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A viagem e a leveza de não saber o destino [Entrelinhas]

6 Mar 2013
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Entrelinhas, de Tiago Rodrigues e Tónan Quito, Mundo Perfeito / SLTM, 2012 (Tónan Quito), fot. Magda Bizarro.

Entrelinhas, co-criação: Tiago Rodrigues e Tónan Quito. Texto: Tiago Rodrigues. Interpretação: Tónan Quito. Produção executiva e imagem: Magda Bizarro. Apoio técnico: André Calado. Assistência de produção: Rita Mendes. Produção: Mundo Perfeito. São Luiz Teatro Municipal, 8 de Fevereiro, 2013.

Entrelinhas é verdadeiramente um espectáculo que fica nas entrelinhas daquilo que se vê, daquilo que se sente, daquilo que se percebe. É, antes de mais, um monólogo interpretado por Tónan Quito apresentado no Jardim de Inverno do São Luiz Teatro Municipal, num espaço delimitado por duas fileiras de cadeiras em forma de rectângulo com capacidade para aproximadamente 30 pessoas. Todo o ambiente informal criado em torno da maneira como o actor se apresenta e introduz o tema conduz de modo subtil o espectador para um universo que se debruça sobre a ficção e a realidade. No seu discurso flui a cumplicidade entre os dois criadores, que mantêm uma cooperação já de longa data, sendo esta criação disso um reflexo.

Édipo Rei, de Sófocles, terá sido o ponto de partida. Mas nas estrelinhas compreendemos o intrincado processo criativo da montagem da peça. Os dois criadores, Tiago Rodrigues e Tónan Quito, apresentam-nos o seu jogo criativo. Traduzem a incógnita e o abismo que é lançarem-se na descoberta de algo novo, nunca antes feito, que é, neste caso, a construção de um monólogo para ser apresentado no São Luiz. Expõe-se o medo de fazer aquilo que não se sabe fazer, ou que nunca se fez, ou de não saber o que se fazer – um medo de alta-competição como lhe chamam os autores da peça – aqui transformado no medo do actor fazer pela primeira vez um monólogo, ou no do encenador escrever a peça e não conseguir cumprir os prazos previstos.

O jogo parte do Édipo Rei, mas ao longo da peça as premissas iniciais são subvertidas. O actor revela-nos como ao encontrar um exemplar do Édipo na biblioteca do seu pai comprado a um major em Moçambique, descobre que este tem um carimbo da biblioteca de um estabelecimento prisional em Lisboa e, para além disso, tem nas entrelinhas do texto uma carta de um preso à mãe a confessar o seu crime. O preso teria morto o pai, mas a sua revelação termina com a saudade e o desejo dos bolos da sua mãe. Esta carta escrita nas entrelinhas e declamada por entre o texto do Édipo transporta-nos para um outro domínio que tem a ver com aquilo que não se vê e que está aberto à imaginação de cada um. E é este subtexto constante em toda a peça que faz com que o espectador mergulhe na sua própria fantasia, fantasiada a partir de uma fantasia alheia.

Após esta descoberta do livro e da carta do preso, Tónan propõe a Tiago – que curiosamente se encontrava dramaticamente doente da vista e impossibilitado de ler e escrever – as suas ideias e de como poderiam construir um universo paralelo nas entrelinhas do Édipo, Tiago concorda que é uma boa ideia e Tónan lança-se novamente nas suas questões pessoais acerca da continuidade da construção do monólogo. Aqui uma vez mais o espectador consegue projectar-se para dentro da peça, porque há esse espaço para entrar, aquilo que nos apresentam não são cenas fechadas, ‘mastigadas’ e prontas a consumir, aqui há tempo para reflectir e sentir: Tónan investiga a origem do livro e o autor da carta escrita nas entrelinhas e encontra numa cela dois velhos prisioneiros, um deles cego que ouve atentamente a leitura de Dom Quixote de La Mancha, estão na parte em que Dom Quixote esclarece Sancho Pança acerca do amor, é um momento romântico que nos coloca perante a inexplicável questão do amor e da razão para escolher a pessoa amada, mas perante a certeza de que aqueles que se amam encaixam-se na perfeição. Este devaneio romântico é quebrado pelo voltar à realidade da cela, que é por sua vez também uma ficção, já que os velhos prisioneiros representam os dois autores num tempo ficcional no futuro.

Tónan prossegue a sua desesperada tentativa de construção da peça e ao abrir o livro do Édipo que havia emprestado a Tiago, encontra uma terceira versão escrita nas entrelinhas, é finalmente o texto da peça. Mas o público só se apercebe disto quando Tónan oferece um exemplar a cada pessoa. É um presente muito especial, um pequeno caderno numa impressão de alta qualidade com um design extraordinário, que faz lembrar as publicações antigas. Este caderno contém o texto integral da peça apresentada e juntos (público e actor) lêem o último parágrafo. O acto de ler em conjunto é em si algo raro nos dias de hoje nos quais consumimos tudo a alta velocidade, o que esta peça permite experienciar é um tempo de ver aquilo que está para além da imagem e do texto, de sentir e imaginar aquilo que não é dito, como se o público completasse a narrativa, ou as várias narrativas que esta história permite.

Entrelinhas não é um monólogo extraído do Édipo e apresentado no grande auditório do São Luiz, mas é um fantástico processo criativo apresentado no janelão do Jardim de Inverno. Num ambiente acolhedor e sempre com um total despojamento de pretensões, o espectáculo é honesto e generoso para com o público. É uma viagem partilhada e guiada por Tónan, que nos leva a questionar o porquê de arriscar e ao que o risco nos pode expor. São muitas as questões que o espectáculo vai colocando. E estas, afinal, são mais importantes do que o resultado final. O que fica é a viagem e não a chegada.

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