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Sobrevivemos! [ZOS (She Will Not Live)]

23 Jun 2013

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Criação e interpretação: Joana von Mayer Trindade. Criação-direcção: Hugo Calhim Cristovão. Assistência: Paula Cepeda Rodrigues. Aconselhamento de luz: Rui Barbosa. PT.13 Mix Program # 2. White Box, 31 de Maio, 2013.

Uma mulher nua, uma garrafa de vodka, molas da roupa, um batom vermelho, um robe roxo. Há uma mulher nua com saltos altos pretos ao fundo do lado direito, é uma mulher robusta, com um corpo pouco atlético. Uma imagem forte, enigmática.

Zos? O que significa Zos? Uma palavra derivada do grego antigo que significa vida…

A vida de uma mulher só, despida, mas calçada. Ela inicia o solo com a garrafa, a sua expressão é séria, os movimentos são simples e mecânicos. Há desde logo uma tensão provocada pela nudez e pela manipulação da garrafa. Há como que uma decadência na expressividade desta mulher. Desespero? Uma mulher alcoólica? Ela bebe um trago, como que a preparar-se para a execução de algo. A execução da sua própria vida talvez. A fragilidade da vida retratada pela exposição do seu corpo nu entregue ao olhar público. No entanto a sua fragilidade é sustentada pela segurança com que se move.

Depois dirige-se para as molas da roupa, coloca-as numa parte do corpo – um quadro previsível para o decorrer dos acontecimentos – o corpo é o suporte, as molas servem o propósito. Em seguida abana violentamente o corpo até as molas se soltarem. Repete a cena várias vezes explorando diferentes partes do corpo. Há um misto de masoquismo e provocação que se torna mais evidente com o desenvolvimento da peça. A intérprete bate violentamente com o robe roxo na zona púbica inúmeras vezes, para que não restem dúvidas, e simula uma cena de masturbação com a garrafa.

O solo cresce em intensidade tornando-se cada vez mais agressivo. Por momentos parece que está prestes a agredir o público. Escreve freneticamente “she will not live” no seu corpo com o batom vermelho. Se esta peça pretendia ser uma interpretação da origem da performance art (como enunciado na sinopse), parece-me uma interpretação bastante superficial deste fenómeno iniciado na década de 60. Inúmeros artistas ao longo dos anos apresentaram performances que utilizaram o corpo como meio, ligados à arte conceptual, convidando à reflexão O que a intérprete se limita a fazer em ZOS (She Will Not Live) é uma série de actos de violência explícita aplicados ao seu corpo – que poderia ser comparada à body art, também da mesma altura – sem no entanto se verificar uma exploração quer coreográfica, quer no modo como manipula os objectos ou o corpo. Não chega a introduzir novidade ou surpresa na sua reinterpretação deste estilo artístico.

Este espectáculo integrado no Mix Program, dedicado a jovens criadores, justifica a falta de coerência que existe entre a intenção e o resultado final. No entanto, ao ser exibido nesta plataforma sugere que seja um destaque promissor do panorama actual português da dança contemporânea. Talvez seja uma primeira pesquisa inconsequente e corajosa por parte da criadora/intérprete. Como um primeiro despojar de capas protectoras, para depois proceder à exploração de algo mais profundo. Fica a dúvida.

She will not live? Sobrevive ou não? O público sobreviveu a Zos (She Will Not Live)… Termina sentada cuspindo vodka.

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  1. Hugo Cristóvão permalink
    27 Jun 2013 7:47

    Correcções:

    1- “Zos” não significa, ou não refere, “vida”. Indicar tal, simplesmente, incorre no erro, quando não na pura revelação de ignorância. Mesmo no contexto de um seminário de formação de aspirantes a críticos, como é o caso, a obrigação de pesquisar o real conteúdo semântico de um termo, e a simbologia que lhe está associada deve constituir-se como um misto de honestidade e forma correta de começar a trabalhar. Trata-se de uma pesquisa fácil de fazer. Zos não é redutível a “vida”, nem a palavra grega original , da qual se presume que a espectadora acha que derivaria, “Zoe”, é, assim sem mais nem menos, compreensível como “vida”. Do mesmo modo, o termo grego “Zoe” não tem, primariamente relações com o Bios de Aristóteles, como é dito num outro texto por aqui , nem o teria, diga-se, com o Bios Pitagórico. É anterior a esses dois momentos. “Zos”, esse, é outro termo, cuja génese e história deverá pesquisar, e que só indiretamente partilha relações de derivação com o grego antigo, e nunca as partilhará a partir da simplicidade interpretativa da ignorância que enfaticamente usa reticências para ainda mais se salientar. Seja como for, quando o Bios de Aristóteles é escrito já as Erinias estavam adormecidas, no caso em questão.

    2- A sinopse menciona “origem da performance”, não menciona origem da performance art. São duas coisas bastante diferentes. Nem a origem da performance é sinónimo de origem da performance art, nem a performance é performance art. Performance é uma coisa, performance art, fluxus, happening, accionismo, body art, outra. Ajuda saber do que se está a falar antes de divagar sobre “reinterpretação deste estilo artistico”. Ainda assim, nenhuma dessas coisas é, em rigor, um “estilo artistico”. Agora, misturá-las, com as características que é suposto terem, com uma “arte conceptual” que vise “convidar à reflexão” e à “inovação”, isso é um perfeito disparate. Claro que, entretanto, o “conceptual” também não é “arte conceptual.” Mas, e tendo em conta o contexto que já mencionei, fiquemos pela incorreção mais saliente : origem da performance não é origem da performance art.

    3-Ninguém termina sentada a cuspir vodka. No mínimo, isto aqui já é um delírio de uma espectadora perturbada, inexperiente, e comovida com o facto de ter conseguido sobreviver-se. Nem a acção final é cuspir vodka, aliás, nem a ordem do que tenta descrever com as molas é a que ocorre de facto, nem o vestido” bate” na zona púbica” inúmeras vezes” ( são três), nem a cena que tenta infrutuosamente descrever com a garrafa é uma masturbação. Seja como for a tentativa falhada de descrição cessa nos primeiros quinze minutos, altura em que terá sentido um crescendo de intensidade e agressão a dirigir-se para si enquanto “publico”, prestes a ser agredida dá-se a entender pela brusca mudança na dramaturgia do escrito, e é recuperada apenas no final, a tentativa falhada de descrição, com algo que só pode ser descrito como uma alucinação da espectadora a sentir-se intensamente agredida e a delirar em consequência.

    Tratadas as incorreções fundamentais, o resto é irrelevante. Seja a ideia ou presunção do que é ou não um corpo atlético. Seja essa visão extremamente convencionalizada de manipular o corpo ou de o usar como um meio misturado com essa ideia da manipulação de objectos mais surpresa. Seja essa ideia de atos de violência explicita, ridícula face ao que é verdadeiramente a violência efectiva, o que é em rigor violência, ou face ao que é uma estrutura precisa que não resulta em internamento hospitalar. Seja essa ideia de coerência entre intenção e resultados própria da consistência de sistemas lógicos, ou de processos algorítmicos de decisão automatizada, ou de programas de estimulo resposta definidos a partir de condições necessárias e suficientes. Sejam as afirmações de teor psicanalítico pretenso com que o texto termina, e de que em geral sofre. Tudo isso já é menor, e não merece a minha atenção. O que merece a minha atenção é como é possível que no contexto de formação em que este texto está inserido, numa apresentação praticamente exclusiva para programadores, críticos, e aspirantes a críticos, em que esses mesmos críticos e formandos discutem entre si e é suposto haver um acompanhamento dos formandos, como é possível que as incorrecções referidas subsistam, e sejam publicadas.

    Hugo Calhim Cristóvão

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