Skip to content

CADÁVER ESQUISITO DA CRÍTICA | PT 13 – plataforma portuguesa das artes performativas 29 maio a 1 junho 2013 Montemor-o-Novo

10 Jun 2013

De 29 de Maio a 1 de Junho, o Mais Crítica esteve em residência na Plataforma Portuguesa das Artes Performativas PT-13, em Montemor-o-novo. Para além de assistirmos a todos os espectáculos, trabalhámos e discutimos com os críticos Gerard Mayen e Helen Meany, Nos próximos tempos serão publicados alguns textos provenientes desta residência de trabalho. O texto agora publicado surge como um exercício colectivo de escrita, da autoria de Alexandra Balona, Ana Dinger, Rita Xavier Monteiro e Sofia Soromenho, a partir da nossa experiência na PT-13, seguindo uma estratégia de cadavre exquis ou, como habitualmente se traduz para português, ‘cadáver esquisito’.

HIGHLIGHT [Tiago Cadete/EIRA] Criação e interpretação: Tiago Cadete. Consultadoria artística: Francisco Camacho. Direção técnica: Nuno Patinho.

Uma cidade e um mar prateado e um espelho e um reflexo de multidões solitárias. Solitário é o narciso que se concentra na devolução que o mundo opera da sua imagem. Paisagens que se sobrepõem e intersectam. Dentro, fora, entre. Dois tempos e espaços. Matéria. Fica-se sem perceber aquilo que está a ser Highlighted. Highlighted foram as imagens em movimento das ruas de Nova Iorque, projectadas como cenário da performance, seguidas de frases sobre o estado do mundo. Lento road movie, táxis amarelos, transeuntes no quotidiano saturado da megalópole. Desse excesso, a indiferença e alienação, a melancolia ou o spleen baudelairiano. Sobre o performer e o seu movimento: várias imagens e gestos coreográficos sem conexão clara: corpo sobre um espelho, duplicação da imagem, isqueiro que acende rasto de fogo; ou corpo em movimento submerso numa tela plástica sob o palco. O gesto que poderia em si mesmo ser reflexão, surge figurativo – o que vem sublinhar a lógica contemporânea da mediatização e do espectáculo.  

PARAÍSO – COLEÇÃO PRIVADA [Marlene Monteiro Freitas] Coreografia: Marlene Monteiro Freitas. Interpretação: Yair Barelli, Lorenzo de Angelis, Marlene Monteiro Freitas, Luís Guerra, Andreas Merk. Música: Marlene Monteiro Freitas with the support of Nosfell and Tiago Cerqueira. Desenho de luz e Som: Yannick Fouassier. Pesquisa e Imagen: João Francisco Figueira e Marlene Monteiro Freitas. Figurinos: Marlene Monteiro Freitas. Produção e Difusão: Andreia Carneiro – Bomba Suicida (PT), Erell Melscoet (FR).

Iluminadas por focos amarelos que formam um arco flutuante onde o paraíso toma espaço. O paraíso da energia carnal dionisíaca, do animal, mas também da dominação, da submissão, do afeto, da carência, do maternal, do sexual. Num mesmo tempo cómico e trágico: o ensaio da criação, da criação. Colecção de criaturas orquestradas por uma figura-devir – coreógrafa-demiurga?-maestrina. Pequeno reduto – universo? – regido talvez por outro(s) código(s). Na tensão entre o ridículo e a emergência dos mais sérios e radicais assuntos. Um concerto desconcertante. Desconcertante concerto no jardim privado do Éden onírico de Marlene Monteiro Freitas. A criatura coreógrafa-mulher-mágico-psycho-toureira orquestra quatro seres – faunos animalescos, mecanizados, enamorados e submissos – num ensemble sonoro e coreográfico visceral e gritante. Corpos que vão do excesso barroco à abstracção de Nijinski, da street dance ao eroticismo do samba. Sem paralelo, esta peça abre uma fractura para um outro tempo. Consome-se tempo a alta velocidade, mas aqui o tempo pára, porque o tempo para reflectir urge e não podemos fugir. Há uma urgência, uma tensão que provoca sensações e não se sabe de onde vêm. É sempre mais e mais…uma energia inquietante.  

TRISTEZA E ALEGRIA NA VIDA DAS GIRAFAS [Mundo Perfeito/Tiago Rodrigues] Texto e encenação: Tiago Rodrigues. Com: Carla Galvão, Miguel Borges, Tiago Rodrigues e Tonán Quito. Elenco Original: Carla Galvão, Miguel Borges, Pedro Gil e Tonán Quito. Música e sonoplastia: Alexandre Talhinhas. Participação especial: Beatriz Bizarro Rodrigues. Cenário e figurinos: Magda Bizarro e Tiago Rodrigues. Luz e apoio técnico: André Calado. Figurino Urso: Sandra Neves. Imagem do cartaz: Afonso Cruz. Produção Executiva: Ana Pereira, Magda Bizarro e Rita Mendes.

Demasiado longo. Universo ingénuo de uma menina de 9 anos que toma um corpo gigante e dialoga com o público como se ilustrasse e animasse uma enciclopédia. Vemos um urso que regurgita palavrões, o pai que é o Tchekhov, a falecida mãe violinista, uma banda rock ao vivo, a cidade em imagem em movimento retroprojetada. O texto é muito bem conseguido, articulado, irónico, simultaneamente doce e amargo. Mas o espetáculo é longo, demasiado longo… Longo é o trajecto, entre a vigília e o sonho (infantil). Longo também se torna o desacerto entre as palavras que se usam e aquilo que se quer dizer (intervalo entre a definição semântica e a aplicação pragmática). Um estranhamento do mundo e do seu funcionamento. Uma criança que tropeça nas leis impostas, forjada por poucos, cumpridas por muitos, contornadas por alguns. Não por crianças que querem roubar um banco só para pagarem a conta da Tv por cabo de forma a verem o Discovery Channel de forma a escreverem um trabalho para a escola sobre as alegrias e tristezas das girafas. Mas, claro, não é sobre girafas, ou apenas sobre girafas, aquilo de que se fala. Fala uma menina de 9 anos, que a mãe enquanto viva chamava de girafa. Tendo como companhia o seu pai (desempregado e sem dinheiro para pagar o Discovery Channel) e o seu urso indisciplinado, a menina-girafa parte em fuga para tentar resolver os problemas financeiros do progenitor. Pede dinheiro a quem passa, tenta em vão assaltar um banco, ou até falar com o primeiro-ministro Passos Coelho. Uma peça subversiva e polémica sobre a inocência e perspicácia das crianças num mundo em crise, e virado às avessas. Uma história às avessas, e ao mesmo tempo sem sê-lo. Uma história de uma criança e, ao mesmo tempo, uma história de adultos. Questões muito actuais. A retórica, a retórica.  

SÍNCOPA [Tânia Carvalho] Coreografia e interpretação: Tânia Carvalho. Assistente de Ensaios: Petra Von Gompel. Música: “Nada” de Tânia Carvalho. Texto: Valter Hugo Mãe. Figurinos: Aleksandar Protic. Desenho de luz: Zeca Iglésias. Produção e difusão: Sofia Matos. Agradecimentos: Régis Estreich.

Síncopa é o nome desta dança. “Nada” o da música que a performer também compõe. Valter Hugo Mãe o texto que a inspira. Monstruosa a figura do desenho que a ilustra. Mas tudo isto sabemos ao ler a ficha técnica. Tudo o resto decorre num instante entrecortado. Tudo o resto é uma rica avalanche de gestos no espaço do tempo de um suspiro de um corpo e um riso nervoso que se exibe num quadrado de luz. Uma luz interrompida, um movimento sincopado que nos obriga ao enfoque no intervalo. Um movimento que faz emergir o inefável, que está aquém ou além das palavras. E como usar palavras para discorrer sobre o indizível? (Não podemos dizer o indizível mas podemos usar palavras para nos aproximarmos do que não pode ser dito e porque não pode ser dito.) Operando sobre o que está (ou não está) entre. Entre o aparecer e o desaparecer, “Síncopa” é a interrupção, a supressão – seja da luz que em flashes pontuais ilumina e oculta os movimentos da performer, como da expressão facial que, num repente, rasga o inexpressivo e dá uma entrada ao interior mais velado da artista. Figura elegante, movimentos banais ou abstractos, mas significantes: pernas fixas, tronco e braços em agitação, transformação. Um corpo de movimento contido que não é imagem, mas abre um abismo para lá da pele e do gesto, até ao interior dos ossos, extraordinária intimidade sem verbo. Mesmo sem a utilização do verbo tudo acontece ‘sincopadamente’. A luz limita um espaço e também a acção, são momentos fragmentados, mas unidos, atravessados pela mesma energia que trespassa o espaço/tempo e o palco.  

[UNTITLED] CHARCOAL ON CANVAS [Mónica Garnel] Autoria: Miguel Castro Caldas. Encenação, Interpretação, Espaço Cénico: Mónica Garnel. Ator convidado: José Miguel Vitorino. Participação Especial: Rute Cardoso. Canções: AG. Fotografia: Bruno Simão. Tradução/Legenda: Rita Garnel. Produção: Mónica Garnel Rute Cardoso. Agradecimentos: Mónica Calle, Alexandra Gaspar, Sofia Victória, José Manuel Rodrigues, Rita Garnel, aos noivos, Bruno Simão, Mário Fernandes, Luís Afonso, Mauro Santos, Simon Frankel e Joana Sapinho, Francisco Frazão, Patrícia Saramago, Duke Ellington, Herberto Helder, Wilson Magalhães, Ira G. Laurinha, Veri e Mia.

Uma mulher que já teve muitos noivos quer casar-se de novo, a cada espetáculo será pedida em casamento. De volta de um caixote de madeira – sinónimo de casa, de proteção mas também de sistema – esta mulher lamenta-se da sua circunstância. Espetáculo novelesco e um texto sarcástico sobre o amor e o significado das palavras. Como (re)pensar um compromisso que não nos comprometa? Nos interstícios e subtilezas do texto, um ensaio de como repensar, reformulando, ‘repalavrando’, um verbo. Uma acção. Uma possibilidade de partilha. Casar. Casa. A-casa-lar. Lar. Casa. Casa em forma de caixa de madeira que a actriz move pelo palco. Casa portátil para casa(r) e ir por aí, largar a prisão da casa-empréstimo. Quem quer casar? O desafio da actriz é respondido no final pela entrada mirabolante de um possível noivo interessado (em cada espectáculo, um noivo diferente, um final surpresa). O desfecho, com o público entretanto arrastado para o palco, as juras de amor e o vinho espumante vieram confirmar a banalidade da peça. Um pedido de casamento, uma peça, uma casa em andamento, uma viagem, uma improvisação, um acaso. Pode funcionar ou não, a peça, o casamento. Resta a dúvida.  

YOU NEVER KNOW HOW THINGS ARE GOING TO COME TOGETHER [TOK’ART] Direção Artística, Espaço Cénico, Coreogafia: André Mesquita. Cocriação (movimento): Sylvia Rijmer, Teresa Alves da Silva, Filia Peraltinha, São Castro, Guzmán Rosado e Marco Ferreira. Luzes: Nuno Salsinha. Figurinos: André Mesquita. Música: Welstchnerz, Melotron, Keskeivoima/Centralforce, PanSonic e Tu non mi perderai mai, Peter Gregson. Arranjo musical: Guzmán Rosado. Intérpretes: Masa Kolar, Teresa Alves da Silva, Filipa Peraltinha, São Castro, Marco Ferreira e Gustavo Ramírez Sansano.

Há uma luz. Há uma luz que os quer vir buscar e que é uma nova ordem, o desconhecido. Os bailarinos organizam-se e interagem em movimentos coreografados e fluídos que oscilam entre a luta marcial, o robô e o impulso mais orgânico. A paisagem sonora é poluída. Tudo pode ser. Pode ser um estado do mundo pré ou pós apocalíptico. Pode ser um diagrama móvel das relações interpessoais. Um mapeamento de distâncias (proximidade e afastamento). Não parece ser, no entanto, na sua previsibilidade, aquilo que promete: tradução de incerteza. Incerteza é o não certo, o não claro, é tom cinzento. E aqui (quase) tudo é cinzento: a monotonia da música, o cenário inexistente, a luz de uma neutralidade dormente, os figurinos cinzentos, o desenho coreográfico previsível: frases de grupo que se desfazem em duetos, solos, retoma do grupo, e assim sucessivamente. O que não é cinzento é a qualidade técnica indiscutível dos bailarinos. São alguns momentos de efectiva beleza que nos conseguem despertar da monocromia do todo. A dança pode ser só dança, mas para lá do virtuosismo, ela deve agarrar, inquietar. Inquietante é a sensação de observar, sentir a vibração dos fabulosos intérpretes que entregam todo o seu ser quando se movem, quando dançam, mas isto é suficiente? Talvez não, talvez haja um percurso a fazer, uma descoberta por acontecer.  

ATLAS [Ana Borralho & João Galante] Performers: 100 pessoas de diferentes profissões. Conceito, luz e direção artística: Ana Borralho & João Galante. Som: Coolgate. Aconselhamento luz: Thomas Walgrave. Colaboração artística: Fernando Ribeiro. Colaboração dramatúrgica: Rui Catalão. Colaboração artística e coordenação de grupo: Catarina Gonçalves, Cátia Leitão, Tiago Gandra (Marie Mignot na estreia em Lisboa, Veronica Castro (Volante. Documentação vídeo e edição: Vasco Célio. Agradecimentos: Mark Deputter e aos performers que participaram em todas as apresentações de Atlas. Duração da performance: 80 minutos.

A diversidade, a denúncia, as cores, as costas, as formas, a frase: “Se 1….incomoda muita gente, 2…incomodam muito mais”. Os corpos, a corporação, a gestão, o grito. O Portugal e o Universal. A multiplicidade e a unidade. A condenação e a ação. A intervenção, a educação, a invenção, a arte. Se um trabalho artístico com agenda política incomoda muita gente, vários trabalhos artísticos – ou, mesmo, um mesmo trabalho artístico em digressão pelo mundo fora -, incomodam muito mais. Ainda bem que incomodam. Comovem. Contaminam. Abalam a desconfiança de que “a união pela força” é uma máxima utópica. Talvez, talvez, o incómodo possa tornar-se tão grande que permita a mudança. Mudança certa na vivência de uma comunidade, a peça “Atlas” convida 100 pessoas da localidade onde se apresenta para, um a um, partilharem com o público a sua profissão ou, no caso dos mais jovens, as suas aspirações. Se a proposta arriscava a monotonia, Ana Borralho e João Galante introduziram as quebras e variações necessárias para que os 80 minutos de “Atlas” se convertessem em momentos lúdicos e de crítica. O público constrói relações de identificação e de cumplicidade com o grupo. A voz que é singular torna-se, pouco a pouco, plural.  

OUT OF ANY PRESENT [Sofia Dias & Vítor Roriz] Direção, interpretação e cenografia: Sofia Dias & Vítor Roriz. Som: Sofia Dias. Colaboração artística: Catarina Dias (imagens em cena). Convidado: Filipe Pereira. Direção Técnica e Iluminação: Nuno Borda de Água. Agradecimentos: Maria Ramos, Oficinas do Convento, João Sofio, Tiago Fróis, Hélder Azinheirinha, Pedro Videira.

A dupla Sofia Dias e Vitor Roriz prossegue a pesquisa em torno dos interregnos dos movimentos e das posturas recolhidas e costuradas em fragmentos. As frases e canções na língua inglesa são desconstruídas numa recolha de sons e sentidos. Copulam novas morfologias, novas fonologias e o eco. Um dispositivo, que poderia funcionar como uma obra de instalação, acompanha a marcha com destino galático. Trata-se de um painel rolante que distribui pedaços de uma organização de mundo disperso em imagens reconhecíveis (da cidade, de animais, de figuras históricas) e linhas de um caminho. Uma corrente de bicicleta que ativa esse dispositivo de imagens em movimento cujo ruído lembra o da projeção da película cinematográfica. É manipulado para a frente, para depois se desenrolar para trás, denunciando uma passagem de tempo. O eterno retorno. Rewind. Fastforward. Repetição de um caminho, agora com novos desvios (diferenciais). O que vem antes? O que se segue? Quem vem antes? Quem se segue? Pontos de um segmento. Segmentos de uma recta. Uma recta que se curva. Um trajecto revisitado com renovados encontros. Encontros entre o movimento, a exploração da palavra e as imagens em movimento do dispositivo cenográfico são os elementos que se destacam em “Out of any presente” de Sofia Dias & Vítor Roriz. Os criadores regressam à fragmentação do gesto, ao movimento intermitente e indefinido, acompanhado por camadas de texto inaudível, dito e musicado. A temática da partida, numa primeira leitura, plasma-se na retórica da emigração, tão recorrente hoje, mas o insistente “I have to go away” do texto não fala de distanciamento geográfico mas de abertura a outras multiplicidades. A literalidade do texto não vive em consonância com a indefinição e fragmentação dos movimentos, nem com as imagens difusas. A inquietação, de si prolífera, esvai-se na evidência do texto. O texto falado transforma-se em texto cantado, são canções que se encadeiam e se encaixam na acção, no movimento, tanto dos corpos como dos cenários. Há uma estrutura metálica manuseada por um ‘ajudante’ que desenrola e enrola uma série de desenhos e imagens. Fragmentos do quotidiano que nos inundam de significados, mas que desatentamente não observamos.  

THE 1st DANCE OF URIZEN [Luís Guerra] De e Com Luís Guerra. Direção técnica: Zeca Iglésias. Produção: Bomba Suicida – Andreia Carneiro.

Sob um quadrado de luz branca a figura de Luís Guerra veste uma camisola e um gorro de malha tricotada a preto, branco, amarelo, azul e rosa. Os olhos e a face estão pintados de branco, enfatizando um expressão grotesca. Em cada mão uma colher de pau, símbolo psicanalítico da bruxaria, do cozinhar de feitiçarias. Sob um quadrado de luzes de reflexos coloridos, a figura mitológica de Urizen de Primeiro Livro de Urizen de William Blake ganha a materialidade do corpo do performer. A dança ritualística expande-se a novos sentidos. O sentido da história. Ou que sentidos tem a história? Linearidade e não linearidade. Sincronia, diacronia, (an)acronia. Nijinsky e a sagração. Schlemmer e as extensões das linhas do corpo. Cunningham, Rauschenberg e Johns. Pop. Intersecções, convocações ou projecções. História(s). História(s) e imagens que nos transportam ao abstraccionismo das vanguardas modernistas da dança: do ballet triádico de Oskar Schlemmer na Bauhaus, aos movimentos geométricos no octaedro de Rudolf von Laban. Luís Guerra surge como um ser articulado, boneco-marioneta de movimentos geométricos, pernas fixas, braços e tronco móveis. Figurino policromático e abstracto dialoga com o desenho de luz que alterna momentos de cor magenta, amarela, verde, azul. E do inexpressivo do mimo escapa-se um rasgo do expressão. Peça figurativa que não deixa de ser insólita e, por isso, disruptiva. Luís Guerra mostra-nos a sua irreverência neste solo. A sua criatividade evoca uma sensibilidade que transcende aquilo que é palpável. Queremos ver mais, mas aquilo que é mostrado fica um pouco aquém. Percebe-se a procura e a entrega, mas o resultado final simplesmente fica suspenso naquilo que é imaginável.

WASTELAND [António Cabrita e São Castro | acsc] Co-produção: Vo’Arte| Silke Z./resistdance.

Em Wasteland é admirável a qualidade e beleza da gestualidade destes bailarinos que se tornam cúmplices na descoberta. Os dois corpos, simultâneos um do outro, deixam inevitavelmente revelar os ínfimos pedaços dessincrones do movimento e a efemeridade da matéria. A paisagem coreográfica, acompanhada por uma colagem eclética de sons, desdobra-se em tantos territórios possíveis que esvaziam a possibilidade do espetador vislumbrar um impulso legitimador. Um espetáculo rico, mas que ainda não se regista nesse espaço de terreno baldio. Paisagem deserta. Desacerto. Na procura de ilustrar a condição humana. Desacerto. Na tentativa de traduzir para movimento do corpo o movimento das palavras. Desacerto. Na possibilidade de garantir continuidade. Desacerto. Desacerto só no final, quando os dois performers divagam por trajectórias singulares. Antes, desde o início, a sincronização da partilha do tempo e do território é feita a dois corpos. A beleza do movimento e do gesto pedem a passagem audaciosa para algo mais, que vá além da superfície da pele e do visível. Uma dupla visivelmente sincronizada e preocupada com o pormenor. Cada detalhe cuidadosamente estudado em termos do movimento físico. Mas a carecer de algo mais para além desta exploração, o espectador deslumbra-se com o virtuosismo, não com o conteúdo. Uma coreografia extremamente preenchida pelo exímio movimento dançado. Não é propriamente uma obra bem-sucedida, mas para uma estreia desta dupla, nada a apontar.  

ZOS (She Will Not Live) [Nulsls ZoBoP] Criação – Interpretação: Joana von Mayer Trindade. Criação – direção: Hugo Calhim Cristóvão. Assistência: Paula Cepeda Rodrigues. Aconselhamento de luz: Rui Barbosa. Duração: 45 minutos.

A confrontação com a figura de uma mulher robusta e desnuda. Há a nudez e a desnudez. E a última des-cobre, des-vela a vitalidade que trespassa o individual. Do zoé que ultrapassa a bios no sentido aristotélico… A narrativa é claramente citada, apropriada da história da performance. A violência crescente, carnal e bruta mimetiza uma energia inesgotável. O que se assiste é contínuo devir sobrevivente do mais forte. Construção de imagens. Um saco plástico com molas, um chapéu de palha, um vestido cor-de-rosa, um acessório de conotação sadomasoquista, sapatos de salto alto e uma garrafa de vodka. A violência do género. O indivíduo violentado. O transversal animalesco. A (im)possibilidade de redenção. O que é isto que nós somos? Somos todos Zoe (em grego), vida orgânica, energia vital que não termina, que se recicla. Uma peça sobre a vida crua, posta a nu, e a sua procura nas origens da performance. A pele e o corpo sujeitam-se à exploração de energias sexuais, de dominação e de exposição sem, porém, produzir algo além do accionismo vienense, das performances de Carolee Schneeman ou da body art das décadas de sessenta e setenta. Uma criação que poderia ter sido resgatada dos anos 70 ou 80 aparece aqui um pouco deslocada. Uma necessidade de exposição do corpo feminino a nu, um corpo que se auto molesta, mas para quê? Há uma carga forte neste solo, mas sem uma intenção clara. A coreografia vai desenvolvendo-se no tempo, vamos assistindo a diferentes imagens, mas que não transportam inovação ou irreverência.  

CASCAS D’OVO [Lander Patrick] Concepção e Coreografia: Lander Patrick. Dramaturgia: Jonas, Lander Patrick. Figurinos: Lander Patrick. Deseho de Luz: Lander Patrick e Rui Daniel. Produção e Difusão: Clara Antunes. Consultor Criativo: Tomaz Simatovic.

A leveza e o colorido deste espetáculo é, ao mesmo tempo, uma constante interrogação sobre o mundo. Calcando cascas de ovos e apertando/estalando mãos, cantam Like a virgin como quem espera o que está para vir. Ai, como a vida é tão doce e tão frágil! Frágeis como histórias de amor, cascas d’ovos. Um universo kitsch vai despontando como paisagem em que duas figuras interagem, de olhos vendados. Essa interacção consiste num jogo de bater com as mãos (nas mãos do outro, do seu corpo) e de saltos, que se distancia progressivamente dos jogos infantis para convocar outras conotações. Este dueto obvia dois aspectos essenciais para uma colaboração coreográfica assim como para uma história de amor (a sinopse, “This is not a love story”, é uma brincadeira ‘magritteana’): confiança e cumplicidade. Cúmplices nos olhos vendados, na quebra dos ovos, nos jogos clownescos das palmas e estaladas, nos desafios pueris e lúdicos. No final, a (pseudo) agressividade passa a afectividade, que talvez não precisasse da redundância do nu. E, inesperadamente, um a um, alguns estereótipos entram no palco para um retrato social: um exterior cacofónico que contrasta com a intimidade de dois corpos abraçados. (Somos mais íntimos quando nos despimos em palco?) Todo o palco fica preenchido, mas não de cascas de ovo como acontece com o coração inicial, mas sim de pessoas, pessoas comuns que deambulam pelo palco executando a sua tarefa específica. Cada um no seu papel. E dois homens que se amam permanecem abraçados a dançar um slow, como se não existisse nada mais ao seu redor.  

PLAY:THE FILM [Cão Solteiro e André Godinho], um espetáculo construído a partir de The Great Gabbo de James Cruze, 1929, por: André Godinho, Joana Manuel, Joana Dilão, Mariana Sá Nogueira, Michelle D’ Orleans, Noëlle Georg, Paula Sá Nogueira, Paulo Lages, Steve Stoer.

Atrás da tela de projecção, atrás do filme projectado, estamos sentados. Partilhamos o espaço com os performers que forjam os diálogos das personagens emudecidas de “The Great Gabbo”. Esta longa-metragem de 1929, dos primeiros passos do cinema sonoro, foi editada: corte, colagem, aceleração, desaceleração, som retirado. Sobreposição de narrativas: a história do filme que, apesar de manipulada, sobrevém, e tudo o que acontece além ‘dobragem’, ou, de certa forma, além filme (mas que reitera e potencia o que nele se joga). Desdobramento de ventriloquismo, a peça é mais peça e menos filme no intervalo. Não existe intervalo entre Filme e Peça de Teatro, os dois media sobrepõem-se, sem deixar de ser, simultaneamente, cinema e teatro. A plateia colocada no palco vê o filme mudo “The Great Gabbo” projectado (em espelho), os actores no palco, de costas para a plateia e sentados de frente para a projecção dão a voz às personagens do filme. O texto original é intercalado com outras passagens de letras de músicas pop portuguesas, ou com expressões populares da nossa cultura. Cria-se um diálogo lúdico e polissémico entre o tempo do filme e o tempo de hoje, as personagens deste e os actores em palco, e entre as idiossincrasias de cada medium. Vários suportes para um mesmo fim, seja ele uma peça ou um filme dobrado em português. Play the film consegue diluir fronteiras e habilmente construir um universo paralelo entre aquilo que se está a assistir e o que não se vê, mas percebe-se através das sensações e metáforas utilizadas ao longo de todo o espectáculo. É um híbrido hilariante com um desfecho inquietante. A bailarina de expressão angustiada abandona o palco empurrada e numa cadeira de rodas. Uma história de amor pirosa com uma lição de moral ridicularizada redobram um questionamento real sobre as fragilidades do mundo do espetáculo, da fama e da possibilidade de sermos protagonistas e heróis das nossas próprias vidas. 

ISRAEL [Teatro Praga] Criação e Texto: Pedro Penim. Interpretação: Pedro Penim e Catarina Campinho. Iluminação: Daniel Worm. Tradução de Kobi Ben Itamar. Produção: Filipa Rolaça, Elisabete Fragoso.

É inevitável que os títulos prometam. Israel. O resvalar do amor para a obsessão ou a potência destrutiva de uma suposta forma de amar. Amor por um indivíduo, por uma nação, por uma noção, por uma ideia, por um qualquer deus menor ou maior, por uma visão, por uma construção, por uma ilusão… How to address the elephant in the room? A complexidade da peça/performance reflecte a complexidade da(s) trama(s) a que alude, ensaio/redução impossível de séculos de História e de histórias. São milhares de histórias que se associam umas às outras. Não se sabe onde começa e acaba, nem se começam ou acabam. Apenas se sente que vai ficando cada vez mais insuportável de controlar. A potência criativa é concentrada e controlada por uma única e magnífica interpretação. Uma figura ajudante vai trazendo os adereços e as maquinetas que servem para ilustrar um universo em montanha russa, cheio de referências, leituras e poesia a uma velocidade que nem sempre conseguimos acompanhar. O carácter obsessivo de uma relação sentimental que se cruza com a problemática e abundante história de Israel são explorados através da leitura de um mundo mediado pelo virtual. O público é convocado para o palco através de uma gravação em direto visualizada no ecrã do laptop.  

WILDE [mala voadora + Miguel Pereira] Direção: Jorge Andrade e Miguel Pereira. A partir de Oscar Wilde. Com Carla Bolito, Joana Bárcia, Jorge Andrade, Miguel Pereira, Nuno Lucas, Tiago Barbosa e Valentina Parlato. Cenogafia: José Capela. Figurinos: José Capela with seamstress Eduarda Carepa. Luz: Daniel Worm D’Assumpção with Ricardo Campos. Som: Jari Marjamaki. Fotografia de cena: José Carlos Duarte. Produção: Cátia Mateus (O Rumo do Fumo) Manuel Poças (mala voadora). Agradecimentos: Marcello Urgeghe, Maria Teresa Ferrreira, Mónica Garnel e Xavier de Sousa.

Um exercício camp a partir de uma obra de Wilde. O leque de Lady Windemere chega-nos inicialmente através da gravação audio do registo da peça teatral apresentada num outro tempo, num outro espaço, progressivamente sobreposta e ou repetida, alternada ou substituída pelo texto falado (ao vivo, dito pelos performers em palco), ainda que o diálogo último seja projectado num ecrã (texto escrito). Assim, com um irónico barroquismo, Wilde complica as suas referências e o(s) seu(s) referente(s), activando a metonímia/sinédoque (autor/obra/peça), o jogo entre directo e diferido e a representação do género (todos os performers partilham o mesmo figurino, um vestido cor-de-rosa com flores estampadas e repartem o texto confundindo a identificação unívoca de um performer/actor=uma personagem). A mesma personagem multiplica-se. A narrativa repete-se e desconstrói-se como uma massa condensada permeável a diferentes ingredientes. Ingredientes interessantes para um ponto de partida curioso mas mal cozinhado. A belíssima sala da Sociedade Carlista, finalmente despida dos panos negros, contextualiza o ambiente. Em torno de uma gigante mesa que enuncia a riqueza vitoriana, os alter-egos das personagens de Wilde reforçam a superficialidade romanesca das histórias. Mas o jogo de interpretações é desenvolvido também superficialmente, assim como os passos saltitantes e inseguros das intenções coreográficas. 

WILLINGLESS TO WILL [Cláudia Dias] Direção artística, Coreografia e Interpretação: Cláudia Dias. Assistência: Cátia Leitão. Texto: Cláudia Dias e Cátia Leitão. Espaço Cénico: Cláudia Dias. Direção Técnica e Luz: Carlos Gonçalves. Música: América do Norte, de Seu Jorge. Professora de Pilates: Maria Joãoo Madeira. Professores de Samba: Carmen Queiroz e Pedro Pernambuco. Tradutore: Dominique Bussillet, Jorge Sedas Nunes e Karas. Produção e Difusão: Sofia Campos/SUMO

Vontade de ter vontade. Vontade de continuar. Vontade de estar aqui daqui a 1, 2, 3, 4, 5… 10, 20, 30 anos… ou mais . Se “ficar[mos] aqui será para defender” o que é preciso. Aquilo em que acreditamos. Na esperança de que possamos avançar em terreno desconhecido… porque é desconhecido o caminho que nos desviará da crise. Talvez desapareçamos. Primeira morte. Até que a nossa voz deixe de ecoar para aqueles que a mantêm na memória. E, com ela, o desvanecimento da nossa imagem. Segunda morte. Uma decisão: morrer ou viver? Para onde vamos? Uma constante dúvida com vários caminhos a seguir, vários cenários a descobrir, mas sem uma resposta. Político, social e extremamente actual. Sobre a reflexão do nosso espaço e do nosso tempo. Como atuar politicamente no real imaginado do espetáculo? A passagem de um corpo português que se encaixa na cauda da Europa e no Mundo, marcada sobre um retângulo de areia. E lembro a música do Jorge Palma, “(…) Enquanto houver estrada para andar/a gente vai continuar/enquanto houver estrada para andar/Enquanto houver ventos e mar/a gente não vai parar/enquanto houver ventos e mar(…)”  

A BALLET STORY [Victor Hugo Pontes] Direção artistica: Victor Hugo Pontes. Música: David Chesky. Versão Musical: Fundação Orquestra Estúdio, sob a direção do Maestro Rui Massena. Cenografia: F. Ribeiro. Direção técnica e Desenho de luz: Wilma Coutinho. Intérpretes e Co-criadores: André Mendes, João Dias, Joana Castro, Liliana Garcia, Ricardo Pereira, Valter Fernandes e Vítor Kpez. Figurinos: Victor Hugo Pontes. Registo vídeo: Eva Ângelo. Registo fotográfico: Susana Neves. Produtora Executia: Joana Ventura. Agradecimentos: Madalena Alfaia e Vera Santos.

A Ballet Story. Uma história? Ou uma abstracção? Uma história da dança ou a coreografia do não dito? De figuras em devir a corpos humanos em exposição, atléticos, forma(ta)dos por um percurso, dispostos, justapostos, sobrepostos. Repetição. Diferença na repetição. Frases de movimento repetidas, movimentos desconstruídos, um cenário magnífico. Uma procura incessante pela linha que une a peça, um libreto improvável que termina com a exaustão dos corpos. Corpos que consecutivamente enlaçam o bailado clássico, o contemporâneo e a dança urbana. Na releitura de Zephyrtine, os anjos e as fadas do ambiente onírico de Chesky são substituídos por performers que vestem carapuços coloridos e ocupam um palco ondulante que faz lembrar um skate park. Corpos que se completam num coletivo ou se autonomizam a solo.

Anúncios
No comments yet

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: