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Numa linha azul, a partilha do sensível [The Untitled Still Life Collection]

26 Abr 2013

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The Untitled Still Life Collection. Cocriação: Trajal Harrel & Sarah Sze. Interpretação: Trajal Harrel e Christina Vasileiou. Encomenda: Co Lab: Process and Performance (Projecto a decorrer entre Summer Stages Dance Concord Academy e Institut of Contemporary Art/Boston). Museu de Arte Contemporânea de Serralves, 20 de Abril de 2013.

Da primeira colaboração entre o coreógrafo/performer nova iorquino Trajal Harrel e a escultora americana Sarah Sze, resultou a peça The Untitled Still Life Collection, apresentada no ICA/Boston em 2011, no contexto da exposição Dance/Draw, que explorou as relações plurais entre a dança contemporânea e o desenho, nos últimos 40 anos.

Apresentada no passado dia 20 de Abril, no Museu de Arte Contemporânea de Serralves, por Trajal Harrel e a bailarina e coreógrafa grega Christina Vasileiou, The Untitled Still Life Collection propõe um território híbrido entre a dança e a instalação, o movimento e o desenho no espaço. Dois performers e duas finas linhas azuis, desenham em movimento a complexidade do espaço que os une e os separa. Como num diálogo, momentos de tensão e provocação intercalam tempos de cedência, de partilha e de aproximação. Sempre com uma subtileza desarmante.

Esta peça inaugurou o ciclo de artes performativas “Matérias Vitais”, que irá decorrer em Serralves durante 2013, com propostas que cruzam os limites disciplinares da música, performance, cinema e artes visuais. O livro Vibrant Matter: A Political Ecology of Things, da politóloga Jane Bennett, que serviu de influência a este ciclo, questiona a rigidez dos “binómios vida/matéria, humano/animal, orgânico/inorgânico”, defendendo uma mesma materialidade vital que atravessa todos os seres e coisas, e propõe um projecto político de partilha mais inteligente e sustentável entre a matéria e os seres.

Em paralelo, a exposição Alberto Carneiro: Arte Vida / Vida Arte: Revelações de Energias e Movimentos da Matéria, inaugurada no museu no passado dia 19 de Abril, reitera esta crença de uma mesma vitalidade transversal ao homem e à natureza.

Luz, espaço, ar, bancos, corpos, roupas, linha azul são algumas das matérias vitais de The Untitled Still Life Collection. O espaço cénico resume-se à parede branca da biblioteca do Museu de Serralves, onde uma ampla janela deixa entrar o exterior, ao pavimento em soalho e a dois bancos em madeira, dispostos em linha e paralelos à parede, a escassos metros entre si. Os visitantes sentam-se informalmente no chão. Momentos depois, os performers entram: Trajal veste calças pretas, sweatshirt cinza, botins pretos, trendy mas discreto; Christina, belíssimo vestido preto e pés nus, segura um tubo de linha azul e uma tesoura. Cortam duas porções de linha que dispõem no chão de um banco ao outro, uma de cada lado, e sentam-se frente a frente. Enrolam as extremidades das linhas nos dedos indicador de cada mão e, em tensão, pousam as mãos no colo. Imóveis, duas linhas azuis paralelas desenham a distância entre os corpos, unindo-os, de certa forma.

Ao som de uns intensos acordes de piano (de uma composição musical não identificada), os dois fios azuis iniciam lentamente o seu movimento. Assiste-se a uma conversação entre duas linhas, fios de pensamento, a partilha do sensível nos gestos simples que elevam uma linha, cruzam a outra, puxam, cedem na pressão, ou soltam o objecto. Primeiro com as mãos, nos dedos indicadores, depois já em pé, uma linha em torno do tronco, que se desfaz num apontamento de dança. Em seguida nos pés, das meias amarelas de Trajal aos dedos nus de Christina, as linhas ganham, novamente, vida. E na boca, com a língua, as linhas são enroladas até se transformarem em novelos. A Christina coube a tarefa final de desembaraçar o emaranhado de fio azul. Tarefa que, por vezes, fica incompleta.

Trata-se de um evento minimal e abstracto que não é dança, nem instalação, mas outra coisa qualquer, e de uma delicadeza notável. O título da peça encerra uma certa ironia que, aliás, é característica do trabalho de Trajal: “Colecção de Naturezas Mortas, sem título” (minha trad.). Dois corpos e um objecto estão muito distantes de ser uma “natureza morta”, do mesmo modo que a dança, ou o movimento, são tudo menos “still” (imóveis). Trata-se de uma referência tangente à história da pintura e uma crítica subtil ao crescente interesse das instituições artísticas pela performance, incorporando-a nas suas estruturas e colecções. O carácter efémero da performance e da dança, que as aproxima da experiência contingente da vida, seria menos atractiva na óptica museológica e do capital. Porém, como referiu Baudrillard , pouco ou nada escapa a essa mesma lógica. Tanto a arte como as instituições se reciclam de forma a encontrar valor naquilo aquilo que, aparentemente, não o teria.

Curiosamente, Trajal é tanto crítico como cúmplice deste processo, tendo inclusive apresentado com Perle Palombe uma conferência-performance intitulada “The Conspiracy of Performance”, uma adaptação do texto “Le complot de l’art”, publicado por Baudrillard, em 1996, onde o coreógrafo substitui a palavra arte por performance.

Longe do que é convenção, as suas performances cruzam elementos das artes visuais, e outros de origem menos provável, como o mundo da moda ou o movimento de dança voguing.

Trajal Harrel ganhou notoriedade com o projecto seminal Twenty Looks or Paris is Burning at The Judson Church, que desenvolve há mais de uma década, em torno da relação entre a dança pós-moderna de Judson Church e a tradição de dança voguing. A série vem em sete tamanhos que deram origem a sete propostas: (XS), (S), (M), (jr.), (L), (Made-to-Measure) e uma publicação (XL). Embora ambos os movimentos tenham surgido no início da década de sessenta em Nova Iorque, o primeiro em Greenwich Village e o segundo em Harlem, tinham premissas e intervenientes muito distintos. Os performers da Judson Church, politicamente activos, privilegiavam a neutralidade e a “autenticidade” dos movimentos do quotidiano na dança. O movimento voguing era dançado por performers afro-americanos, de classe baixa, inspirado nos ícones da moda e da cultura pop. A história da dança conta a versão dominante, mas foi nas omissões que o coreógrafo se baseou para, através das suas performances, problematizar estética e politicamente um período tão marcante, ainda hoje, para a dança contemporânea.

Em The Untilted Still Life Collection encontramos referência à herança da dança pós-moderna, no desempenhar de tarefas e gestos triviais com a maior naturalidade, assim como pequenos detalhes que fazem referência ao glamour do voguing ou ao universo da moda. Da obra de Sarah Sze reconhecemos, pelo menos, a linha azul quer como elemento do desenho, quer do universo da instalação. Mas isso serão apenas detalhes, numa colaboração que resulta numa proposta situada algures “em terra de ninguém”.

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