Skip to content

Um dia estarei morta ou Texto redigido na primeira pessoa [Iluminações]

28 Nov 2012

 

Iluminações, enc. Mónica Calle, Companhia Maior / CCB, fot. Bruno Simão.

Iluminações. Encenação: Mónica Calle, Companhia Maior. Pequeno Auditório CCB, 6 de Novembro de 2012.

A entrada não é feita pelas acostumadas portas centrais. É feita lateralmente à plateia e permite perceber que alguns lugares se encontram já ocupados por actores, trajados com os seus figurinos. A Companhia Maior é constituída apenas por intérpretes que se encontram em idade sénior. “Não perguntes por quem os sinos dobram…”, penso, ao vê-los nos lugares em que nos sentaremos em breve. É necessário atravessar o palco no trajecto para essas cadeiras, que nos aguardam. Baldes, caixas, malas, bancos, algum mobiliário gasto e outros objectos, mais ou menos discerníveis, povoam aquele espaço, coberto de terra. Calle desloca-os em plataformas móveis, retirando-os do campo de visão. No chão, desenha-se o rasto desse trabalho extenuante. Exaustão: um dos motes da apresentação que prossegue.

De palco esvaziado e plateia assente, Calle sentencia: “Boa noite. Um dia estarei morta.” Debaixo de um cone de luz, despem-se dois corpos que se enlaçam. Na fila atrás de mim, alguém se queixa da tendência de Calle para a nudez. E tece um comentário depreciativo ao umbigo da actriz. Os ‘stripteases’ de Calle – recordo, particularmente, A Virgem Doida – não exibem meramente um corpo desnudado. Expõem-na até ao tutano. Revelam mais do que desvelam. Aquilo a que assistimos – essa espécie de revelação – é a emergência de algo profundo e obscuro, além do retirar de mais ou menos camadas de roupa que tapam um corpo. Strindberg, Rimbaud, H. Müller… As duras, cruas e recortadas palavras, que pronuncia, são amiúde de outros – esses autores que lhe são caros -, mas parece haver em Calle uma veracidade que se cola às personagens, às estórias, de maneira tão intrincada que delas se apropria. Calle não faz de … é …. (naquele intervalo de tempo). Poderia ser um amplexo entre um corpo relativamente jovem e outro de idade mais vetusta se a pessoa mais velha naquele palco não fosse a Mónica Calle. Aos vinte e três anos, Florbela Espanca escrevia: “Estou velhinha”…

A Casa Conveniente transportada para o CCB: a Mónica Calle consegue transformar qualquer espaço numa caixa negra claustrofóbica. Isto é um elogio.

Os objectos, como os actores, estão quase constantemente em trânsito. Foram feitos regressar. Voltam a partir. Retornam. Combinam-se de diferentes maneiras, criando a paisagem onde decorre a acção. Caixas e malas  servem de assento. Baldes carregam a água com que se molha a roupa que se volta a vestir, encharcada. A mesma água que limpa a terra para criar círculos: esse lugar de exposição onde situações se apresentam. A parca iluminação, com focos de luz muito direccionados, remete para a pintura setecentista de Georges de La Tour, um determinado Rembrandt e o ligeiramente precursor Caravaggio… Todos os actores, muitas vezes circunscritos por esses círculos de luz, têm o seu momento de protagonismo. Uma pequena coreografia. Uma canção. Uma espécie de número de variedades, com apontamentos risíveis. Um texto sofrido e doloroso. A repetição do gesto. Silêncio(s). Momentos de euforia conjunta que atenuam a tensão trazida pelas palavras: o colectivo dança ao som de Sinnerman de Nina Simone. O que pode um corpo? O que permitem, ainda, estes corpos? O que os faz mover? Como afastar da lembrança Pina Bausch? E não falo apenas de Kontakthof, a referência mais óbvia.

A morte parece estar sempre à espreita. Em Iluminações, os corpos já caminharam mais de sessenta anos em direcção a ela. Vejo ecos de Pavlova (derradeiros momentos do cisne) no solo de Luna Andermatt.

Calle não é uma força externa tornada invisível. Do interior da peça, dirige os actores em tempo real. Numa das cenas mais paradigmáticas, vários homens sentam-se num tronco a beber cerveja, enquanto um deles segue as indicações explicitamente ditadas por Calle. Luta com o texto (sobre a crucificação de Cristo e dos dois ladrões, que são mencionados apenas por um dos Apóstolos). Procura o posicionamento face à luz. Iluminações e Uma Cerveja no Inferno estão reunidas numa mesma edição de Rimbaud, ocorre-me.

Houve quem visse condescendência na presença de Calle, no amparo, na evidência da direcção. Eu vi carinho. Houve quem se ofendesse com a nudez daqueles corpos. Eu vi generosidade. Houve quem tivesse ficado preso nas várias fragilidades da construção. Eu comovi-me. “Estive aqui.”, ouviu-se, de todos os actores (mas não em uníssono), no final da peça, antes de dançarem novamente ao som de Sinnerman. E, quando me interpelaram para me juntar a essa aparente celebração, acedi com agrado.

Quando a música terminou, Calle disse ainda: “Agora é a minha vez”. E esta vez que reclamou não era de protagonismo relativamente à Companhia Maior. Era a necessidade de ripostar os comentários medíocres, aos laivos de cinismo e ao frio cepticismo que lhe foram dirigidos por parte da plateia. Iniciou então um breve discurso-manifesto com uma citação de  Bernhardt (assim me pareceu ouvir e espero não estar enganada): “O artista deve ser louco”. E continuou: “Não pode ceder, nem por um instante. E o mundo que pense o que quiser”. Nem que pague com a solidão, reverberava de um momento anterior. Contudo, Calle não está sozinha. Uma outra parte da plateia aplaudiu de pé. Muitos choraram e riram: estiveram lá. E, num amanhã próximo, os sinos dobrarão por todos nós.

Anúncios
9 comentários leave one →
  1. cristina goncalves permalink
    28 Nov 2012 16:48

    eu estive lá! (resposta na 1ª pessoa)
    cristina gonçalves

  2. Miguel Lobo Antunes permalink
    28 Nov 2012 17:45

    Eu não estive e tenho pena.

    Sobre a Crítica, faço observações soltas. Porque este blogue tem andado muito mortiço…

    Dispensável a referência ao comentário do espectador sobre a nudez no trabalho da Mónica (e muito mais sobre o seu umbigo!). Para se tratar o assunto da nudez na obra da Mónica não é citando comentários destes. E o assunto é tratado.

    Dispensáveis, acho eu, as evocações que o espetáculo sugerem à crítica (crítico no feminino). São evocações que lhe dizem respeito e ao seu passado. Mas que não acrescentam nada sobre a análise feita ao espetáculo. Numa crítica não procuro, não me interesam, os estados de alma do crítico. Concordo que se citem obras, autores, etc., para se defender um ponto de vista ou para se alargar a compreensão do objecto criticado.

    Porque há um foco de luz, falar em La Tour, Rembrant e Caravaggio parece-me excessivo. Não acredito na comparação. Acresce que que eles trabalham a luz magistramente, mas de maneiras bem diferentes, acho eu.

    Gostaria de ter ficado a saber mais sobre o espetáculo. Por exemplo, sobre o texto. E sobre a intervenção final da Mónica (não percebi nada, de tão curta que é a referência).

    Pela descrição em frases curtas e pela afirmação segundo a qual Calle transporta a Casa Conveniente para o CCB, fiquei com a ideia que este espetáculo é uma sequência, sem rutura, de trabalhos anteriores que vi nessa Casa. Todavia, outros que vi no CCB ou aqui na Culturgest, eram bem diferentes do que ela fazia na CC. Intriga-me.

    Gostei do texto escorreito. Não gosto das perguntas. É um tique muito comum. Estas perguntas não adiantam nada ao entendimento do espetáculo. O que faz mover um corpo? Tanta coisa. São tantas as respostas possíveis que o que interessa é a resposta que é dada no espetáculo, não a pergunta que é feita na crítica.

    Por aqui me fico. Não fico. Ainda acrecento que gostei da crítica, em geral. Muito pragmaicamente, fiquei com uma ideia do espetáculo, de como ele se insere no trabalho da Mónica, do entusiasmo da crítica que o analisa, de apreciações várias que “initerpretam” o trabalho. Obrigado.

    Miguel Lobo Antunes

  3. 28 Nov 2012 21:39

    Também perdi o espectáculo e, por comentários contraditórios que fui ouvindo e lendo, percebi que teria sido particularmente importante não ter faltado. Mas este texto ajuda-me a imaginá-lo, a pensá-lo e a senti-lo, apesar da ausência. Não estive lá, mas estive aqui.

  4. carlos nery permalink
    28 Nov 2012 23:31

    Já agora talvez tenha interesse divulgar outros blogues que referiram criticamente o espectáculo:
    Machina Speculatrix, de Porfírio Silva (na troca de comentários finais intervém a própria Mónica).
    escrever é triste, de Rita Roquette de Vasconcellos.
    Certos Dias Acontece, assinado por Magda

    Enfim, num tempo em que a crítica vai rareando na imprensa, valha-nos aquela que surge na Net…
    Já agora, também eu estive lá, com os meus 18 colegas… No blogue do Porfírio, ainda sob a forte impressão dessa experiência, escrevi meia dúzia de linhas definitivas… Por enquanto, nada mais acrescento.

  5. apr permalink
    28 Nov 2012 23:53

    deveria ser mais do que uma descrição do espectáculo, não?
    apr

  6. Ana Dinger permalink
    1 Dez 2012 21:23

    Antes de mais, grata a todos pelos comentários, pela referência a outros textos centrados nesta peça e, particularmente, pelas notas de uma experiência feita a partir do interior, pelo CN.
    Eu não considero o meu texto meramente descritivo mas explicar porquê seria uma desmontagem do mesmo que prefiro deixar para o/a leitor/a.
    O Mais Crítica é por mim encarado como um espaço de aprendizagem e experimentação. Estamos ainda nos primeiros meses deste projecto e este encetar de caminho é pautado pela procura. Assim, convido-vos a acompanharem a nossa trajectória e, com ela, essa procura de uma ‘maneira de fazer’ ou de ‘maneiras de fazer’ que possa/possam fazer jus ao objecto de análise e oferecer pistas a quem nos lê para o enquadramento (ou possibilidades de enquadramento) do mesmo.
    Cada texto implica escolhas, evidentemente, quer decorrentes de constrangimentos externos como de critérios internos.
    As opiniões expressas por quem lê (quer nos comentários publicados no blogue quer feitas por outros meios) ajudam a que percebamos imediatamente o efeito das nossas escolhas e catalisam ajustes e reajustes de umas opções ou confirmação/reiteração de outras.
    É neste contexto que agradeço particularmente ao MLA mas abstenho-me de tecer considerações relativamente ao questionamento dessas escolhas, porque a discussão que me parece pertinente alimentar é a que contribua para a perpetuação da peça/objecto (e menos a da falibilidade das minhas decisões).
    Deixo, no entanto, a salvaguarda de que esses apontamentos são cruciais para o balizamento do que vou entendendo como espaço possível para a Crítica e para a minha localização no mesmo.
    E explico – porque esta, sim, tem implicações na contextualização do trabalho da Mónica Calle – a afirmação: “a Casa Conveniente transportada para o CCB”. Não quis dizer que este espectáculo é “uma sequência sem ruptura de trabalhos anteriores”, mas que permite o reconhecimento de estratégias e elementos já familiares.
    A terra a cobrir o chão. Os baldes de água e o vestir a roupa que lá se mergulha. A deslocação de objectos, que vai alterando o ‘cenário’ em que as situações se apresentam. A iluminação, contrastante, que cria zonas tão vastas de obscuridade (imagens que se fixam na memória também através das fotografias do Bruno Simão). Estes são apenas alguns exemplos.
    Mas há também uma carga que Calle transporta consigo para qualquer trabalho em que se envolva, como actriz/intérprete ou encenadora: essa capacidade de transformar espaços em caixas claustrofóbicas, de nos ferir com as palavras incisivas que encontra nos seus autores de eleição, de nos empurrar para um lado mais escuro, mais sombrio, mais periclitante… de nos afastar do que é tranquilo e agradável, para imergirmos num lugar distante do entretenimento e próximo do questionamento radical.
    Claro que o trabalho da Calle também é pontuado por momentos em que a tensão é ou parece suspensa. Mas o que sobrevém parece ser: há nas pessoas a potência para cometer os mais atrozes actos; viver é, tantas vezes, magoar e/ou ser magoado/a; sem solução ou como solução, o que nos resta é a possibilidade de encontrar, na relação com o outro – não obstante esse outro (poder) ser também agente na nossa miséria -, um instante de redenção.

  7. José G permalink
    2 Jan 2013 11:35

    Infelizmente perdi o espetáculo, mas gostei mesmo muito deste texto. Obrigado.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: