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Novelo de subtilezas [The Untitled Still Life Collection]

26 Abr 2013

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The Untitled Still Life Collection. Cocriação: Trajal Harrel & Sarah Sze. Interpretação: Trajal Harrel e Christina Vasileiou. Encomenda: Co Lab: Process and Performance(Projecto a decorrer entre Summer Stages Dance Concord Academy e Institut of Contemporary Art/Boston). Museu de Arte Contemporânea de Serralves, 20 de Abril de 2013.

Toda a linha é eixo de um universo.

Novalis

The Untitled Still Life Collection  é um diálogo silencioso entre um coreógrafo, Trajal Harrell e uma escultora, Sarah Sze. É um exercício de conciliação da notação do movimento dos dois corpos, com a materialidade de uma finíssima linha de fio azul.

O que se exibe resulta de um questionamento que é, simultaneamente, artístico e relacional. Que procura revelar uma intimidade antiga aliada a uma colaboração de dois percursos profissionais distintos. Como é que um material existe na energia entre dois corpos? Como se faz aparecer essa ação, desligando a especificidade indelével de cada prática criativa?

Este parece ser o desígnio para The Untitled Still Life Collection, a performance que inicia o ciclo Matérias Vitais. O ciclo, influenciado pelo livro da politóloga Jane Bennett “Vibrant Matter: A Political Ecology of Things”, propõe espetáculos que, através de diversas abordagens, reflitam o potencial dos materiais não-orgânicos na sua relação com o humano.

O título (ou a ausência dele) coleciona essa ambivalência. Por um lado, still life como natureza-morta, a matéria inerte – duas porções de fio azul são medidas e cortadas do novelo para se disporem no chão. Por outro, still life como algo que ainda é vida, numa celebração da sua efemeridade – dois corpos que se relacionam no espaço e no tempo através de um fio, por um fio.

A dicotomia, aparentemente intransponível – orgânico/inorgânico, animado/inanimado -, é problemática que se estende da exposição Arte Vida / Vida Arte de Alberto Carneiro recentemente inaugurada no museu. Em Momento 13 — Três linhas do horizonte com céu aberto e uma descrição contínua de paisagens com vinte e uma imagens do teu ser imaginante, uma fina tira de papel prolonga-se e percorre o espaço do museu, encerrando todo um horizonte de linhas que se intercruzam com as palavras manuscritas. Uma poética reveladora da coexistência estética do eu-corpo-natureza.

Também Sarah Sze, ainda que num outro sentido, desvia pequenos objetos quotidianos dos seus respetivos destinos, articulando-os e conferindo-lhes nova vitalidade. Reservando um outro destino possível. A artista que representará os E.U.A. na Bienal de Veneza deste ano, explora a escultura e a instalação site-specific, numa relação entre o banal e o precioso, o residual e o monumental.

Na perpetuação desse rasto sensível, é como se as linhas desenhadas por Alberto Carneiro se animassem plasmadas no gesto dos dois interpretes. Porém, quem agora interpreta a peça é Christina Vasileiou. A passagem de testemunho para Christina implica a possibilidade da sobrevivência da peça sem a presença de Sarah, que permanece reminiscente na notação coreográfica. Esse movimento passa a ser reativado a partir do corpo da performer que é, como em Trajal, um corpo da dança.

À entrada da sala sentam-se um diante do outro, o olhar de um devolvido pelo olhar espelho do outro. E numa ritualização do gesto, suportado por uma colagem musical em surdina, iniciam uma sucessão de frases coreográficas atravessadas por um fio. Da tensão exercida sobre esse fio conexo, mostra-se uma partitura de movimentos coordenados que se querem fazer demorar. Em certos momentos, Trajal claramente exerce o domínio, puxando o fio enquanto contrai o sobrolho. Christina, de expressão impávida e pontas nos pés, deixa-se levar pela trama, é conduzida ou a desfaz.

Daquela ténue linha azul recortada no horizonte branco do olhar, que ora se move, ora permanece fixa na imprecisão do movimento, gera-se uma obra de instalação animada. Uma paisagem que poderia caber na op art, pela ilusão que opera na percepção. A linha compromete todo o olhar do espetador. E, todavia, essa matéria não se autonomiza das mãos que a conduzem, enrolando-se nos dedos dos performers através do arquétipo movimento circular dos braços. Por vezes a conexão não pode deixar de ser equívoca, de ser múltipla: vemos o jogo (a cama-do-gato), a medida de um espaço ou o cálculo de coordenação dos dois corpos, o equilíbrio e o desequilíbrio. Vemos o traço, a escrita…o desenho do tempo.

Num determinado momento da curta performance, Christina parece vestir Trajal com aquela linha, qual jóia preciosa. Trajal exibe-a na contração quase imperceptível de cada músculo do peito, para depois se libertar, contorcendo o corpo todo em movimentos fluídos e numa atitude contemplativa de si próprio. Retomada a conexão, comunga-se a evocação do animalesco: o performer absorve com a boca toda a porção do fio de ambos. E depois expele-o, algo próximo da Baba Antropofágica de Lygia Clark.

Fragilidade e imprevisibilidade, a cada uma das quatro exibições surge algo de novo. A performance The Untitled Still Life Collection, delicada e comovente, coloca a subtileza no centro da atenção, descobrindo o raro, o quase-velado. O quase-inacessível está a caminho do sublime, numa espécie de aparição. Talvez a possamos situar, no contexto do relevante percurso de Trajal Harrell, já a caminho do Butoh – a “dança das trevas” japonesa do pós-guerra -, que explora atualmente na mais recente obra Used, Abused and Hung Out to Dry, estreada em Fevereiro no MoMA. O criador nova-iorquino desenvolve a sua pesquisa coreográfica na combinação da dança pós-moderna, particularmente da Judson Church, com o voguing, expressão social da década de 60 que combina poses e estereótipos praticados sobretudo por gays, transsexuais, latinos e afro-americanos.

À saída da biblioteca de Serralves, atravessando a mostra de documentação de Carneiro, reparo no título de uma exposição sua de 1981: O Corpo SubtilThe Untitled Still Life Collection torna-se um culto ascético entre dois corpos e uma matéria vital, como novelo para múltiplas tramas e desenlaces. Um novelo de subtilezas.

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