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Femmes savantes em exploração sonora

23 Jun 2013

AN SE 24

Andrea Neumann & Sabine Ercklentz. Pioneirinnen der Klangforschung. [Pioneiras da Investigação do Som]. Museu de Arte Contemporânea de Serralves: Sala Multiusos, 15 de Junho de 2013, 19h.

Para Andrea Neumann e Sabine Ercklentz, , músicas experimentais e performers sediadas em Berlim, os seus instrumentos não são simples dispositivos mediadores entre o corpo e o som, mas prolongamentos corporais ou superfícies onde o corpo penetra e, neles, se torna agente. O som não é somente a devolução do sopro, no caso do trompete de Sabine, nem do toque, no piano desmantelado de Andrea. Há uma expressão performativa do corpo no espaço, do corpo nos instrumentos e da tecnologia a subverter qualquer certeza do que presenciamos.

Esta contaminação entre a (i)materialidade do corpo, som, objectos e tecnologia instala este evento, confortavelmente, no ciclo Matérias Vitais, a decorrer no Museu de Serralves, no Porto.

Um evento tripartido: solo de Sabine Ercklentz (trompete, electrónica), solo de Andrea Neumann (piano desmantelado, electrónica), seguido da projecção do filme “Pioneirinnen der Klangforschung” [Pioneiras da Investigação Sonora] – projecto de vídeo em colaboração com a fotógrafa Anja Weber, musicado ao vivo pela dupla.

No primeiro momento, estão dispostos vários e diferentes amplificadores sonoros numa extremidade da sala multiusos. Com o trompete, Sabine Ercklentz deambula pelo espaço e improvisa sons, ruídos, grunhidos e sussurros. Interage com os amplificadores e com o som manipulado que emitem, altera o seu posicionamento e direcção, modelando os cheios, os vazios e o espaço-entre que o som produz.

Num segundo momento, Andrea Neumann opera o seu piano desmantelado (versão desconstruída do piano preparado de John Cage), colocando objectos entre as cordas, improvisando paisagens electro-acústicas metálicas, abstractas e, por vezes, estranhamente familiares. O seu corpo inicia movimentos subtis: o acento de um ombro, a oscilação do tronco ou da cabeça e, desconcertados, apercebemo-nos que é o movimento do corpo o agente sonoro, mediado por imperceptíveis ligações electrónicas.

No final, as artistas musicam o filme “Pioneirinnen der Klangforschung” no qual abordam, não sem ironia, o imaginário idílico do homem (neste caso mulher) modernista, pioneiro(a) na exploração da natureza e, com um piscar de olhos, satirizam a comparação ingénua e frequente entre a sua música e os sons da paisagem. No filme, a androgenia de Sabine e Andrea recordam-nos figuras femininas do modernismo do século XX, nomeadamente, a escritora e fotógrafa Annemarie Schwarzenbach. Ainda, o cenário do filme poderia bem ser o habitat natural de comunidades contra-cultura da época, como a colónia Monte Veritá, onde intelectuais e artistas partilhavam projectos sociais, artísticos e relacionais alternativos.

Sabine e Andrea, cada uma com uma escultura cónica auditiva, exploram a paisagem na prospecção íntima das suas sonoridades e ruídos. Não se tratará aqui de um apologia da imersão sonora do homem numa natureza (perdida) mas, ao invés, uma sátira de duas femmes savantes que, em cenário idílico e mediadas por dispositivos auditivos, reiteram a contaminação inescapável do homem e da tecnologia na sua relação com o mundo.

Nota: Texto elaborado no contexto da colaboração do ciclo Matérias Vitais com o Mais Crítica.

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