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Eu tinha uma pastinha igual [Monstro (parte 1. Calamidade)]

5 Dez 2012
Monstro (parte 1: Calamidade), de Joana Craveiro, Tânia Guerreiro e Gonçalo Alegria, Teatro do Vestido.

Monstro (parte 1: Calamidade), de Joana Craveiro, Tânia Guerreiro e Gonçalo Alegria, Teatro do Vestido. Fot. still de vídeo de Hugo Barbosa e Pamela Gallo.

Monstro (parte 1: Calamidade), de e com: Gonçalo Alegria, Joana Craveiro, Tânia Guerreiro. Montagem e Iluminação: José Pedro Santos, Nuno Patinho. Produção: Teatro do Vestido. Espaço Alkantara, 28 de novembro 2012.

“Eu tinha uma pastinha igual”, comentou a minha amiga. “Tive as duas: a pequenina era da primária e tinha o pinóquio; a segunda já era maior, toda em xadrez, mas igual, igual”. A relação afetiva que, neste caso, despontou através de dois adereços, fez possível e determinante a ideia de reconhecimento que atravessa todo o espetáculo.

Calamidade é a parte 1 de um tríptico a que o Teatro do Vestido chamou MONSTRO. É uma investigação que esmiúça as memórias políticas escondidas, nas conversas, nas cartas, nos mapas, nas fotos, nos cromos e nos desenhos animados. Para que seja possível reavivar a consciência e para denunciar a falta de informação acerca do passado recente português. Isso pode também passar por lembrar as aventuras do valente Ruy, o pequeno Cid, a célebre série infantil dos anos 80, cujo genérico é projetado e cantado. Pelo menos serve ali para justificar o ingénuo despertar  do sentido político. Perante a desgraça pública de hoje – para não voltar a escrever a maldita palavra “crise” – importa definir uma situação de pertença. Participar no passado para perceber um futuro.

O espaço está dividido em três. De um lado, Tânia Guerreiro rodeada de adereços que sugerem o interior de uma casa. Ao centro, Joana Craveiro e um armário metálico composto por uma estante cheia de capas, um cacifo e gavetas de arquivo. Do outro lado, a mesa de som onde está Gonçalo Alegria, que vai elaborando a paisagem sonora. Candeeiros de escritório e outros fluorescentes povoam o espaço, assim como duas caixas de luz onde são, cuidadosamente, exibidos os documentos, fundamentando as sucessivas anamneses. Estas narrativas, ora factuais, ora nostálgicas, são isoladas no espaço de cada um dos atores. Quase não há diálogos. Tomam várias direções, embora se ajustem umas às outras.

O reconhecimento constrói-se a partir da sobreposição das frações de estórias que supõem a memória coletiva. Organizam-se em torno das ideias “herança” – “punição” – “dívida”. É suposto que se exercite em conjunto o traçar do passado desde o 25 de Abril, ele não nos é devolvido por inteiro. Trata-se da necessidade de preencher as pastas vazias que enchem as estantes de relatórios, relatórios e relatórios, arquivos sem conclusões, nem responsáveis. O pânico da papelada que não explica nada. É melhor ir buscar os apontamentos, as lembranças das conversas de família à mesa de jantar, dos colegas de escola e da namorada conhecida por correspondência, mesmo que tudo isto seja construído com base em ficções. “Traçar uma genealogia do estado de coisas”, como dizem. Um amontoado de recordações sobre decisões políticas são narradas na primeira pessoa. Até porque a metódica disciplina da História que nos ensinam na escola parece ter estagnado no regicídio, na afirmação da intérprete Joana Craveiro. O registo deste percurso é necessário para a realização do diagnóstico do país. E há outra forma de encontrar a cura?

Já José Gil apontava [em Portugal, Hoje. O medo de existir (2004)] a não-inscrição como um dos males do português, ancorado ao sentimento de inveja e ao medo que vem do período ditatorial e que ainda perdura. Só que hoje não há uma identidade a quem se possa definidamente apontar o dedo. O monstro de hoje não tem rosto, como a figura que habita toda a peça: as roupas penduradas numa cruzeta da persiana formam uma espécie de vulto. É uma ferida que mantivemos aberta, e sobre isso disse João Barrento “este fantasma que não nos assombra as existências porque alguém hoje se encarrega sempre de fechar o quarto dos fundos…” [Dos Tempos – Receituário da dor para uso pós-moderno, em O arco da palavra: ensaios (2006), p.11 ].

Por outro lado, a uma escala global, há muito se denuncia o “sistema”, o monstro anónimo do desconcertante capitalismo. Somos netos e bisnetos de Marx, de Freud e da Coca-Cola, conservados num estado de banalidade que disfarça a realidade e oculta as ideias. Gonçalo Alegria, na sua pausa para cigarro a meio do espetáculo, relembra os laivos anti-consumistas mal sucedidos da juventude – a ação de pintar a marca das All Stars de preto, por exemplo – enquanto olha para o seu Macbook. Descreve um roteiro mundial, em jeito de rally das tascas, onde prova as bebidas do mundo, até chegar às antigas colónias…. mas é interrompido “Vê lá o que vais dizer… Pára!” Não há como escapar ao sistema. Ou há? E queremos?

Hoje e aqui em Portugal, impingem-nos um orçamento de estado para a cultura arrasador, tiram-nos a televisão pública e até já nos ameaçam o ensino público. Por isso Calamidade cria um exercício importante, abrindo a urgência em falar sobre o que levou a tudo isso. Através de um irónico sentido de humor que pontua o espetáculo, evoca-se a falta de nitidez das verdades, dos próprios termos, ao tempo em que se descobrem os pedacinhos da história, dos que a fizeram por nós. A bolha de ar sonora completa a marcha de episódios. A sua restituição constante em cadência com a repetição de certas frases-simbólicas harmonizam o espetáculo. Dão-lhe bom ritmo. E, depois, daqueles autores/atores transparece uma enorme vontade de continuar a forçar a abertura de um espaço público.

Em sintonia com os atuais eventos culturais, o Teatro do Vestido pretendeu romper o silêncio acerca da conjuntura do país, ultrapassar o velho lamento É a vida!, passar da inércia à ação. Porque dizem ser este “o momento de fazer teatro sobre isto.”

De que é que temos ou não temos memória? Esta é a parte 1. de um trabalho que é um processo: o reconhecimento como forma de superar a ausência dos acontecimentos da sua ausência em mim. É saber que aquela pastinha ali mostrada também foi a minha. Sobretudo quando os dias nos parecem “meio assim a preto e branco”.

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