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O que fazer com o mínimo? [At most mere minimum]

2 Fev 2013

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At most mere minimum/ Quando muito o mínimo. Cocriação e interpretação: Carla Maciel, Gonçalo Waddington, Sofia Dias, Vítor Roriz. Coprodução: Culturgest, Guimarães 2012 Capital Europeia da Cultura, TNSJ. Estreia: 29 Novembro 2012 Culturgest (Lisboa). Teatro Carlos Alberto (Porto), 16 de Janeiro 2013

Dim light source unknown. Know minimum. Know nothing no. Too much to hope. At most mere minimum. Meremost minimum.

Samuel Beckett, Worstward Ho

Luz difusa, saber o mínimo. Esta luz de origem desconhecida está longe de ser a luz da tradição clássica e medieval, símbolo do saber absoluto, de que nos fala, nomeadamente, Platão na alegoria da caverna. Em oposição a este saber iluminado, Beckett propõe em Worstward Ho não o extremo oposto – o saber nada – mas o saber o mínimo. A fragilidade feliz dos mínimos – porque não são totais, nem definitivos – potencia a abertura para montagens e entendimentos múltiplos. O autor traduz na obra essa vontade através de uma escrita de frases curtas, que de tão mínimas se tornam encriptadas, quase abstractas. Talvez resida nesta fragmentação do texto (e da existência) em ínfimas partículas a possibilidade para outros encontros, outras direcções, outras leituras. Porque ainda há muito a esperar (“Too much to hope”).

A peça At most mere minimum [Quando muito o mínimo] importa o título de Beckett, uma referência de destaque para os seus quatro co-criadores e intérpretes: Carla Maciel e Gonçalo Waddington, com um percurso emergente na área do teatro, cinema e televisão, e Sofia Dias & Vítor Roriz, uma dupla proeminente no panorama recente da dança portuguesa (premiados em 2011 com o Jardin d’Europe).

Segundo os autores, esta peça resultou do encontro das duas duplas de criadores, da partilha das referências e instrumentos que informam o trabalho de cada um. Se o corpo como matéria e veículo de expressão é mais evidente em Dias & Roriz, o texto e a palavra dita são-no em Waddington e Maciel. Porém, a pesquisa fonética e semântica em torno das palavras, pela sonoridade, reiteração e desdobramento noutras, é tangencial nos trabalhos anteriores da dupla Sofia Dias & Vitor Roriz e de Gonçalo Waddington.

Sem uma premissa inicial orientadora, mas tendo como mote as ideias de fragmentação, desdobramento e duplicação, a peça resulta de um processo de improvisação, e transparece essa natureza de aleatoriedade em palco.

O espaço cénico – entre o atelier e o laboratório científico – é logo visível aquando da entrada do público. O palco reitera a natureza processual da peça e assume o carácter de espaço de pesquisa que, convertido pelos criadores em habitat familiar, se vê povoado de objectos da mais diversa proveniência: uma mesa, cadeiras, quadro e material de escrita, uma estante com diversos objectos, cabo eléctrico, candeeiros e gambiarras que vão dando luz à cena, entre muitos outros. Parafernália de objectos sem outra função para além de estarem ali e “poderem vir a ser úteis”, como referem os autores.

Também em cena desde o início, os quatro intérpretes surgem em torno da mesa, sem nenhuma relação aparente entre eles, dois homens e duas mulheres, figurinos iguais, todos de cabelo curto. Voltados para direcções indiferenciadas deixam perceber alguns movimentos curtos, intermitentes, naquilo que aparenta ser a fragmentação de gestos banais.

Para além dos fragmentos do movimento, também os intérpretes aparentam ser fragmentos de um todo qualquer: um grupo que se articula através de diversas partes, sem a sincronia da máquina, mas com a indiferença que transforma um sujeito num objecto, ou numa parte de algo.

Num movimento descontínuo e intermitente, os quatro intérpretes percorrem o palco em múltiplas direcções, velocidades e propósitos, interagem com os objectos num segundo para no instante seguinte os abandonarem, interagem com outros performers que encontram no seu percurso – tudo numa atmosfera de aparente improvisação. Na primeira parte, esta actividade vai escalando em intensidade frenética, e intérpretes e objectos ganham uma dinâmica veloz, lúdica quando toca o absurdo, que vai preenchendo o palco, absorvendo e desorientando, pelo excesso, a atenção do espectador. Prevalece o movimento em palco, embora o texto surja, ocasionalmente, numas frases soltas em português e inglês, sem relação imediata.

Num segundo momento, o ritmo de movimento abranda, assim como a interacção entre intérpretes e objectos, e a palavra assume destaque para ser trabalhada através da reiteração e desdobramento noutras palavras, sem um propósito evidente, num jogo fonético e semântico.

No momento final, a guitarra de Vítor Roriz acompanha o quarteto de vozes que brincam neste layer textual de palavra dita e cantada, tocando o absurdo, o lúdico, a ironia. E, num gesto final, um dos intérpretes apaga o último candeeiro de mesa que ainda iluminava as quatro presenças em palco.

At most mere minimum [Quando muito o mínimo] aparenta ser uma montagem possível de fragmentos, sejam estes de gestos, movimentos, palavras ou silêncios. Esta alternância de imagens-instante em que se converte a peça, sobretudo na primeira parte, e a semelhança entre os quatro intérpretes, em que cada um pode ser o outro, confundindo-se as duas duplas entre si, sublinha na peça a ideia de acaso. Aleatoriedade e saturação, numa amálgama incansável de movimentos, de corpos, vozes e texto convocam uma estranheza geral para o todo. Fica-nos a sensação de que o que vemos em cena poderia ser aquilo ou outra coisa qualquer.

Não será simples traduzir em fragmentos a presença mínima de que nos fala Beckett, e a partir da sua montagem [ou desmontagem] encontrar interstícios que permitam criar pontos de encontro com o Outro, que permitam sair de nós mesmos e ser, por instantes, outra coisa qualquer, ampliando os limites que nos conformam. A premissa é pertinente, e os intérpretes podem tê-lo conseguido para si mesmos. Porém, não é imediato que o público tenha acedido a essa experiência. O resultado permanece difuso, de leitura pouco óbvia.

É, todavia, de não evidência que pensamos quando citamos Beckett: “saber o mínimo” e deixar o que vem em aberto. Porém, as frases curtas de Worstward Ho, apesar de minimais, possuem um layer de encriptamento que provoca no leitor o desejo impaciente de deslindar o texto.

At most mere minimum teve a capacidade de (des)montar parcelas ínfimas num todo, aparentemente desconexo, e de despoletar curiosidade pelo resultado. É natural, no entanto, que da colaboração entre as duas duplas resulte uma hibridez que contamine o rigor que conhecemos de propostas anteriores dos criadores. No final, ficou a curiosidade, mas não a impaciência feliz dos “mínimos”.

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