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Dois Corpos num Espaço [Wasteland] e [Cascas d’Ovo]

15 Jun 2013

Wasteland, criação e interpretação: António Cabrita e São Castro |acsc|. Co-produção: Vo’arte | Silk Z./resistdance. PT.13 Mix Program #1. Sociedade Carlista, 31 de Maio, 2013.

Cascas d’Ovo, concepção e coreografia: Lander Patrick. Interpretação: Jonas, Lander Patrick. Figurinos: Lander Patrick. Desenho de luz: Lander Patrick e Rui Daniel. Produção e difusão: Clara Antunes. Consultor criativo: Tomaz Simatovic. PT.13 Mix Program #2. White Box, 31 de Maio, 2013.

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Fot. Augusto Cabrita

Na plataforma PT.13 realizada em Montemor-o-Novo, de dia 29 de Maio a 1 de Junho, de 2013, teve lugar, no dia 31 de Maio, a programação dedicada a novos criadores emergentes. Ali estiveram, entre outros, António Cabrita e São Castro com a sua primeira criação Wasteland, e também Lander Patrick com Cascas d’Ovo, ambas estreadas em 2012, em Lisboa.

Wasteland inicia-se com a dupla António Cabrita e São Castro a percorrer o fundo do palco da direita para a esquerda. Caminham de gatas lentamente como se fossem um só corpo, a sincronia dos movimentos é perfeita, sem erros, sem hesitações.

Ambos vestem calças pretas e blusas creme. As suas estaturas são semelhantes o que provoca uma sensação de duplicação – são dois, mas parecem um – tanto na indumentária, como na qualidade do movimento. A acção vai-se desenrolando sempre em torno de movimentos uníssonos executados sem falhas. A qualidade técnica é excelente, faz lembrar um ritual ou uma demonstração de tai-chi, pois ambos permanecem lado a lado enquanto se movem lentamente. Os dois intérpretes e criadores desta coreografia são experientes na matéria da interpretação e comprovam-no nesta peça: demonstram segurança e o movimento é limpo e preciso. Quando enfrentam o público mantêm a mesma dinâmica, são dois num trabalho a solo, que não distingue sexos nem sensações. Tudo acontece numa penumbra quase silenciosa. O palco, vazio, é apenas preenchido por estes dois corpos e há uma cumplicidade tácita que está para além daquilo que se vê na deslocação lenta dos corpos.

A peça evolui em termos da dinâmica e da energia empregue no gesto, a velocidade aumenta e percebe-se a preocupação com a estrutura coreográfica e com a pesquisa. Depreende-se que por trás das inúmeras variações empregues, e frases de movimento complicadas, está um trabalho profundo de pesquisa coreográfica que não se limita ao movimento per se, mas que fica aquém, pois dilui-se, por entre a imensidão do movimento, exterminando qualquer tipo de significado ou intenção. O desenrolar da peça progride até ao ponto dos dois intérpretes se tornarem autónomos – aqueles que outrora eram um só, são agora dois – dois corpos/indivíduos separados que se movem a alta velocidade. A tónica principal é o movimento, mas será isto suficiente?

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Cascas d’Ovo, de Lander Patrick

Wasteland é uma peça fundada na ideia de que o corpo é o repositório de inúmeras histórias, instantes, matérias e espaços que compõem a realidade. Adivinha-se que por detrás dela está um trabalho de pesquisa intenso e dedicado, centrado numa procura por algo relevante, traduzido através do corpo – a entrega total àquilo que estão a fazer – uma dança mergulhada num imaginário particular, mas à qual falta uma dramaturgia que interligue toda a peça. A coreografia termina com um fabuloso solo de São Castro e logo depois um encontro com Cabrita, que poderia ser uma coisa qualquer, pois finaliza sem uma pista coerente.

Assistimos a um espectáculo que, do ponto de vista técnico, nada há a apontar. No entanto, carece de uma dramaturgia mais aprofundada em termos das temáticas propostas. Há que ter em consideração, que esta é a primeira criação destes jovens coreógrafos e, portanto, descobre-se uma certa imaturidade da composição. Acontecem demasiadas sequências de movimentos que se traduzem apenas em formas virtuosas e complexas, que deslumbram pelo primor da execução do gesto, mas que não transportam o espectador para o imaginário proposto. O corpo torna-se um território devastado ou apocalíptico, ou fértil? Como reage o corpo” perante um espaço hostil e um vazio físico”, ou o corpo como contentor de “uma colecção de instantes e histórias em processo ordenador e configurador da realidade” como enunciam os criadores. Este domínio estruturante do conteúdo da peça permanece demasiado abstracto para ser entendido ou interpretado.

Por contraponto em Cascas d’Ovo realizado pela dupla Lander e Jonas, encontramos uma concepção coreográfica inundada por significados e imagens. A coreografia começa e acaba com os dois intérpretes vendados. Ambos caminham através de um coração desenhado com cascas de ovo no chão do palco. À medida que esmagam as cascas com os seus passos exploratórios, num percurso traçado, antevê-se o encontro dos dois homens. O encontro é surpreendente: um cumprimento, uma carícia, transformam-se num jogo de crianças, que levados ao extremo, conduzem a uma proximidade íntima dos corpos.

O desencadear de vários momentos lúdicos coreografados remete para brincadeiras infantis, inocentes que pertencem ao desbrochar da vida da criança, para a descoberta do seu eu e da sua sexualidade. Há no ar uma tensão de um amor inocente e cego. Brincam com estalos e palmadas que imprimem no corpo do outro compondo um ritmo musical, através da percussão das mãos e do bater dos pés no chão. É um espectáculo permeado por uma leveza naïve provocando naturalmente o riso em alguns momentos.

O encontro dos dois homens de olhos tapados com uma venda, com corações cintilantes, torna-se cada vez mais íntimo e mais claro. Dançam e cantam Like a Virgin, de Madonna, e entregam-se à exploração do corpo. Se em Wasteland se assiste à imaturidade coreográfica do ponto de vista da dramaturgia, aqui assiste-se a um excesso de imagens explícitas que se cingem a um universo gay e que de certo modo se torna redundante na maneira como expressam a mensagem. Será essencial ilustrar mensagens com purpurinas no corpo, ou insistir nos corações seja nos ovos, nos balões ou nas vendas, ou ainda, será necessária a nudez para exprimir intimidade?

A peça termina com a dupla a dançar um slow enquanto vários personagens invadem o palco para realizarem tarefas do dia-a-dia. Estas personagens não são performers, são pessoas comuns, na maioria mulheres: a primeira entra com um aspirador, limpando as cascas de ovo no chão, invocando o estereótipo das empregadas domésticas ou donas de casa, entram também uma mulher vestida com um robe ou raparigas que patinam ou brincam com um cão. O casal de calças baixadas continua a sua dança indiferente aos transeuntes que intersectam o espaço. E assim terminam os dois, juntos, abraçados, de olhos vendados no espaço, trespassados por uma multidão também indiferente, como se vários universos coabitassem num mesmo plano, sem se cruzarem.

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