2. White Box, 31 de Maio, 2013.

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Fot. Augusto Cabrita

Na plataforma PT.13 realizada em Montemor-o-Novo, de dia 29 de Maio a 1 de Junho, de 2013, teve lugar, no dia 31 de Maio, a programação dedicada a novos criadores emergentes. Ali estiveram, entre outros, António Cabrita e São Castro com a sua primeira criação Wasteland, e também Lander Patrick com Cascas d’Ovo, ambas estreadas em 2012, em Lisboa.

Wasteland inicia-se com a dupla António Cabrita e São Castro a percorrer o fundo do palco da direita para a esquerda. Caminham de gatas lentamente como se fossem um só corpo, a sincronia dos movimentos é perfeita, sem erros, sem hesitações.

Ambos vestem calças pretas e blusas creme. As suas estaturas são semelhantes o que provoca uma sensação de duplicação – são dois, mas parecem um – tanto na indumentária, como na qualidade do movimento. A acção vai-se desenrolando sempre em torno de movimentos uníssonos executados sem falhas. A qualidade técnica é excelente, faz lembrar um ritual ou uma demonstração de tai-chi, pois ambos permanecem lado a lado enquanto se movem lentamente. Os dois intérpretes e criadores desta coreografia são experientes na matéria da interpretação e comprovam-no nesta peça: demonstram segurança e o movimento é limpo e preciso. Quando enfrentam o público mantêm a mesma dinâmica, são dois num trabalho a solo, que não distingue sexos nem sensações. Tudo acontece numa penumbra quase silenciosa. O palco, vazio, é apenas preenchido por estes dois corpos e há uma cumplicidade tácita que está para além daquilo que se vê na deslocação lenta dos corpos.

A peça evolui em termos da dinâmica e da energia empregue no gesto, a velocidade aumenta e percebe-se a preocupação com a estrutura coreográfica e com a pesquisa. Depreende-se que por trás das inúmeras variações empregues, e frases de movimento complicadas, está um trabalho profundo de pesquisa coreográfica que não se limita ao movimento per se, mas que fica aquém, pois dilui-se, por entre a imensidão do movimento, exterminando qualquer tipo de significado ou intenção. O desenrolar da peça progride até ao ponto dos dois intérpretes se tornarem autónomos – aqueles que outrora eram um só, são agora dois – dois corpos/indivíduos separados que se movem a alta velocidade. A tónica principal é o movimento, mas será isto suficiente?

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Cascas d’Ovo, de Lander Patrick

Wasteland é uma peça fundada na ideia de que o corpo é o repositório de inúmeras histórias, instantes, matérias e espaços que compõem a realidade. Adivinha-se que por detrás dela está um trabalho de pesquisa intenso e dedicado, centrado numa procura por algo relevante, traduzido através do corpo – a entrega total àquilo que estão a fazer – uma dança mergulhada num imaginário particular, mas à qual falta uma dramaturgia que interligue toda a peça. A coreografia termina com um fabuloso solo de São Castro e logo depois um encontro com Cabrita, que poderia ser uma coisa qualquer, pois finaliza sem uma pista coerente.

Assistimos a um espectáculo que, do ponto de vista técnico, nada há a apontar. No entanto, carece de uma dramaturgia mais aprofundada em termos das temáticas propostas. Há que ter em consideração, que esta é a primeira criação destes jovens coreógrafos e, portanto, descobre-se uma certa imaturidade da composição. Acontecem demasiadas sequências de movimentos que se traduzem apenas em formas virtuosas e complexas, que deslumbram pelo primor da execução do gesto, mas que não transportam o espectador para o imaginário proposto. O corpo torna-se um território devastado ou apocalíptico, ou fértil? Como reage o corpo” perante um espaço hostil e um vazio físico”, ou o corpo como contentor de “uma colecção de instantes e histórias em processo ordenador e configurador da realidade” como enunciam os criadores. Este domínio estruturante do conteúdo da peça permanece demasiado abstracto para ser entendido ou interpretado.

Por contraponto em Cascas d’Ovo realizado pela dupla Lander e Jonas, encontramos uma concepção coreográfica inundada por significados e imagens. A coreografia começa e acaba com os dois intérpretes vendados. Ambos caminham através de um coração desenhado com cascas de ovo no chão do palco. À medida que esmagam as cascas com os seus passos exploratórios, num percurso traçado, antevê-se o encontro dos dois homens. O encontro é surpreendente: um cumprimento, uma carícia, transformam-se num jogo de crianças, que levados ao extremo, conduzem a uma proximidade íntima dos corpos.

O desencadear de vários momentos lúdicos coreografados remete para brincadeiras infantis, inocentes que pertencem ao desbrochar da vida da criança, para a descoberta do seu eu e da sua sexualidade. Há no ar uma tensão de um amor inocente e cego. Brincam com estalos e palmadas que imprimem no corpo do outro compondo um ritmo musical, através da percussão das mãos e do bater dos pés no chão. É um espectáculo permeado por uma leveza naïve provocando naturalmente o riso em alguns momentos.

O encontro dos dois homens de olhos tapados com uma venda, com corações cintilantes, torna-se cada vez mais íntimo e mais claro. Dançam e cantam Like a Virgin, de Madonna, e entregam-se à exploração do corpo. Se em Wasteland se assiste à imaturidade coreográfica do ponto de vista da dramaturgia, aqui assiste-se a um excesso de imagens explícitas que se cingem a um universo gay e que de certo modo se torna redundante na maneira como expressam a mensagem. Será essencial ilustrar mensagens com purpurinas no corpo, ou insistir nos corações seja nos ovos, nos balões ou nas vendas, ou ainda, será necessária a nudez para exprimir intimidade?

A peça termina com a dupla a dançar um slow enquanto vários personagens invadem o palco para realizarem tarefas do dia-a-dia. Estas personagens não são performers, são pessoas comuns, na maioria mulheres: a primeira entra com um aspirador, limpando as cascas de ovo no chão, invocando o estereótipo das empregadas domésticas ou donas de casa, entram também uma mulher vestida com um robe ou raparigas que patinam ou brincam com um cão. O casal de calças baixadas continua a sua dança indiferente aos transeuntes que intersectam o espaço. E assim terminam os dois, juntos, abraçados, de olhos vendados no espaço, trespassados por uma multidão também indiferente, como se vários universos coabitassem num mesmo plano, sem se cruzarem.

CADÁVER ESQUISITO DA CRÍTICA | PT 13 – plataforma portuguesa das artes performativas 29 maio a 1 junho 2013 Montemor-o-Novo

10 Jun 2013

De 29 de Maio a 1 de Junho, o Mais Crítica esteve em residência na Plataforma Portuguesa das Artes Performativas PT-13, em Montemor-o-novo. Para além de assistirmos a todos os espectáculos, trabalhámos e discutimos com os críticos Gerard Mayen e Helen Meany, Nos próximos tempos serão publicados alguns textos provenientes desta residência de trabalho. O texto agora publicado surge como um exercício colectivo de escrita, da autoria de Alexandra Balona, Ana Dinger, Rita Xavier Monteiro e Sofia Soromenho, a partir da nossa experiência na PT-13, seguindo uma estratégia de cadavre exquis ou, como habitualmente se traduz para português, ‘cadáver esquisito’.

HIGHLIGHT [Tiago Cadete/EIRA] Criação e interpretação: Tiago Cadete. Consultadoria artística: Francisco Camacho. Direção técnica: Nuno Patinho.

Uma cidade e um mar prateado e um espelho e um reflexo de multidões solitárias. Solitário é o narciso que se concentra na devolução que o mundo opera da sua imagem. Paisagens que se sobrepõem e intersectam. Dentro, fora, entre. Dois tempos e espaços. Matéria. Fica-se sem perceber aquilo que está a ser Highlighted. Highlighted foram as imagens em movimento das ruas de Nova Iorque, projectadas como cenário da performance, seguidas de frases sobre o estado do mundo. Lento road movie, táxis amarelos, transeuntes no quotidiano saturado da megalópole. Desse excesso, a indiferença e alienação, a melancolia ou o spleen baudelairiano. Sobre o performer e o seu movimento: várias imagens e gestos coreográficos sem conexão clara: corpo sobre um espelho, duplicação da imagem, isqueiro que acende rasto de fogo; ou corpo em movimento submerso numa tela plástica sob o palco. O gesto que poderia em si mesmo ser reflexão, surge figurativo – o que vem sublinhar a lógica contemporânea da mediatização e do espectáculo.  

PARAÍSO – COLEÇÃO PRIVADA [Marlene Monteiro Freitas] Coreografia: Marlene Monteiro Freitas. Interpretação: Yair Barelli, Lorenzo de Angelis, Marlene Monteiro Freitas, Luís Guerra, Andreas Merk. Música: Marlene Monteiro Freitas with the support of Nosfell and Tiago Cerqueira. Desenho de luz e Som: Yannick Fouassier. Pesquisa e Imagen: João Francisco Figueira e Marlene Monteiro Freitas. Figurinos: Marlene Monteiro Freitas. Produção e Difusão: Andreia Carneiro – Bomba Suicida (PT), Erell Melscoet (FR).

Iluminadas por focos amarelos que formam um arco flutuante onde o paraíso toma espaço. O paraíso da energia carnal dionisíaca, do animal, mas também da dominação, da submissão, do afeto, da carência, do maternal, do sexual. Num mesmo tempo cómico e trágico: o ensaio da criação, da criação. Colecção de criaturas orquestradas por uma figura-devir – coreógrafa-demiurga?-maestrina. Pequeno reduto – universo? – regido talvez por outro(s) código(s). Na tensão entre o ridículo e a emergência dos mais sérios e radicais assuntos. Um concerto desconcertante. Desconcertante concerto no jardim privado do Éden onírico de Marlene Monteiro Freitas. A criatura coreógrafa-mulher-mágico-psycho-toureira orquestra quatro seres – faunos animalescos, mecanizados, enamorados e submissos – num ensemble sonoro e coreográfico visceral e gritante. Corpos que vão do excesso barroco à abstracção de Nijinski, da street dance ao eroticismo do samba. Sem paralelo, esta peça abre uma fractura para um outro tempo. Consome-se tempo a alta velocidade, mas aqui o tempo pára, porque o tempo para reflectir urge e não podemos fugir. Há uma urgência, uma tensão que provoca sensações e não se sabe de onde vêm. É sempre mais e mais…uma energia inquietante.  

TRISTEZA E ALEGRIA NA VIDA DAS GIRAFAS [Mundo Perfeito/Tiago Rodrigues] Texto e encenação: Tiago Rodrigues. Com: Carla Galvão, Miguel Borges, Tiago Rodrigues e Tonán Quito. Elenco Original: Carla Galvão, Miguel Borges, Pedro Gil e Tonán Quito. Música e sonoplastia: Alexandre Talhinhas. Participação especial: Beatriz Bizarro Rodrigues. Cenário e figurinos: Magda Bizarro e Tiago Rodrigues. Luz e apoio técnico: André Calado. Figurino Urso: Sandra Neves. Imagem do cartaz: Afonso Cruz. Produção Executiva: Ana Pereira, Magda Bizarro e Rita Mendes.

Demasiado longo. Universo ingénuo de uma menina de 9 anos que toma um corpo gigante e dialoga com o público como se ilustrasse e animasse uma enciclopédia. Vemos um urso que regurgita palavrões, o pai que é o Tchekhov, a falecida mãe violinista, uma banda rock ao vivo, a cidade em imagem em movimento retroprojetada. O texto é muito bem conseguido, articulado, irónico, simultaneamente doce e amargo. Mas o espetáculo é longo, demasiado longo… Longo é o trajecto, entre a vigília e o sonho (infantil). Longo também se torna o desacerto entre as palavras que se usam e aquilo que se quer dizer (intervalo entre a definição semântica e a aplicação pragmática). Um estranhamento do mundo e do seu funcionamento. Uma criança que tropeça nas leis impostas, forjada por poucos, cumpridas por muitos, contornadas por alguns. Não por crianças que querem roubar um banco só para pagarem a conta da Tv por cabo de forma a verem o Discovery Channel de forma a escreverem um trabalho para a escola sobre as alegrias e tristezas das girafas. Mas, claro, não é sobre girafas, ou apenas sobre girafas, aquilo de que se fala. Fala uma menina de 9 anos, que a mãe enquanto viva chamava de girafa. Tendo como companhia o seu pai (desempregado e sem dinheiro para pagar o Discovery Channel) e o seu urso indisciplinado, a menina-girafa parte em fuga para tentar resolver os problemas financeiros do progenitor. Pede dinheiro a quem passa, tenta em vão assaltar um banco, ou até falar com o primeiro-ministro Passos Coelho. Uma peça subversiva e polémica sobre a inocência e perspicácia das crianças num mundo em crise, e virado às avessas. Uma história às avessas, e ao mesmo tempo sem sê-lo. Uma história de uma criança e, ao mesmo tempo, uma história de adultos. Questões muito actuais. A retórica, a retórica.  

SÍNCOPA [Tânia Carvalho] Coreografia e interpretação: Tânia Carvalho. Assistente de Ensaios: Petra Von Gompel. Música: “Nada” de Tânia Carvalho. Texto: Valter Hugo Mãe. Figurinos: Aleksandar Protic. Desenho de luz: Zeca Iglésias. Produção e difusão: Sofia Matos. Agradecimentos: Régis Estreich.

Síncopa é o nome desta dança. “Nada” o da música que a performer também compõe. Valter Hugo Mãe o texto que a inspira. Monstruosa a figura do desenho que a ilustra. Mas tudo isto sabemos ao ler a ficha técnica. Tudo o resto decorre num instante entrecortado. Tudo o resto é uma rica avalanche de gestos no espaço do tempo de um suspiro de um corpo e um riso nervoso que se exibe num quadrado de luz. Uma luz interrompida, um movimento sincopado que nos obriga ao enfoque no intervalo. Um movimento que faz emergir o inefável, que está aquém ou além das palavras. E como usar palavras para discorrer sobre o indizível? (Não podemos dizer o indizível mas podemos usar palavras para nos aproximarmos do que não pode ser dito e porque não pode ser dito.) Operando sobre o que está (ou não está) entre. Entre o aparecer e o desaparecer, “Síncopa” é a interrupção, a supressão – seja da luz que em flashes pontuais ilumina e oculta os movimentos da performer, como da expressão facial que, num repente, rasga o inexpressivo e dá uma entrada ao interior mais velado da artista. Figura elegante, movimentos banais ou abstractos, mas significantes: pernas fixas, tronco e braços em agitação, transformação. Um corpo de movimento contido que não é imagem, mas abre um abismo para lá da pele e do gesto, até ao interior dos ossos, extraordinária intimidade sem verbo. Mesmo sem a utilização do verbo tudo acontece ‘sincopadamente’. A luz limita um espaço e também a acção, são momentos fragmentados, mas unidos, atravessados pela mesma energia que trespassa o espaço/tempo e o palco.  

[UNTITLED] CHARCOAL ON CANVAS [Mónica Garnel] Autoria: Miguel Castro Caldas. Encenação, Interpretação, Espaço Cénico: Mónica Garnel. Ator convidado: José Miguel Vitorino. Participação Especial: Rute Cardoso. Canções: AG. Fotografia: Bruno Simão. Tradução/Legenda: Rita Garnel. Produção: Mónica Garnel Rute Cardoso. Agradecimentos: Mónica Calle, Alexandra Gaspar, Sofia Victória, José Manuel Rodrigues, Rita Garnel, aos noivos, Bruno Simão, Mário Fernandes, Luís Afonso, Mauro Santos, Simon Frankel e Joana Sapinho, Francisco Frazão, Patrícia Saramago, Duke Ellington, Herberto Helder, Wilson Magalhães, Ira G. Laurinha, Veri e Mia.

Uma mulher que já teve muitos noivos quer casar-se de novo, a cada espetáculo será pedida em casamento. De volta de um caixote de madeira – sinónimo de casa, de proteção mas também de sistema – esta mulher lamenta-se da sua circunstância. Espetáculo novelesco e um texto sarcástico sobre o amor e o significado das palavras. Como (re)pensar um compromisso que não nos comprometa? Nos interstícios e subtilezas do texto, um ensaio de como repensar, reformulando, ‘repalavrando’, um verbo. Uma acção. Uma possibilidade de partilha. Casar. Casa. A-casa-lar. Lar. Casa. Casa em forma de caixa de madeira que a actriz move pelo palco. Casa portátil para casa(r) e ir por aí, largar a prisão da casa-empréstimo. Quem quer casar? O desafio da actriz é respondido no final pela entrada mirabolante de um possível noivo interessado (em cada espectáculo, um noivo diferente, um final surpresa). O desfecho, com o público entretanto arrastado para o palco, as juras de amor e o vinho espumante vieram confirmar a banalidade da peça. Um pedido de casamento, uma peça, uma casa em andamento, uma viagem, uma improvisação, um acaso. Pode funcionar ou não, a peça, o casamento. Resta a dúvida.  

YOU NEVER KNOW HOW THINGS ARE GOING TO COME TOGETHER [TOK’ART] Direção Artística, Espaço Cénico, Coreogafia: André Mesquita. Cocriação (movimento): Sylvia Rijmer, Teresa Alves da Silva, Filia Peraltinha, São Castro, Guzmán Rosado e Marco Ferreira. Luzes: Nuno Salsinha. Figurinos: André Mesquita. Música: Welstchnerz, Melotron, Keskeivoima/Centralforce, PanSonic e Tu non mi perderai mai, Peter Gregson. Arranjo musical: Guzmán Rosado. Intérpretes: Masa Kolar, Teresa Alves da Silva, Filipa Peraltinha, São Castro, Marco Ferreira e Gustavo Ramírez Sansano.

Há uma luz. Há uma luz que os quer vir buscar e que é uma nova ordem, o desconhecido. Os bailarinos organizam-se e interagem em movimentos coreografados e fluídos que oscilam entre a luta marcial, o robô e o impulso mais orgânico. A paisagem sonora é poluída. Tudo pode ser. Pode ser um estado do mundo pré ou pós apocalíptico. Pode ser um diagrama móvel das relações interpessoais. Um mapeamento de distâncias (proximidade e afastamento). Não parece ser, no entanto, na sua previsibilidade, aquilo que promete: tradução de incerteza. Incerteza é o não certo, o não claro, é tom cinzento. E aqui (quase) tudo é cinzento: a monotonia da música, o cenário inexistente, a luz de uma neutralidade dormente, os figurinos cinzentos, o desenho coreográfico previsível: frases de grupo que se desfazem em duetos, solos, retoma do grupo, e assim sucessivamente. O que não é cinzento é a qualidade técnica indiscutível dos bailarinos. São alguns momentos de efectiva beleza que nos conseguem despertar da monocromia do todo. A dança pode ser só dança, mas para lá do virtuosismo, ela deve agarrar, inquietar. Inquietante é a sensação de observar, sentir a vibração dos fabulosos intérpretes que entregam todo o seu ser quando se movem, quando dançam, mas isto é suficiente? Talvez não, talvez haja um percurso a fazer, uma descoberta por acontecer.  

ATLAS [Ana Borralho & João Galante] Performers: 100 pessoas de diferentes profissões. Conceito, luz e direção artística: Ana Borralho & João Galante. Som: Coolgate. Aconselhamento luz: Thomas Walgrave. Colaboração artística: Fernando Ribeiro. Colaboração dramatúrgica: Rui Catalão. Colaboração artística e coordenação de grupo: Catarina Gonçalves, Cátia Leitão, Tiago Gandra (Marie Mignot na estreia em Lisboa, Veronica Castro (Volante. Documentação vídeo e edição: Vasco Célio. Agradecimentos: Mark Deputter e aos performers que participaram em todas as apresentações de Atlas. Duração da performance: 80 minutos.

A diversidade, a denúncia, as cores, as costas, as formas, a frase: “Se 1….incomoda muita gente, 2…incomodam muito mais”. Os corpos, a corporação, a gestão, o grito. O Portugal e o Universal. A multiplicidade e a unidade. A condenação e a ação. A intervenção, a educação, a invenção, a arte. Se um trabalho artístico com agenda política incomoda muita gente, vários trabalhos artísticos – ou, mesmo, um mesmo trabalho artístico em digressão pelo mundo fora -, incomodam muito mais. Ainda bem que incomodam. Comovem. Contaminam. Abalam a desconfiança de que “a união pela força” é uma máxima utópica. Talvez, talvez, o incómodo possa tornar-se tão grande que permita a mudança. Mudança certa na vivência de uma comunidade, a peça “Atlas” convida 100 pessoas da localidade onde se apresenta para, um a um, partilharem com o público a sua profissão ou, no caso dos mais jovens, as suas aspirações. Se a proposta arriscava a monotonia, Ana Borralho e João Galante introduziram as quebras e variações necessárias para que os 80 minutos de “Atlas” se convertessem em momentos lúdicos e de crítica. O público constrói relações de identificação e de cumplicidade com o grupo. A voz que é singular torna-se, pouco a pouco, plural.  

OUT OF ANY PRESENT [Sofia Dias & Vítor Roriz] Direção, interpretação e cenografia: Sofia Dias & Vítor Roriz. Som: Sofia Dias. Colaboração artística: Catarina Dias (imagens em cena). Convidado: Filipe Pereira. Direção Técnica e Iluminação: Nuno Borda de Água. Agradecimentos: Maria Ramos, Oficinas do Convento, João Sofio, Tiago Fróis, Hélder Azinheirinha, Pedro Videira.

A dupla Sofia Dias e Vitor Roriz prossegue a pesquisa em torno dos interregnos dos movimentos e das posturas recolhidas e costuradas em fragmentos. As frases e canções na língua inglesa são desconstruídas numa recolha de sons e sentidos. Copulam novas morfologias, novas fonologias e o eco. Um dispositivo, que poderia funcionar como uma obra de instalação, acompanha a marcha com destino galático. Trata-se de um painel rolante que distribui pedaços de uma organização de mundo disperso em imagens reconhecíveis (da cidade, de animais, de figuras históricas) e linhas de um caminho. Uma corrente de bicicleta que ativa esse dispositivo de imagens em movimento cujo ruído lembra o da projeção da película cinematográfica. É manipulado para a frente, para depois se desenrolar para trás, denunciando uma passagem de tempo. O eterno retorno. Rewind. Fastforward. Repetição de um caminho, agora com novos desvios (diferenciais). O que vem antes? O que se segue? Quem vem antes? Quem se segue? Pontos de um segmento. Segmentos de uma recta. Uma recta que se curva. Um trajecto revisitado com renovados encontros. Encontros entre o movimento, a exploração da palavra e as imagens em movimento do dispositivo cenográfico são os elementos que se destacam em “Out of any presente” de Sofia Dias & Vítor Roriz. Os criadores regressam à fragmentação do gesto, ao movimento intermitente e indefinido, acompanhado por camadas de texto inaudível, dito e musicado. A temática da partida, numa primeira leitura, plasma-se na retórica da emigração, tão recorrente hoje, mas o insistente “I have to go away” do texto não fala de distanciamento geográfico mas de abertura a outras multiplicidades. A literalidade do texto não vive em consonância com a indefinição e fragmentação dos movimentos, nem com as imagens difusas. A inquietação, de si prolífera, esvai-se na evidência do texto. O texto falado transforma-se em texto cantado, são canções que se encadeiam e se encaixam na acção, no movimento, tanto dos corpos como dos cenários. Há uma estrutura metálica manuseada por um ‘ajudante’ que desenrola e enrola uma série de desenhos e imagens. Fragmentos do quotidiano que nos inundam de significados, mas que desatentamente não observamos.  

THE 1st DANCE OF URIZEN [Luís Guerra] De e Com Luís Guerra. Direção técnica: Zeca Iglésias. Produção: Bomba Suicida – Andreia Carneiro.

Sob um quadrado de luz branca a figura de Luís Guerra veste uma camisola e um gorro de malha tricotada a preto, branco, amarelo, azul e rosa. Os olhos e a face estão pintados de branco, enfatizando um expressão grotesca. Em cada mão uma colher de pau, símbolo psicanalítico da bruxaria, do cozinhar de feitiçarias. Sob um quadrado de luzes de reflexos coloridos, a figura mitológica de Urizen de Primeiro Livro de Urizen de William Blake ganha a materialidade do corpo do performer. A dança ritualística expande-se a novos sentidos. O sentido da história. Ou que sentidos tem a história? Linearidade e não linearidade. Sincronia, diacronia, (an)acronia. Nijinsky e a sagração. Schlemmer e as extensões das linhas do corpo. Cunningham, Rauschenberg e Johns. Pop. Intersecções, convocações ou projecções. História(s). História(s) e imagens que nos transportam ao abstraccionismo das vanguardas modernistas da dança: do ballet triádico de Oskar Schlemmer na Bauhaus, aos movimentos geométricos no octaedro de Rudolf von Laban. Luís Guerra surge como um ser articulado, boneco-marioneta de movimentos geométricos, pernas fixas, braços e tronco móveis. Figurino policromático e abstracto dialoga com o desenho de luz que alterna momentos de cor magenta, amarela, verde, azul. E do inexpressivo do mimo escapa-se um rasgo do expressão. Peça figurativa que não deixa de ser insólita e, por isso, disruptiva. Luís Guerra mostra-nos a sua irreverência neste solo. A sua criatividade evoca uma sensibilidade que transcende aquilo que é palpável. Queremos ver mais, mas aquilo que é mostrado fica um pouco aquém. Percebe-se a procura e a entrega, mas o resultado final simplesmente fica suspenso naquilo que é imaginável.

WASTELAND [António Cabrita e São Castro | acsc] Co-produção: Vo’Arte| Silke Z./resistdance.

Em Wasteland é admirável a qualidade e beleza da gestualidade destes bailarinos que se tornam cúmplices na descoberta. Os dois corpos, simultâneos um do outro, deixam inevitavelmente revelar os ínfimos pedaços dessincrones do movimento e a efemeridade da matéria. A paisagem coreográfica, acompanhada por uma colagem eclética de sons, desdobra-se em tantos territórios possíveis que esvaziam a possibilidade do espetador vislumbrar um impulso legitimador. Um espetáculo rico, mas que ainda não se regista nesse espaço de terreno baldio. Paisagem deserta. Desacerto. Na procura de ilustrar a condição humana. Desacerto. Na tentativa de traduzir para movimento do corpo o movimento das palavras. Desacerto. Na possibilidade de garantir continuidade. Desacerto. Desacerto só no final, quando os dois performers divagam por trajectórias singulares. Antes, desde o início, a sincronização da partilha do tempo e do território é feita a dois corpos. A beleza do movimento e do gesto pedem a passagem audaciosa para algo mais, que vá além da superfície da pele e do visível. Uma dupla visivelmente sincronizada e preocupada com o pormenor. Cada detalhe cuidadosamente estudado em termos do movimento físico. Mas a carecer de algo mais para além desta exploração, o espectador deslumbra-se com o virtuosismo, não com o conteúdo. Uma coreografia extremamente preenchida pelo exímio movimento dançado. Não é propriamente uma obra bem-sucedida, mas para uma estreia desta dupla, nada a apontar.  

ZOS (She Will Not Live) [Nulsls ZoBoP] Criação – Interpretação: Joana von Mayer Trindade. Criação – direção: Hugo Calhim Cristóvão. Assistência: Paula Cepeda Rodrigues. Aconselhamento de luz: Rui Barbosa. Duração: 45 minutos.

A confrontação com a figura de uma mulher robusta e desnuda. Há a nudez e a desnudez. E a última des-cobre, des-vela a vitalidade que trespassa o individual. Do zoé que ultrapassa a bios no sentido aristotélico… A narrativa é claramente citada, apropriada da história da performance. A violência crescente, carnal e bruta mimetiza uma energia inesgotável. O que se assiste é contínuo devir sobrevivente do mais forte. Construção de imagens. Um saco plástico com molas, um chapéu de palha, um vestido cor-de-rosa, um acessório de conotação sadomasoquista, sapatos de salto alto e uma garrafa de vodka. A violência do género. O indivíduo violentado. O transversal animalesco. A (im)possibilidade de redenção. O que é isto que nós somos? Somos todos Zoe (em grego), vida orgânica, energia vital que não termina, que se recicla. Uma peça sobre a vida crua, posta a nu, e a sua procura nas origens da performance. A pele e o corpo sujeitam-se à exploração de energias sexuais, de dominação e de exposição sem, porém, produzir algo além do accionismo vienense, das performances de Carolee Schneeman ou da body art das décadas de sessenta e setenta. Uma criação que poderia ter sido resgatada dos anos 70 ou 80 aparece aqui um pouco deslocada. Uma necessidade de exposição do corpo feminino a nu, um corpo que se auto molesta, mas para quê? Há uma carga forte neste solo, mas sem uma intenção clara. A coreografia vai desenvolvendo-se no tempo, vamos assistindo a diferentes imagens, mas que não transportam inovação ou irreverência.  

CASCAS D’OVO [Lander Patrick] Concepção e Coreografia: Lander Patrick. Dramaturgia: Jonas, Lander Patrick. Figurinos: Lander Patrick. Deseho de Luz: Lander Patrick e Rui Daniel. Produção e Difusão: Clara Antunes. Consultor Criativo: Tomaz Simatovic.

A leveza e o colorido deste espetáculo é, ao mesmo tempo, uma constante interrogação sobre o mundo. Calcando cascas de ovos e apertando/estalando mãos, cantam Like a virgin como quem espera o que está para vir. Ai, como a vida é tão doce e tão frágil! Frágeis como histórias de amor, cascas d’ovos. Um universo kitsch vai despontando como paisagem em que duas figuras interagem, de olhos vendados. Essa interacção consiste num jogo de bater com as mãos (nas mãos do outro, do seu corpo) e de saltos, que se distancia progressivamente dos jogos infantis para convocar outras conotações. Este dueto obvia dois aspectos essenciais para uma colaboração coreográfica assim como para uma história de amor (a sinopse, “This is not a love story”, é uma brincadeira ‘magritteana’): confiança e cumplicidade. Cúmplices nos olhos vendados, na quebra dos ovos, nos jogos clownescos das palmas e estaladas, nos desafios pueris e lúdicos. No final, a (pseudo) agressividade passa a afectividade, que talvez não precisasse da redundância do nu. E, inesperadamente, um a um, alguns estereótipos entram no palco para um retrato social: um exterior cacofónico que contrasta com a intimidade de dois corpos abraçados. (Somos mais íntimos quando nos despimos em palco?) Todo o palco fica preenchido, mas não de cascas de ovo como acontece com o coração inicial, mas sim de pessoas, pessoas comuns que deambulam pelo palco executando a sua tarefa específica. Cada um no seu papel. E dois homens que se amam permanecem abraçados a dançar um slow, como se não existisse nada mais ao seu redor.  

PLAY:THE FILM [Cão Solteiro e André Godinho], um espetáculo construído a partir de The Great Gabbo de James Cruze, 1929, por: André Godinho, Joana Manuel, Joana Dilão, Mariana Sá Nogueira, Michelle D’ Orleans, Noëlle Georg, Paula Sá Nogueira, Paulo Lages, Steve Stoer.

Atrás da tela de projecção, atrás do filme projectado, estamos sentados. Partilhamos o espaço com os performers que forjam os diálogos das personagens emudecidas de “The Great Gabbo”. Esta longa-metragem de 1929, dos primeiros passos do cinema sonoro, foi editada: corte, colagem, aceleração, desaceleração, som retirado. Sobreposição de narrativas: a história do filme que, apesar de manipulada, sobrevém, e tudo o que acontece além ‘dobragem’, ou, de certa forma, além filme (mas que reitera e potencia o que nele se joga). Desdobramento de ventriloquismo, a peça é mais peça e menos filme no intervalo. Não existe intervalo entre Filme e Peça de Teatro, os dois media sobrepõem-se, sem deixar de ser, simultaneamente, cinema e teatro. A plateia colocada no palco vê o filme mudo “The Great Gabbo” projectado (em espelho), os actores no palco, de costas para a plateia e sentados de frente para a projecção dão a voz às personagens do filme. O texto original é intercalado com outras passagens de letras de músicas pop portuguesas, ou com expressões populares da nossa cultura. Cria-se um diálogo lúdico e polissémico entre o tempo do filme e o tempo de hoje, as personagens deste e os actores em palco, e entre as idiossincrasias de cada medium. Vários suportes para um mesmo fim, seja ele uma peça ou um filme dobrado em português. Play the film consegue diluir fronteiras e habilmente construir um universo paralelo entre aquilo que se está a assistir e o que não se vê, mas percebe-se através das sensações e metáforas utilizadas ao longo de todo o espectáculo. É um híbrido hilariante com um desfecho inquietante. A bailarina de expressão angustiada abandona o palco empurrada e numa cadeira de rodas. Uma história de amor pirosa com uma lição de moral ridicularizada redobram um questionamento real sobre as fragilidades do mundo do espetáculo, da fama e da possibilidade de sermos protagonistas e heróis das nossas próprias vidas. 

ISRAEL [Teatro Praga] Criação e Texto: Pedro Penim. Interpretação: Pedro Penim e Catarina Campinho. Iluminação: Daniel Worm. Tradução de Kobi Ben Itamar. Produção: Filipa Rolaça, Elisabete Fragoso.

É inevitável que os títulos prometam. Israel. O resvalar do amor para a obsessão ou a potência destrutiva de uma suposta forma de amar. Amor por um indivíduo, por uma nação, por uma noção, por uma ideia, por um qualquer deus menor ou maior, por uma visão, por uma construção, por uma ilusão… How to address the elephant in the room? A complexidade da peça/performance reflecte a complexidade da(s) trama(s) a que alude, ensaio/redução impossível de séculos de História e de histórias. São milhares de histórias que se associam umas às outras. Não se sabe onde começa e acaba, nem se começam ou acabam. Apenas se sente que vai ficando cada vez mais insuportável de controlar. A potência criativa é concentrada e controlada por uma única e magnífica interpretação. Uma figura ajudante vai trazendo os adereços e as maquinetas que servem para ilustrar um universo em montanha russa, cheio de referências, leituras e poesia a uma velocidade que nem sempre conseguimos acompanhar. O carácter obsessivo de uma relação sentimental que se cruza com a problemática e abundante história de Israel são explorados através da leitura de um mundo mediado pelo virtual. O público é convocado para o palco através de uma gravação em direto visualizada no ecrã do laptop.  

WILDE [mala voadora + Miguel Pereira] Direção: Jorge Andrade e Miguel Pereira. A partir de Oscar Wilde. Com Carla Bolito, Joana Bárcia, Jorge Andrade, Miguel Pereira, Nuno Lucas, Tiago Barbosa e Valentina Parlato. Cenogafia: José Capela. Figurinos: José Capela with seamstress Eduarda Carepa. Luz: Daniel Worm D’Assumpção with Ricardo Campos. Som: Jari Marjamaki. Fotografia de cena: José Carlos Duarte. Produção: Cátia Mateus (O Rumo do Fumo) Manuel Poças (mala voadora). Agradecimentos: Marcello Urgeghe, Maria Teresa Ferrreira, Mónica Garnel e Xavier de Sousa.

Um exercício camp a partir de uma obra de Wilde. O leque de Lady Windemere chega-nos inicialmente através da gravação audio do registo da peça teatral apresentada num outro tempo, num outro espaço, progressivamente sobreposta e ou repetida, alternada ou substituída pelo texto falado (ao vivo, dito pelos performers em palco), ainda que o diálogo último seja projectado num ecrã (texto escrito). Assim, com um irónico barroquismo, Wilde complica as suas referências e o(s) seu(s) referente(s), activando a metonímia/sinédoque (autor/obra/peça), o jogo entre directo e diferido e a representação do género (todos os performers partilham o mesmo figurino, um vestido cor-de-rosa com flores estampadas e repartem o texto confundindo a identificação unívoca de um performer/actor=uma personagem). A mesma personagem multiplica-se. A narrativa repete-se e desconstrói-se como uma massa condensada permeável a diferentes ingredientes. Ingredientes interessantes para um ponto de partida curioso mas mal cozinhado. A belíssima sala da Sociedade Carlista, finalmente despida dos panos negros, contextualiza o ambiente. Em torno de uma gigante mesa que enuncia a riqueza vitoriana, os alter-egos das personagens de Wilde reforçam a superficialidade romanesca das histórias. Mas o jogo de interpretações é desenvolvido também superficialmente, assim como os passos saltitantes e inseguros das intenções coreográficas. 

WILLINGLESS TO WILL [Cláudia Dias] Direção artística, Coreografia e Interpretação: Cláudia Dias. Assistência: Cátia Leitão. Texto: Cláudia Dias e Cátia Leitão. Espaço Cénico: Cláudia Dias. Direção Técnica e Luz: Carlos Gonçalves. Música: América do Norte, de Seu Jorge. Professora de Pilates: Maria Joãoo Madeira. Professores de Samba: Carmen Queiroz e Pedro Pernambuco. Tradutore: Dominique Bussillet, Jorge Sedas Nunes e Karas. Produção e Difusão: Sofia Campos/SUMO

Vontade de ter vontade. Vontade de continuar. Vontade de estar aqui daqui a 1, 2, 3, 4, 5… 10, 20, 30 anos… ou mais . Se “ficar[mos] aqui será para defender” o que é preciso. Aquilo em que acreditamos. Na esperança de que possamos avançar em terreno desconhecido… porque é desconhecido o caminho que nos desviará da crise. Talvez desapareçamos. Primeira morte. Até que a nossa voz deixe de ecoar para aqueles que a mantêm na memória. E, com ela, o desvanecimento da nossa imagem. Segunda morte. Uma decisão: morrer ou viver? Para onde vamos? Uma constante dúvida com vários caminhos a seguir, vários cenários a descobrir, mas sem uma resposta. Político, social e extremamente actual. Sobre a reflexão do nosso espaço e do nosso tempo. Como atuar politicamente no real imaginado do espetáculo? A passagem de um corpo português que se encaixa na cauda da Europa e no Mundo, marcada sobre um retângulo de areia. E lembro a música do Jorge Palma, “(…) Enquanto houver estrada para andar/a gente vai continuar/enquanto houver estrada para andar/Enquanto houver ventos e mar/a gente não vai parar/enquanto houver ventos e mar(…)”  

A BALLET STORY [Victor Hugo Pontes] Direção artistica: Victor Hugo Pontes. Música: David Chesky. Versão Musical: Fundação Orquestra Estúdio, sob a direção do Maestro Rui Massena. Cenografia: F. Ribeiro. Direção técnica e Desenho de luz: Wilma Coutinho. Intérpretes e Co-criadores: André Mendes, João Dias, Joana Castro, Liliana Garcia, Ricardo Pereira, Valter Fernandes e Vítor Kpez. Figurinos: Victor Hugo Pontes. Registo vídeo: Eva Ângelo. Registo fotográfico: Susana Neves. Produtora Executia: Joana Ventura. Agradecimentos: Madalena Alfaia e Vera Santos.

A Ballet Story. Uma história? Ou uma abstracção? Uma história da dança ou a coreografia do não dito? De figuras em devir a corpos humanos em exposição, atléticos, forma(ta)dos por um percurso, dispostos, justapostos, sobrepostos. Repetição. Diferença na repetição. Frases de movimento repetidas, movimentos desconstruídos, um cenário magnífico. Uma procura incessante pela linha que une a peça, um libreto improvável que termina com a exaustão dos corpos. Corpos que consecutivamente enlaçam o bailado clássico, o contemporâneo e a dança urbana. Na releitura de Zephyrtine, os anjos e as fadas do ambiente onírico de Chesky são substituídos por performers que vestem carapuços coloridos e ocupam um palco ondulante que faz lembrar um skate park. Corpos que se completam num coletivo ou se autonomizam a solo.

(Res)sonâncias Vitais [Eye Height]

23 Maio 2013

Eye Height ricardo jacinto beatriz cantinho

Co-criação e Interpretação:  Beatriz Cantinho e Ricardo Jacinto. Bailarinos:  Beatriz Cantinho, Filipe Jácome, Francesca Bertozzi.  Músicos: Nuno Torres (Saxofone Alto), Ricardo Jacinto (Violoncelo). Acompanhamento técnico (Som): Ruben Santiago. Produção executiva: Sara Morais. Figurinos:  Mariana Sá Nogueira. Produção:  Menino Exemplares. Projecto financiado pelo Ministério da Cultura/ Direcção Geral das Artes e pela Fundação Calouste Gulbenkian. Museu de Arte Contemporânea de Serralves, 11 e 12 de maio de 2013. 

A alma é um acorde; a dissonância, a sua doença.

Pitagóricos

A paisagem visual que recorta o olhar corresponde à paisagem sonora que em Eye Height se inicia.

Os músicos, os intérpretes e o ambiente aguardam o silêncio inaugural. Uma aura é criada depois do público ocupar lateralmente os lugares dentro do palco do auditório de Serralves.

O  ambiente é intimista. No centro um outro palco sobre o palco. Protagonista da cena, um feixe de luz salienta a madeira de carvalho polido de que é construído, a partir de nove elementos conjugados que formam nove ondas. O palco é lugar de produção coreográfica e musical. E ele é também instrumento musical. Uma caixa de ressonância.

Eye Height é o segundo espetáculo do ciclo Matérias Vitais, programado por Cristina Grande e Pedro Rocha.  É um projeto colaborativo entre a coreógrafa e investigadora Beatriz Cantinho e o compositor, músico, artista plástico e arquiteto Ricardo Jacinto. Importa a enunciação das várias competências dos dois criadores porque neste espetáculo elas estão plasmadas de um modo tão evidente quanto coeso e fluído. O objeto podia funcionar como uma peça escultórica que se relaciona e emerge do título e da obra em exposição de Alberto Carneiro – Arte Vida / Vida Arte – Revelações de Energias e Movimentos da Matéria – o mote para este ciclo de artes performativas. Enquanto palco, chão, ele aparece com uma arquitetura orgânica pela irregularidade e aconchego que transmite aos corpos que o irão habitar. Eye Height também originou uma vídeo-instalação que se torna a dimensão cinematográfica do projeto, exposta em alguns espaços e galerias[1]. Este outro objeto de registo pretendeu desenvolver a atenção perceptiva do espetador mediado através de três planos de vista síncrones expostos, evidenciando a imersão no palco. A pesquisa em torno da apreensão visual estética e na performance é, de resto, o interesse de Beatriz Cantinho.

Ao espetáculo precedeu um workshop com os bailarinos convidados Vera Santos, João Martins e Luís Guerra e os músicos Susana Santos Silva e João Pais Filipe, cujo resultado igualmente se exibiu. Além disso, realizou-se um workshop para jovens, cumprindo a dupla função pedagógica de experimentação musical e do movimento.

Os músicos localizam-se nas extremidades daquela estrutura quadrada, a par dos espetadores. Ricardo Jacinto está no violoncelo e Nuno Torres no saxofone alto, instrumentos que exploram pela improvisação livre, ou procura de sonoridades que se pretendem contínuas, orgânicas. Às vezes lembram uma espécie de rumor líquido, quase murmúrio seminal, embrionário, intra-uterino. Ouvem-se as cerdas do arco que deslizam a madeira do viloncelo, o sopro no metal do saxofone abafado… Outras vezes, quebram notas musicais que surgem mais melodiosas. Trata-se, ao mesmo tempo, de buscar formas de relação com o instrumento que habilmente dominam, conectando-se com aquele objeto cenográfico maior – o palco – que ali, visualmente, se impõe.

O diálogo com o instrumento-palco implica este ser ocupado, ser tocado.  São os corpos dos bailarinos que, sempre numa postura horizontal, o animam. Beatriz Cantinho, Filipe Jácome e Francesca Bertozzi aconchegam-se e rastejam nas ondas do palco até voltarem a abandoná-lo, uma e outra vez, sentando-se entre o público. A coreografica é também improvisada, os corpos fechados sobre si próprios, introspetivos; embora se sinta uma notação de orientação conjunta em determinados momentos, sobretudo no final. É movimento resvalante e sonoro. A fricção dos corpos facilitada pela borracha dos figurinos negros aquecem o som da caixa. São as pancadas secas na madeira que o fazem ecoar pelo espaço. Em posturas embrionárias e gestos de percursão, a acústica é convocada de um modo quase cósmico que me faz pensar nos pitagóricos.

Nas descobertas dos intervalos musicais, os pitagóricos pensaram a harmonia como uma bela proporção matemática traçada pela movimentação planetária. Também por baixo do palco-instrumento as cordas afinadas são excitadas pela movimentação dos intérpretes e vibram por simpatia. A vibração emana e estende-se aos corpos que estão em contacto. Imagino que se possa assemelhar a uma massagem sonora. Entre os harmónicos dos instrumentos e o eco daquele dispositivo parece que se busca essa espécie de ruído das esferas, do cosmos. Uma música pouco definível, mas permanente, um manto sonoro.

Há uma sensação de desiquilíbrio sonoro, não sei se propositada, entre a ressonância subtil e levemente amplificada do palco e a amplificação dos instrumentos.

O blackout anuncia o desfecho. O silêncio e a escuridão finalizam esta paisagem à altura do olhar – Eye Height – um poderoso trabalho em torno do corpo, dos objetos, da sua alma e seus acordes vitais.


[1] Carpe Diem – Arte e Pesquisa, Galeria Fernando Santos e Sonorities – Festival of Contemporary Music.

corpo-caixa sonora [Eye Height]

20 Maio 2013


eye height

Eye Height. Cocriação e interpretação_Bailarinos: Beatriz Cantinho, Filipe Jácome, Francesca Bertozzi. Cocriação e interpretação_Músicos: Nuno Torres (Sax Alto), Ricardo Jacinto (Violoncelo). Acompanhamento técnico (Som): Ruben Santiago. Produção executiva: Sara Morais. Figurinos: Mariana Sá Nogueira. Produção: Menino Exemplares. Museu de Arte Contemporânea de Serralves, 13 de Maio de 2013.

Um palco sobre um palco, dispositivo cénico que é instrumento musical e plataforma coreográfica para uma paisagem sonora e espacial – EYE HEIGHT – espectáculo da bailarina e coreógrafa Beatriz Cantinho e do músico e artista Ricardo Jacinto, foi apresentado no passado domingo no Museu de Arte Contemporânea de Serralves.
Este evento é o segundo do ciclo de artes performativas Matérias Vitais, inspirado no livro Vibrant Matter: A Political Ecology of Things, da politóloga Jane Bennett, que destaca a relevância das matérias inanimadas na coexistência com os seres vivos. Por ocasião da exposição Alberto Carneiro: Arte Vida / Vida Arte: Revelações de Energias e Movimentos da Matéria, que integra estas premissas, e através da música, da performance e do cinema, este ciclo convoca para a experiência de “novos materialismos”.
Transportada para o palco, a plateia ocupa duas laterais. No centro, uma caixa em madeira de carvalho de 6x6m, construída em nove módulos, com a altura do olhar do espectador (que remete para o título da peça), desenha uma silhueta de topografia planáltica. Cada módulo tem no seu interior um conjunto de cordas com afinações determinadas.
Os músicos posicionam-se exteriores ao dispositivo: num dos vértices, Ricardo Jacinto no violoncelo e, no extremo diagonalmente oposto, Nuno Torres no sax alto. Da penumbra, a luz cénica destaca somente o objecto e os dois músicos que, entretanto, encetam um percurso de improvisação sonora.
Perante o dispositivo inerte, Beatriz Cantinho dirige-se da plateia para a plataforma, agora palco, e molda o seu corpo nos interstícios da topografia. Figurino em tom escuro, sem grande definição morfológica, contrasta com a tonalidade quente da madeira e, de rosto para o solo, o corpo submerge parcialmente nas curvas do objecto. Descreve movimentos horizontais, lentos, de deslize e fricção, atacados por gestos pontuais e bruscos de percussão. Na reacção ao gesto que excita as cordas, o objecto converte-se em caixa-de-ressonância e instrumento acústico que emite sonoridades subtis. Os outros dois bailarinos, Filipe Jácome e Francesca Bertozzi integram este processo com Beatriz Cantinho, entrando e saindo da estrutura central e procurando, em diálogo improvisado com os músicos, construir um território sonoro harmonioso. Sem partituras musicais à priori, nem notações de movimento, o ensemble de músicos e bailarinos propõe uma paisagem sonora e espacial (a que Ricardo Jacinto nos vem habituando), onde a presença dos bailarinos é instrumental e imagética.
A expectativa do dispositivo, e a sua beleza, fazem-nos desejar os momentos de silêncio para que este assuma um maior protagonismo. Com a amplificação dos outros instrumentos, a hierarquia do ensemble não é horizontal. O fim dá-se pelo blackout. Sem aviso, cumpre-se no final o legado do acaso de John Cage, que aqui se contamina a todo o evento performativo.

SINTOMAS E EFEITOS SECUNDÁRIOS | COLABORAÇÃO MAIS CRÍTICA

12 Maio 2013

Organização:

SINTOMA|performance investigação experimentação [Núcleo de Arte Intermédia do i2ADS – FBAUP]

NEAP [Núcleo Estudos Artísticos e do Património do InED (ESE/IPP)]

Curadoria: Fátima Lambert | Rita Castro Neves | Rita Xavier Monteiro

A programação Sintomas e Efeitos Secundários nasceu do desejo de partilhar a prática artística nacional e internacional da arte da performance. Com o objetivo fundamental de promover um intenso encontro convergente de dinâmicas artísticas, num contexto intergeracional – os Sintomas, pretendeu também ser um espaço de reflexão entre criadores, investigadores e o público – os Efeitos Secundários. Realizou-se durante dois dias – 3 de maio na FBAUP e 4 de maio na ESE – em torno de três eixos ilimitados e comunicantes: MOSTRAR-PENSAR-REGISTAR:

MOSTRAR |Apresentação de ações nos espaços interiores e exteriores da FBAUP e ESE/IPP com caráter site-specific. Além disso, desenvolveu-se um núcleo de vídeo-performance-documentação.

PENSAR |Análise, interpretação, reflexão, decifração… a partir três conversas (des)moderadas.

REGISTAR |Este último núcleo temático propôs reavivar a produção histórica de eventos e pensar as questões do registo da performance, seja por via do testemunho, seja através crítica, contando com a parceria do Mais Crítica e dos estudantes de Mestrado em Estudos Artísticos da FBAUP. Os jovens críticos convidados, através da redação em direto no próprio dia das ações, publicaram os seus textos online e, logo no segundo dia, num jornal de parede.

Por outro lado, a reposição de dois covers de uma performance de Albuquerque Mendes, coordenada pelo seu autor, coloca questões pertinentes que envolvem um acontecimento que recria o original e, ao mesmo tempo, performatiza o documental.cTodo o evento foi registado em vídeo.

Sintomas e Efeitos Secundários quis ativar as possibilidades de contaminação e troca de experiências que, partindo da academia, estão abertas à comunidade, cúmplices de uma prática que é, sobretudo, um processo.

Mais informações em: http://www.i2ads.org/sintoma/

CRÍTICA EM DIRETO (produzida em parceria com o MAIS CRÍTICA):

O tempo da paciência, por Alexandra Balona

Em: http://www.i2ads.org/sintoma/?page_id=511

Performance Expandida, por Ana Dinger

Em: http://www.i2ads.org/sintoma/?page_id=496

Uma longa caminhada, por Ana Dinger

Em: http://www.i2ads.org/sintoma/?page_id=500

Ensemble sonoro (por vir), por Alexandra Balona

Em: http://www.i2ads.org/sintoma/?page_id=504