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Morte ou sobrevivência? [Devagar]

11 Dez 2012
boas barker tuna

Devagar, de Howard Barker, enc. Rogério de Carvalho, As Boas Raparigas…, fot. João Tuna

Devagar de Howard Barker. Tradução: Constança Carvalho Homem. Encenação: Rogério de Carvalho. Cenografia: Cláudia Armanda. Figurinos: Catarina Barros. Desenho de luz: Jorge Ribeiro. Sonoplastia: Luís Aly. Assistência de encenação: Carla Miranda. Interpretação: Anabela Sousa, Carla Miranda, Maria do Céu Ribeiro, Sandra Salomé, Miguel Eloy. Coprodução: As Boas Raparigas…, TNSJ.Teatro Carlos Alberto, Porto. 22 de Novembro de 2012.

“Nunca é tarde demais para travar a morte da Europa” é a última frase do texto “Forty nine asides for a tragic Theatre” de Howard Barker, que se pode ler na íntegra na folha de sala de “Devagar” (tradução de Constança Carvalho Homem), e originalmente publicado em 1986, no jornal The Guardian. (E como esta frase me soa, hoje, tão pertinente).

Na década do fracasso do “socialismo oficial”, em que o “contabilista é o novo censor” (palavras de Barker), o dramaturgo discorre sobre a Tragédia como a possibilidade de resistência pela arte ao populismo e ao autoritarismo, à “trivialização da experiência e à cultura da banalidade”. Contra a tentação das vozes em uníssono, dos carnavais, dos musicais, do consenso, Barker faz a apologia do silêncio, das palavras incómodas, da dor, da solidão do espectador e da ambiguidade servida ao público. Teatro da Catástrofe é como o dramaturgo define o seu trabalho. Sim, porque o “teatro (…) tem de parar de contar histórias que o público consiga entender”, afirma. “A tragédia liberta a língua da banalidade”, lê-se no referido texto, e traz o contraponto à sofreguidão contemporânea da procura de felicidade, seja através do consumo, do entretenimento banal, ou mesmo de uma indústria cultural contagiada pelo facilitismo da estratégia comercial.

“Devagar” é composto por duas peças. No primeiro momento, Rogério de Carvalho leva a cena “Corporal Webb”/ “Cabo Webb”, um fragmento da peça “Fives Names” (2011) e, no segundo momento, “Devagar” do texto homónimo “Slowly” (2010).

O Cabo Webb é Miguel Eloy, sozinho em cena, mãos decepadas, cotos ensanguentados. O espaço cénico faz-se a partir de uma única coluna imponente de que não se vê o fim e de ruídos de guerra ao longe. “Horrível é o deserto…”, repete constantemente Webb, nos intervalos da alucinação com que se debate perante o vislumbre da morte próxima. Sentimo-lo abandonado ao seu destino, desesperado, suplicando por água, guerreando a coluna na tentativa de a derrubar – símbolo do poder que o oprime. Neste primeiro momento, somos afectados pela impotência e o desespero do miserável Cabo perante o agressor ausente. Miguel Eloy expressa as dores de Webb através de um trabalho físico e de movimento irrepreensível. Não deixa de ser curioso que Cabo em inglês se leia “Corporal” – o soldado de corpo exposto.

Em “Devagar” a atenção do espectador é capturada pela imobilidade de quatro mulheres em cena, vestidas de negro barroco, faces pálidas, mãos pousadas sobre o colo. São quatro princesas sentadas em austeros tronos de um qualquer palácio, voltadas para o espectador, em pose altiva. Ao contrário do primeiro momento, impera o discurso, não há movimento, porque não se quer distracção para as palavras. É quase perturbadora a transição brusca entre as duas peças. Quando ainda ecoa na memória o som de fundo das armas e os gritos de Webb, é-nos exigida uma atenção rigorosa para as palavras destas quatro figuras. No palco negro, as princesas, parcamente iluminadas, esperam sentadas, imóveis, os bárbaros que invadem o palácio, e discutem a forma mais digna de morrer.

Barker trabalha em “Slowly”, como em geral no seu Teatro da Catástrofe, o comportamento humano em situações limite, onde expõe, nomeadamente, as fragilidades, a dor, a perda da integridade e dos princípios. Em “Devagar” as quatro princesas discorrem sobre o tipo de morte que lhes será digna, do suicídio, à violação consentida, à emulação. As palavras duras intercalam silêncios que reverberam no público. O medo desse futuro anunciado produz no discurso laivos de loucura que se desdobram, surpreendentemente, em riso e ironia. Se, inicialmente, as quatro mulheres se apresentam como um colectivo, uma irmandade que lhes dita iguais condicionantes, à medida que expõem as suas ideias, ou se resignam no silêncio e no olhar tombado, vamos lendo as discordâncias e a desagregação dos seus elos, na escolha entre a morte ou a hipótese da vida.

Temos “As Boas Raparigas…” com um dos seus autores fetiche, cujos textos a companhia já terá levado a cena diversas vezes, com encenação de Rogério de Carvalho: “Mãos Mortas”, “Possibilidades”, a versão de Barker de “(Tio) Vânia”, “Os Europeus” e “Mulheres Profundas/ Animais Superficiais”.

Das actrizes, Maria do Céu Ribeiro é uma princesa impiedosa, presença cortante, como lhe é habitual. É ela quem conduz o discurso e elabora sobre as hipóteses de suicídio condignas do estatuto de todas. As restantes procuram alternativas e argumentos contra o terror que se avizinha. Anabela Sousa e Sandra Salomé, as princesas expõem a sua fraqueza, perdendo o decoro, disfarçando o medo com momentos de riso e de euforia, a despropósito. Carla Miranda é a angústia travestida de serenidade. Texto difícil, porém viciante, que questiona se a resposta mais digna à catástrofe é a morte ou o esforço pela sobrevivência. Encenação espartana de Rogério de Carvalho, como aliás, o permitem as “didascálias deterministas” de Barker (palavras do encenador).

Este espectáculo constrói-se na passagem que vai do texto “Cabo Webb” a “Devagar” – dois momentos de confronto com a eminência da morte. No primeiro momento, o desespero é muito presente, incómodo e ensurdecedor – desejamos que terminem os gritos e a desgraça de Webb. No segundo momento, o horror é-nos servido através de palavras que vamos traduzindo em imagens. Talvez preferíssemos “Devagar” isolado, sem os ruídos de guerra iniciais de “Cabo Webb”. A concentração iria somente para a palavra: da severidade inicial daquelas quatro mulheres à fragmentação, pouco a pouco, dos pressupostos da sua força e das suas certezas – exposição da fragilidade de qualquer um perante a morte anunciada.

Inevitável um paralelismo desta peça com a actual crise económica, politica e, sobretudo, ideológica: o indivíduo que luta, impotente, contra um poder sem rosto; uma colectividade que, perante uma ameaça externa, perde a sua integridade, e da discórdia resulta, frequentemente, a solidão. E Howard deixa-nos a questão: qual será, afinal, a resposta mais digna à penhora da vida?

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