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Einstein on the Amstel Beach [Einstein on the Beach]

2 Fev 2013
Einstein on the Beach, Bob Wilson / Phillip Glass (Helga Davis e Kate Moran), fot. Lucie Jansch 2012.

Einstein on the Beach, Bob Wilson / Philip Glass (Helga Davis e Kate Moran), fot. Lucie Jansch 2012.

Einstein on the Beach, an opera in four acts. Commissioned by De Nederlandse Opera/The Amsterdam Music Theatre; BAM; the Barbican, London; Cal Performances University of California, Berkeley; Luminato, Toronto Festival of Arts and Creativity; Opera et Orchestre National de Montpellier Languedoc-Roussillon; UniversityMusical Society of the University of Michigan. Composer: Philip Glass; Director/Set and Light Design: Robert Wilson; Choreographer: Lucinda Childs; Co-Director: Ann-Christin Rommen; Directing Associate: Charlie Otte; Lights: Urs Schoenbaum; Scenic Supervisor: Michael Deegan; Sound Supervisor: Dan Dryden; Costumes: Carlos Soto; Hair and Makeup: Campbell Young Associates: Luc Verschueren; Principal Performers: Einstein/Solo violinist: Antoine Silverman, Helga Davis, Kate Moran; Boy: Jasper Newell; Mr. Johnson: Charles Williams; Lucinda Childs Dance Company, rehearsal director Ty Boomershine; Philip Glass Ensemble, Music Director: Michael Riesman; Het Muziektheater, Amsterdam, 5 de Janeiro de 2013.

Durante o ano 1975 o encenador Robert Wilson e o compositor Philip Glass encontraram-se uma vez por semana a fim de trocar ideias sobre a sua primeira colaboração. Wilson fazia desenhos das cenas, e Glass compunha música com base nesses desenhos. O ‘Libretto’ foi adicionado mais tarde, durante o processo de ensaios. A intenção não era criar uma ópera, no entanto, a participação prevista de cantores, músicos, dançarinos e coro fez da instituição de ópera um local adequado para o desempenho de “Einstein on the Beach em Wall Street”, que foi o título provisório da peça. Wilson e Glass tinham inicialmente dúvidas sobre a escolha da pessoa que mereceria a sua atenção operática. As propostas de Wilson foram Hitler e Charlie Chaplin, mas Glass não as considerou uma boa escolha para a nova peça. Albert Einstein, um cientista, mas também uma figura mediática, acabou por ser o personagem sobre o qual Glass e Wilson concordaram. Lentamente então, a vida e obra de Einstein começaram a ganhar forma sob o espectro de um arquivo visual, musical, poético e coreográfico – descrição que traduz de forma breve os contornos desta peça pós-dramática que não segue uma narrativa linear.

Quatro horas e 40 minutos de duração, música repetitiva, quatro atos, cinco kneeplays que enquadram os atos, três temas visuais que vão variando durante a ópera (Comboio, Tribunal, e Nave espacial), ‘cartões postais’ cénicos de Wilson, o Ensemble de Philip Glass, 12 membros do coro vestidos com o ‘uniforme’ de Einstein (calças cinzentas, camisas brancas com mangas curtas e suspensórios), Einstein-violinista, duas danças coreografadas por Andy de Groat com Lucinda Childs como bailarina principal (que criou os seus proprios solos), vários textos falados (da autoria de Christopher Knowles, Lucinda Childs e Samuel Johnson) e sequências de números e sílabas de solfejo cantados: Um-dois-três-quatro, um-dois-três-quatro-cinco-seis, um-dois-três-quatro-cinco-seis-sete-oito … O resto é história.

“Einstein on the Beach” estreou em 1976 no festival de Avignon e imediatamente ficou claro que era um evento de festival. Na turné europeia foi exibido em seis países – França, Alemanha, Itália, Holanda, Bélgica e Jugoslávia. De acordo com declarações de espectadores, “Einstein” motivou reações diversas do público, desde o horror, à admiração. No entanto, as críticas dos jornais foram geralmente positivas, e descritivas. A comunidade crítica e profissional tem reconhecido a importância do papel de “Einstein” na destruição de convenções nos domínios da música, ópera, teatro e performance-art. Depois de uma bem-sucedida turnê europeia, “Einstein” teve duas noites de lotação esgotada no Metropolitan Opera, em Nova Iorque. Já então, “Einstein” fazia história como uma das obras mais importantes do teatro musical de vanguarda do século XX. No entanto, “Einstein” também ficou marcado pelo seu fracasso comercial, que perdurou na infame “dívida Einstein” assumida pela Foundation Byrd Hoffman, de Wilson. Depois de o “Einstein”, Glass continuou a ganhar a vida como motorista de táxi, e ele e Wilson realizaram vários leilões através dos quais os seus amigos do mundo da arte os ajudaram a angariar os fundos necessários para pagar a dívida.

Oito anos mais tarde, em 1984, “Einstein” era novamente posto em cena, seguindo-se uma nova montagem em 1992. Houve ainda uma tentativa de encenar “Einstein” por parte de outro encenador – Achim Freyer em 1988, mas sem muito impacto. A música de “Einstein” foi gravada em algumas ocasiões, e existe um documentário sobre a sua criação – “Einstein on the Beach: The Changing Image of Opera ” (1985). E a vida pública desta obra, de certo modo, interrompe-se aqui. Até o ano passado, muitos foram capazes de dizer que ouviram a música de “Einstein”, ou talvez que viram um documentário sobre a peça, mas não que, realmente, assistiram à opera.

A Pomegranate Arts, empresa de produção baseada em Nova Iorque, em associação com várias grandes e ricas instituições de música e teatro musical (De Nederlandse Opera entre outros) permitiram uma série de novas encenações de “Einstein”, que começou com a estreia europeia em Montpellier, à qual se juntam outras nove exibições em três continentes. Uma das últimas paragens ocorreu em Amsterdão, onde “Einstein” foi encenado entre 5 e 12 de janeiro, altura em qual tive a oportunidade de assistir ao espetáculo.

Em comparação com a equipe criativa original de 1976, a nova produção incorpora algumas alterações. Andy de Groat foi substituído por Lucinda Childs na função de coreografo. Esta última deixa de assumir o papel de dançarina nesta versão, sendo substituída por duas artistas: a atriz Kate Moran, que é uma das figuras do knee plays e a dançarina Caitlin Scranton, que realiza a famosa ‘dança diagonal’ na cena com o comboio. Na espetacular cena pré-final da nave espacial, onde a intensidade e complexidade de som e de eventos no palco é dramática, antecipando a possibilidade de uma explosão atômica, na produção de 1976, Wilson executava um solo, segurando duas tochas numa alusão às possíveis consequências do uso da energia atómica, naquela que ele intitula de dança “cautelar”. Na atual versão, este solo é executado por Ty Boomershine, e o resultado é menos assustador. No que se refere ao Philip Glass Ensemble, verifica-se a participação de largo número dos membros da formação original em todas as exibições da ópera, de entre estes, destaca-se o saxofonista e compositor Jon Gibson.

O desempenho foi impecável, exceto no que se refere à amplificação, que produziu por várias vezes efeitos sonoros indesejáveis. A coordenação dos músicos em relação às complexas estruturas repetitivas é quase mecânica. Devido à tecnologia cênica e iluminação que melhoraram significativamente com o passar dos anos, as cenas que eu conhecia de fotos parecem retocadas em relação ao “original”, de 1976. Verifica-se uma decisão inesperada no sentido de procurar estabelecer semelhanças físicas entre os jovens artistas que participam na atual produção com os que compõem o elenco original. Tanto Kate Moran como Caitlin Scranton apresentam semelhanças com Lucinda Childs e Helga Davis parece-se com Sheryl Sutton. Os textos falados, que parecem emitidos através de rádios, por vezes imitam a entonação das vozes de Childs e Sutton, reconhecíveis nas gravações da peça original. Em certos momentos, fica a impressão de que se trata de uma encenação de performace art, pelo protagonismo que assume em “Einstein”, a dimensão de “exposição do próprio corpo em cena” por parte dos autores. Esta situação levanta também a questão de como foi possível reencenar uma peça de vanguarda desta dimensão.

As instituições públicas presentes em “Einstein” são fielmente retratadas à luz da época histórica em que se situam. As cenas do tribunal, da prisão e da “escola” (um quadro no qual se desenvolvem problemas de física) indicam uma forte crítica dos mesmos. Por vezes é usada a dessincronização intencional entre o que é visto no palco e que é ouvido, especialmente em relação às vozes humanas e aos corpos dos cantores, um resultado da insistência inspirada de Wilson na técnica de “caminhada contra a música.” No que se refere à dança, dois trechos exigentes e impecavelmente executados pela Lucinda Childs Dance Company, assumem uma posição notável nesta produção. As quase cinco horas de experiência musical e teatral (sem pausas) são como um segundo.

Quando criaram “Einstein on the Beach” Philip Glass e Robert Wilson aproximavam-se dos 40 anos de idade, atrás de si já transportavam obras significativas, mas ainda não gozavam de uma carreira internacional extraordinária. “Einstein” foi o ‘tudo ou nada’ para eles. Todos os ‘excessos’ desta peça apontam para a grande energia e persistência que a compõem: a duração extraordinariamente extensa, a repetição infinita de variações de estruturas musicais, o volume de som excecionalmente alto, a exploração dos limites de cantores e dos restantes artistas no palco, e por outro lado, a lentidão, as alterações quase indetetáveis ​​na luz e nos cenários, a tensão nas danças… Apesar do desempenho impecável, da música e da encenação, ainda hoje é possível observar o testar dos limites da resistência e movimento corporal, da perceção, e da tolerância do público. Esse equilíbrio nos limites, a recusa de compromisso, o desacordo com as convenções, exibindo o seu “tudo ou nada” no mundo da ópera com a sua repetição contínua, ainda hoje traz vida, agudez, relevo e atualidade a este trabalho. Wilson diz que “Einstein” é hoje mais revolucionário do que foi em 1976. Depois da estreia em Amsterdão eu acredito que a declaração de Wilson é polissêmica e controversa, mas não totalmente imprecisa.

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