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Será solit(d)ário o caminho que percorremos na vida? [Le Chemin Solitaire e Les Estivants]

26 Fev 2013
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Les Estivants, Tg STAN, fot. Tom Wouters.

Le Chemin Solitaire, de tg STAN. Texto: Arthur Schnitzler (Der einsame Weg, 1903). De e com: Natali Broods, Jolente De Keersmaeker, Damiaan De Schrijver, Nico Sturm/Stijn Van Opstal e Frank Vercruyssen. Figurinos: An D’Huys. Luzes: Thomas Walgrave. Cenário: tg STAN. Produção: tg STAN. Co-realização da versão francesa: Théâtre Garonne, Festival d’Automne e Théâtre de la Bastille. Estreia da versão neerlandesa: 18 de Abril de 2007, Monty, Antuérpia. Estreia da versão francesa: 14 de Novembro de 2009, Théâtre Garonne, Toulouse. Teatro Maria Matos, 31 de Janeiro de 2013.

Les Estivants, de tg STAN. Texto: Maxim Gorki (Datchniki, 1905). De e com: Robby Cleiren, Jolente De Keersmaeker, Sara De Roo, Damiaan De Schrijver, Tine Embrechts, Bert Haelvoet, Minke Kruyver, Frank Vercruyssen e Hilde Wils. Figurinos: An D’Huys. Luzes: Clive Mitchell. Produção: tg STAN. Co-produção: Théâtre Garonne, Théâtre de Nîmes, Théâtre National de Strasbourg, Théâtre de la Bastille e Festival d’Automne. Estreia da versão neerlandesa: 17 de Junho de 2010, Monty, Antuérpia. Estreia da versão francesa: 2 de Outubro de 2012, Théâtre Garonne, Toulouse. Culturgest, 2 de Fevereiro de 2013.

Num cenário despojado, simultaneamente improvisado e precário, os bastidores encontram-se escancarados aos olhos do público e esse simples facto é libertador. Alguns elementos cénicos estão visíveis mas a atenção não está sobre eles. A atenção do público está presa às personagens profundamente convincentes que os tg STAN desvelam e dão a conhecer. Somos, literalmente, levados ao colo, numa trama aparentemente complexa, desvelada paulatinamente através do texto e das personagens que lhe dão forma.

Esta introdução serve tanto Le Chemin Solitaire como Les Estivants, duas obras teatrais distintas mas que ainda assim apresentam claras linhas de continuidade. Ambas expressam uma forma semelhante de pensar o teatro e a encenação – em que o actor é co-autor na criação cénica – aspecto perceptível na medida em que é claro que a força directriz e condutora do espectáculo é imanente –  não vem de algo nem de ninguém que lhe seja exterior, nasce da própria dinâmica que aquele conjunto de actores/autores encontra em cena no trabalho do texto e na construção das personagens. Esta é, aliás, uma característica do trabalho colectivo dos tgStan. A percepção disto mesmo está para além de uma retórica analítica do espectáculo. É algo que é tácito e que recoloca o próprio público num lugar de participação activa nessa construção. Essa participação é sobretudo evidente na peça Le Chemin Solitaire em que os actores trocam de personagens ao longo da peça, num elaborado e minucioso exercício de encenação, obrigando o espectador a construir dentro de si próprio a personagem que não está, como é frequente, confortavelmente “encarnada” no actor (fazendo-nos pensar na técnica de distanciação brechtiana, o actor não é a personagem, a personagem é que atravessa o corpo e o espírito dos actores que, à vez, lhe vão dando voz). O público é, por isso mesmo, desafiado a fabricar essa descodificação dentro de si e disto resultam duas coisas: por um lado, cada pessoa vê-se impelida a criar a sua própria imagem mental da personagem; e segundo, o espaço para a simbiose com as problemáticas tratadas pela obra é muito mais amplo, porque torna-se inevitável que cada um de nós se sinta empático com, pelo menos, algumas das emoções, das problemáticas e das vidas das personagens. Será solitário o caminho que percorremos na vida? Que sacrifícios estamos dispostos a fazer pelos outros? Será que o abraço último da individualidade – egoísmo (o amor a nós próprios) – conduz inexoravelmente a uma vida de solidão interior, por nunca termos sido capazes de nos entregar verdadeiramente aos outros?

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Le Chemin solitaire, Tg STAN, fot. Tim Wouters.

Le Chemin Solitaire baseado na obra homónima de Arthur Schnitzler é, à primeira vista, uma trama de mentiras e traição instalada na vida de uma família de intelectuais de classe média e de alguns amigos orbitais (e cruciais), passado no início do século XX, na Áustria. Mas fala-nos mais do que apenas sobre traição e mentira. É um texto sobre as escolhas que fazemos ao longo da vida e sobre a forma como essas escolhas delimitam o curso da nossa vida. É ainda sobre as emoções e sobre os encontros e desencontros que pontuam a vida de todos nós. Apesar da aura fatalista da narrativa, a peça não se desenrola de uma forma pesada – é um cenário pejado de riqueza emocional, não obstante os quadros de impossibilidade real de reescrever na vida o que já está escrito. O ambiente sonoro e de luz com o qual começa o espectáculo é perturbador: um som em loop de uma voz humana e uma luz amarela tépida e sinistra lançam o espaço para uma cena que promete ser pesada; o cheiro a charuto que empesta o ar contribui também para predispor o público a algo que é – e será – incómodo. Mas a humanidade do texto e a forma sublime de como o elenco de cinco actores dá vida à obra de Schnitzler, num francês eloquente, com sotaque flamengo e em determinados momentos provocatoriamente artificial, conquista a atenção e a disponibilidade do público para nos deixarmos levar até ao último minuto da peça (apesar de longa e das desconfortáveis cadeiras de plástico da bancada do Teatro Maria Matos).

Les Estivants (1905) é uma obra de Maxim Gorki, escritor e activista político Russo do início do séc. XX, bastante influenciado pelo trabalho de Tchékhov. Gorki debruça-se sobre uma realidade social de classes que antecedeu e conduziu àquilo que viria a ser a Revolução Russa de 1917 e a implantação do regime Bolchevique, regime que defendeu e com o qual colaborou (mas do qual acabou por ser vítima no fim da sua vida).

Les Estivants fala-nos de uma casa de campo no Verão, de uma mulher, Vária, que é a anfitriã da casa e a personagem que confronta os demais sobre o sentido das suas vidas. Os demais são os vários transeuntes que por ali passam naquele Verão, e esses hóspedes são elementos da alta sociedade russa mas também funcionários de uma classe social inferior. A convivialidade é aparentemente igualitária entre todos,  marcada apenas pelas paixões ou rivalidades pessoais e subjectivas, nada que nos indique que se trata de um qualquer confronto de classes. Cada um encontra-se a braços com dilemas pessoais e emocionais que vão sendo dados a conhecer ao longo da peça. Apesar das queixas individuais de cada um, ninguém parece questionar o curso das suas vidas e o seu papel na construção de uma sociedade mais justa.

Simultaneamente, o retrato de sociedade que se constrói através das mais de vinte personagens que povoam a peça, não é a soma de vinte histórias individuais e dos seus respectivos pontos de intersecção. É antes o retrato colectivo de uma sociedade frívola em todos os seus componentes representados, na qual ninguém aparenta preocupar-se com o todo, mas cujas problemáticas imanentes apontam para a necessidade de uma mudança. A voz de Vária assume esse prenúncio, apesar de não conter no seu discurso nenhum indício de esperança.

O trabalho de tg STAN em Les Estivants é enérgico e cativante, humorístico até, os actores são convincentes nas várias peles que vestem e levam o público ao longo de duas longas horas e meia pelos meandros de um quadro de estio com quase 100 anos e que, salvo algumas referências históricas, podia tão bem espelhar o cenário da actualidade em que a participação individual na esfera política e pública é parca e diminuta para a premência de acção que os tempos actuais exigem. Será que o estado de alma da nação global contemporânea aspira a uma revolução que acorde os espíritos individuais da letargia das suas vidas? Ou será que como diz o filósofo Edgar Morin a história mundial já provou que as revoluções consistem na substituição de algo por outra coisa, a princípio melhor, porque nova, mas que rapidamente se instala nos vícios dos seus antecessores. Segundo Edgar Morin o que a humanidade precisa é de uma “metamorfose pós-histórica, uma transformação informada pela história universal, “numa civilização planetária cuja forma não podemos prever” (Morin, 2011).

O trabalho de tg STAN é, em ambas as peças, a prova de que a informalidade não tem implicações na seriedade e verosimilhança da proposta artística, e que o virtuosismo é essencial na arte. O aparente paradoxo que surge do facto de o trabalho de tg STAN se assumir como uma linguagem teatral informal e sem os preceitos, que de forma mais imediata, associamos ao virtuosismo; não altera o facto de que tg STAN são profundamente virtuosos na forma como põem em prática essa informalidade. Poderíamos relançar a este propósito a questão da necessidade da reabilitação da noção de virtuosismo na Arte, concepção que foi amplamente abalada pelo pós-modernismo e pela necessidade expressa de pôr todos os seus alicerces em causa.

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