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A excepção ou a regra? [Estado de excepção]

27 Jan 2013
Estado de Excepção3-®Mariana Silva

Estado de excepção, de Rui Horta (Miguel Borges), fot. Mariana Silva.

Estado de excepção, direcção artística, espaço cénico e desenho de luz: Rui Horta. Interpretação: Anton Skrzypiciel, Miguel Borges, Pedro Gil e Teresa Alves da Silva. Musica original e interpretação ao vivo: David Santos (Noiserv). Vídeo: Francisco Venâncio. Apoio dramatúrgico: Tiago Rodrigues. Direcção técnica: Luís Bombico. Sonoplastia: Manuel Chambel. Apoio técnico: Tiago Coelho. Produção executiva: Ana Carina Paulino. São Luiz Teatro Municipal, 10 de Janeiro 2013.

Estado de excepção é a mais recente criação de Rui Horta, apresentada no São Luiz Teatro Municipal, de 10 a 13 de Janeiro. O título é sugestivo: se entendido literalmente fica-se com a ideia de se referir a uma emergência nacional, a uma situação temporária de restrição de direitos constitucionais e a uma concentração de poderes que, durante vigência desse estado de excepção, aproxima um Estado sob regime democrático do autoritarismo. O coreógrafo propõe que este estado de excepção seja a crise que atravessamos actualmente. Estado de Excepção é segundo Rui Horta uma visão optimista em relação ao futuro, sublinhando o momento presente como a excepção. O espectáculo está dividido em duas partes distintas – na primeira, a acção gira em torno do verbo, são cenas coreografadas, mas a ênfase está no texto. Existe uma tensão permanente entre os três actores e o músico que compõem esta primeira parte; assiste-se a um crescendo que evolui até atingir o clímax, iniciando-se a segunda parte do espectáculo. Esta, trata-se de uma cena abstracta, um solo de dança que acontece numa atmosfera oposta à da primeira parte, a tensão dissipa-se e há, finalmente, tranquilidade.

O espectáculo já começou quando o público entra na sala. Está montada uma estrutura a meio da plateia do lado direito que faz lembrar uma pequena sala de estar: uma carpete de pêlo branco delimita o espaço da ‘sala’, há uma poltrona escura, uma mesa de apoio preta e um candeeiro sobre ela. Neste cenário está um jovem em pé, (Pedro Gil) sobriamente vestido em tons pastel, que, com um microfone, fala directamente com o público. Aparentemente, poderia ser uma conversa improvisada, dando as boas vindas a quem vai entrando. Mas não é uma conversa inocente. Por entre o divagar do seu discurso é subtilmente introduzido o tema. Um discurso sobre as regras de etiqueta à mesa, é o mote que dá início ao espectáculo resvalando para sucessivas imposições e castrações que nos são incutidas desde criança, as quais, questionáveis ou não, aqui são trazidas para a cena carregadas de tensão e contradição. Este discurso é interrompido por um homem de fato escuro (Anton Skrzypiciel) que se apresenta no primeiro balcão – grita algo incompreensível e depois desce para a plateia. Parece ser um subordinado que obedece sem questionar às ordens do primeiro. Ambos sobem para o palco, onde está projectada, sobre uma tela, dominando todo o palco, a imagem de uma porta amarela metálica que poderia ser a porta de um armazém. Esta projecção não é estática: vê-se e ouve-se um bater constante, um som forte e marcante que perdura com o desenrolar do espectáculo. Do lado esquerdo do palco está o músico David Santos e, do lado direito, sentado no chão, está o que parece ser um sem-abrigo que, de repente, desata a correr como se fosse um cão – altera-se o jogo de poder – agora a tensão está sobre este homem-animal (Miguel Borges) que alterna entre um e outro, sendo umas vezes dominado e outras, revoltado. A acção entre estas três personagens vai crescendo e tem-se a sensação, tal como a imagem repetitiva do bater na porta, que algo está prestes a rebentar. A tensão aumenta, mas repetem sem cessar “vai correr tudo bem” e gritam “a nossa força é a nossa união”, “sabemos o que queremos, estamos bem assim”, enquanto constroem e desconstroem cenas com pedras da calçada (que fazem lembrar as pedras usadas nas manifestações mais recentes junto à Assembleia da República) – o discurso permanece “temos que acreditar nisto, temos que respirar isto, temos que comer isto, isto é o nosso destino”, há gritos de “cólera” e é invocada a imagem de atravessar um túnel para chegar ao outro lado e que “já não há outro caminho”, a movimentação dos actores, o som perfurante do bater na porta e as luzes intermitentes são angustiantes. Uma angústia que pode ser comparável à irresolução das questões levantadas no espectáculo em relação à situação actual: como viemos aqui parar? Como vamos sair disto? Qual a nossa responsabilidade individual? Vamos lutar ou vamos desistir? Mas o espectáculo não apresenta soluções nem respostas, apenas uma vaga esperança ou uma espécie de aceitação deste estado crítico e a repetição de que “vai correr tudo bem”, como se isso por si só pudesse transformar a situação.

A cortina sobe revelando o que está atrás da porta amarela e começa a segunda parte do espectáculo. O público é convidado a subir para o palco, ficando acomodado lateralmente de cada lado. Visualmente, para quem permanece do lado da plateia, é um quadro muito rico porque essas pessoas passam a fazer parte da cena; mas agora o ambiente altera-se. Aquele aglomerado de pessoas que poderia enfatizar a revolta como numa manifestação, está apenas sentado a assistir. Ninguém poderia imaginar que para lá da porta estava uma bailarina (Teresa Alves da Silva) de preto num quadrado delimitado a amarelo no chão, e que o som violento do bater na porta eram bolas de ténis atiradas para uma parede ao fundo. O chão está repleto de bolas de ténis, que vão sendo progressivamente desviadas pela bailarina para fora do quadrado enquanto executa um solo magnificamente dançado. Teresa Alves da Silva é exímia na realização de cada gesto. É uma cena abstracta e de uma beleza delicada que nos relembra a frase anteriormente repetida “vai correr tudo bem”. A transição da primeira para a segunda parte é brusca e não oferece ao público uma ligação entre uma cena e outra, mesmo que isto seja propositado o corte é demasiado veloz e inesperado para ser entendido. Resta-nos apenas desfrutar dos sentimentos e da beleza visual da dança.

O espectáculo termina calmamente com uma música cantada por David Santos ao som da guitarra, sentado na ‘sala’ construída na plateia. A imagem final é impressionante – o público faz parte da cena – a plateia aplaude e os aplausos são para estas pessoas do público também, pessoas comuns, como cada um de nós, que fazemos parte deste dilema actual. Aplaudíamos também, como se estivéssemos a aplaudir as nossas próprias vidas.

Se o espectáculo pretendia ser optimista, sem dúvida que o conseguiu ser, talvez até duma forma demasiado óbvia, tanto na transição brusca, do verbo para o abstracto (sendo o primeiro a representação de um estado de calamidade e o segundo um momento harmonioso e perfeito), como da envolvência musical redundante em relação ao movimento do solo final. No entanto, deixa no ar um sentimento ambivalente de passividade e a necessidade de existir responsabilidade individual para inverter a situação actual e a dúvida: será a crise actual a excepção, ou a regra?

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