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Amor, tragédia e comunicação falhada [Play, the Film]

21 Jun 2013
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Play, The Film. Fot. Aíípio Padilha.

Play, the Film, dobrado por: André Godinho (Frank), Joana Manuel (Mary), Ariana Russo (Babe), Paula Sá Nogueira (Otto), Paulo Lages (Gabbo), Michelle D’Oleans (good old days dancer), António Gouveia (the man in charge). Participação especial de: Cais Sodré Cabaret – a blast from the past. Figurinos: Mariana Sá Nogueira. Luz: Jochen Pasternacki. Som: Iuri Landolt. Adereços: Nuno Tomaz. Fotografia de cena: Alípio Padilha e Joana Dilão. Produção: Cão Solteiro. PT.13, Cine-Teatro Curvo Semedo, 31 de Maio, 2013.

Play, the Film foi co-produzido e estreado no Festival Temps d’Images, em 2011 e apresentado em diversas salas, por todo o país, em 2012 e 2013. Como é habitual, as performances da companhia Cão solteiro, integram diversas vertentes artísticas e, criadores distintos, que vão desde as artes plásticas, às artes visuais e performativas. Play, the Film, não é uma excepção e, conta desta vez com a participação do realizador André Godinho. O espectáculo abrange a arte teatral e a longa-metragem: em palco estão os actores que representam ao vivo e em simultâneo é projectado um filme sobre um ecrã cinematográfico. Numa abordagem simplista poder-se-ia chamar ao que acontece em cena, uma dobragem feita ao vivo mas, de facto, este espectáculo vai muito para além disso: nem filme, nem peça, é simultaneamente ambos. É retratada a história de um artista, entrecortada por encontros e desencontros amorosos, onde se vê reflectida em última instância, a vida de inúmeros artistas anónimos que se dedicam incondicionalmente à sua profissão, mas que terminam a carreira em miséria.

O público entra directamente para o palco e acomoda-se em cadeiras por detrás da tela onde é projectado um filme com as imagens invertidas, ou seja, o público habita a cena e a representação é feita para uma plateia fantasma do outro lado da tela. A peça começa com a entrada de um homem que parece ser o director de cena que apresenta uma breve explicação sobre a estrutura do espectáculo: “há um intervalo, mas apenas para os actores”. É projectado o filme The Great Gabbo, de James Cruze (1929) dobrado ao vivo pelos actores, sentados de costas para os espectadores, frente a uma enorme mesa rectangular, frente à tela de projecção. A dobragem não é fiel ao original, nem tão pouco é real a trama apresentada no filme. São cortes e colagens do The Great Gabbo que subvertem o enredo original. O trabalho de dobragem feito pelos actores é irrepreensível e está meticulosamente estudado para simular a sintonia perfeita entre o som e a imagem.

Na sinopse pode ler-se que este espectáculo é “não exactamente uma peça de teatro, não exactamente um filme”, mas situa-se entre estes dois planos que não são lineares: há uma acção a decorrer ao vivo que é distinta da que ocorre no filme, mas ambas estão ligadas.

O filme narra a história de Gabbo um ventríloquo famoso, um homem frio e prepotente que se apaixona por Mary, uma artista em inicio de carreira. Este homem calculista, só consegue exprimir o seu afecto através do seu boneco de madeira, Otto. Otto funciona como um alter-ego de Gabbo, que contraria a agressividade e a indiferença para com Mary. Os diálogos do filme são hilariantes (foram substituídos por colagens de letras de músicas), principalmente para o público português familiarizado com a música popular portuguesa dos anos 80. São trocadilhos transformados em pergunta-resposta, que utilizam partes de letras de canções, como por exemplo, de António Variações ou Adelaide Ferreira. No plano teatral assiste-se à interacção entre actores, a cumplicidade, a partilha. É uma outra história, mas que não se dissocia totalmente do que ocorre no filme. Comportam-se como se estivessem de facto a fazer apenas uma dobragem, mas entrevê-se uma outra camada. Após o anunciado intervalo para os artistas, inicia-se uma outra acção. Os actores já não estão sempre de costas voltadas para o público; quando cantam dirigem a sua performance para a plateia. Há uma espécie de fusão entre o filme e o teatro: ambos ilustram cenas de espectáculo – cantores, bailarinos, actores. Há uma duplicação das cenas, mas com intenções diferentes. A história de Gabbo e Mary desenrola-se. Não se avista um final feliz para Gabbo. Mary abandona Gabbo e abraça a sua própria carreira, tornando-se uma artista conceituada que se apaixona por outro homem, Frank, um esbelto cantor, sensível e carinhoso. A decepção amorosa sofrida por Gabbo conduz progressivamente a uma decadência moral, que termina tragicamente em fracasso profissional. Os actores em palco simulam esta euforia transformada em loucura. Uma história de mais um artista fracassado, que é transportada para o palco e reflectida nos actores em cena. Se por um lado temos a história do ventríloquo, uma história fantasiada do filme, em que resta um homem só a quem todas as portas se fecham, um homem só e sem posses. Temos por outro, ao vivo pessoas/artistas que indirectamente simulam a mesma realidade.

Permanece uma dúvida constante em relação àqueles personagens que se encontram em palco, quais as suas histórias? Quem é a diva imóvel que canta em diferentes línguas? Quem é a rapariga que lima as unhas e dança perto do final? Porque não se entendem os actores entre eles? É como se ao longo da peça/filme se somassem momentos em que falha a comunicação ou o entendimento mútuo. Assim como o incompreendido Gabbo não soube expressar o seu amor – não falava a mesma linguagem de Mary, afastando-a – também os actores em palco, quando comunicam entre si falam línguas diferentes e não se entendem. Será uma história de amor parecida à vida de um artista? Será a linguagem, dos apaixonados, idêntica à dos artistas? Serão os artistas uns apaixonados pela arte? Será o desfecho da carreira artística semelhante ao de um amor não correspondido? Será The Great Gabbo uma metáfora à vida de um artista? Talvez não haja apenas uma resposta. Play, the Film encena duplamente, ao vivo e na tela, a queda de um artista – da diva e de Gabbo – articulando a relação entre o artista e a sua vocação, com o amor, com o sacrifício, com a competição ou a traição. Como se assistíssemos a uma luta incessante para vencer na carreira artística, que finalmente encerra com a incerteza de realmente ter sido válido o esforço e, em prol de quê foi esse esforço. Sem explicações a peça termina com os actores a saírem de cena, com uma resposta para a imobilidade da diva, que sai empurrada numa cadeira de rodas dirigindo um olhar trágico à plateia.

Play the Film apesar de ser um espectáculo intrincado do ponto de vista das diferentes leituras que permite, é extremamente divertido e o desempenho dos actores é excepcional. Consegue abordar o tema da fragilidade, e inclusive da precaridade da vida de um artista, e a efemeridade da carreira, duma forma supostamente ligeira. Contudo demonstra cruamente esta realidade causando até um certo desconforto. Não podia ser um tema mais actual dada a conjuntura que se vive no meio artístico em Portugal. Cada vez com menos dinheiro, menos apoios e menos oportunidades, os artistas sobrevivem e continuam a fazer bons espectáculos. Mas será o fim trágico?

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