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Navegar é preciso [Mundo Maravilha]

21 Nov 2012

 

Mundo Maravilha, criação Mundo Perfeito / Foguetes Maravilha, fot. Magda Bizarro.

Mundo Maravilha. Co-criação e interpretação: Alex Cassal, Cláudia Gaiolas, Felipe Rocha, Paula Diogo, Renato Linhares, Stella Rabello e Tiago Rodrigues. Desenho de luz e apoio técnico: André Calado. Produção: Mundo Perfeito / Residência artística: O Espaço do Tempo / Alkantara. Maria Matos Teatro Municipal.

Mundo Maravilha é o nome de fusão do veleiro da companhia portuguesa Mundo Perfeito com a companhia brasileira Foguetes Maravilha. Esteve em residência n’o espaço do tempo em Montemor-o-Novo, no espaço alkantara e atracado no Maria Matos em Lisboa. Mundo Maravilha viaja agora para Guimarães (em cena a 23 de novembro na Fábrica ASA), onde também se irá realizar uma oficina de criação coletiva, seguindo novamente para Montemor-o-Novo (a 24 de novembro). A sua tripulação, composta por autores e atores portugueses e brasileiros – Alex, Cláudia, Felipe, Paula, Renato, Stella e Tiago, partiu em colaboração artística, numa viagem de quatro semanas de ensaios.

Esta não é uma viagem com um rumo definido ou definitivo. O espetáculo não é a demonstração da viagem épica, como fora a Odisseia ou Os Lusíadas, não é a história marítima entre Portugal e o Brasil cunhada por Pero Vaz de Caminha, ou as travessias literárias de Júlio Verne; não é uma viagem à Atlântida ou outro maravilhoso continente esquecido (como poderia sugerir o título do espetáculo), nem sequer é uma viagem ao redor do meu quarto (diria Xavier Maistre) ou uma busca da identidade perdida.

Não conhecemos o sentido da viagem do Mundo Maravilha, nem há uma cartografia cedida ao público. Mas podemos identificar, de forma inequívoca, três camadas de sentido no espetáculo: a viagem marítima, a viagem íntima e a viagem teatral. Só que as camadas acabam por se misturar, como se misturam os sabores dos gelados, dando origem a uma deliciosa narrativa non-sense, fracionada, que implica um certo esforço de reflexão para o espetator as desembaraçar, percebendo as ironias mais subtis. O mesmo esforço, contra-a-corrente, que os personagens infligem na sua navegação à deriva – “estaríamos à deriva, procurando permanentemente o caminho, nunca saindo do mesmo lugar e, simultaneamente, chegando sempre a um lugar novo”.

Exemplo disso é a cena em que a embarcação marítima rapidamente se transforma em nave espacial: os sete atores são viajantes no espaço e comunicam entre si, evocando uma qualquer guerra dos mundos ou imaginando um outro enredo de ficção científica. Os corpos atirados para os puffs que formam pequenos globos terrestres disformes, as vozes abafadas nos frascos de vidro, chamam nomes de código: Huxley, Wells, Hans, Andersen? Lembrei-me que pudesse ser uma evocação aos intemporais autores da narrativa distópica Aldous Huxley e H.G.Wells, como antecipação de um possível futuro próximo, e no sentido da utopia negativa. Mas também pode lá caber, quase no extremo oposto, Hans Andersen, o autor dos contos de fadas, com a utopia positiva que traz uma mensagem moral e um final cor-de-rosa. Em todo o caso, leio que essa mesma cena constituiu um exercício a partir de uma das Crónicas Marcianas de Ray Bradburry, obra que divaga em torno do tema da apropriação de Marte por colonizadores terrestres. Referências não faltam ao longo de todo este espetáculo, tanto assumidamente presentes como por vezes também disfarçadas, ou até ocultas: tudo aquilo que está guardado, como que em estado de potência, na nossa bagagem do imaginário pessoal e coletivo.

E eis que surge a dupla mais romântica e lamechas da imagética do cinema ligada a estes desastres náuticos: Kate (Winslet) e Leonardo (Di Caprio) para nos lembrar que, afinal, ainda estamos em alto mar. A tripulação está equipada com capas impermeáveis e galochas de borracha coloridas e o ambiente cénico corrobora a fantasia: o palco despido de todos os aqueles panos, a teia teatral à mostra assim como a maquinaria, que serve para simular o içar das velas na tempestade. Destaque-se, muito especialmente, o desenho de luz, composto por inúmeras luzinhas suspensas assimetricamente pelo espaço – lâmpadas mergulhadas em água dentro de frascos em vidro – caindo como se fossem estrelas.

A viagem íntima acontece numa espécie de inversão de escala, chamando a atenção para a riqueza da pequena dimensão. Ao invés de se descrever a travessia épica dos grandes navegadores, os grandes feitos que marcaram a História portuguesa e a brasileira, antes se mostra como os objetos mais simples também contêm e contam outras histórias, mais pessoais, mais íntimas. É o caso da aventura de um isqueiro vermelho, descrita pelos atores:  à medida que se vai transferindo de mão em mão, mostra a teia de relações entre as pessoas que detém o seu trajeto, desde o momento em que é comprado na tabacaria, até ao bolso do espetador, ali presente, ali revelado como um truque mágico. O mesmo isqueiro vermelho que emerge, heróico, na cena teatral para acabar por constituir um dos destroços do veleiro naufragado, juntamente com outros, orgulhosamente exibidos – uma guitarra, uma caravela em miniatura, frasquinhos vários com poções coloridas, um saco de golf, o protetor solar, a planta de orquídeas muito raras… Vestígios, a memória resgatada dos destroços, temática que se relaciona com um recente trabalho do grupo Panmixia, inserido no festival Manobras no Porto. Este último convidava a entrega de objetos – potenciais destroços – por parte dos portuenses, para depois serem reunidos numa barca da memória de 2012, um gigantesco arquivo privado afundado no rio. Em ambos encontramos a inversão da escala para os objetos quotidianos, restos do passado que encerram testemunhos misteriosos e contam vidas.

Na viagem íntima encaixa-se a interpretação individual da deriva pelos atores. Cada um vai encenando a sua retirada, mantendo o entrosamento maluco e fragmentado da narração e suas camadas de sentido. Alex, como refere no apontamento biográfico da folha de sala, “sente enjoo no mar.” Talvez seja por isso que a sua expedição marítima se manifestou numa experiência solidificada, entre pinguins e cubos de gelo que foram dissolvendo também do cenário. Já Stella é obrigada pela restante tripulação a saltar fora do navio (por ter rompido com a fantasia); Paula e Felipe, sozinhos numa ilha deserta, discutem seu relacionamento (ela quer sair, ele quer ficar) e Tiago desiste, porque está farto que as suas ideias para o espetáculo saiam, constantemente, frustradas.

A viagem teatral não podia deixar de estar presente, tendo em conta o recente trabalho das duas companhias. Nitidamente se faz o habitual jogo metateatral e a estratégia da auto-reflexividade na estrutura ficcional, brincando com as incongruências dessa estrutura: os personagens adquirem os nomes dos atores, a quarta parede é transposta, confundem-se o espaço-tempo narrativo e o espaço-tempo real.

No interior da tradicional sala de teatro foi possível criar um ambiente intimista, até porque fomos muito poucos espetadores naquela quarta feira às 19 horas. Os atores saltam fora do barco do palco várias vezes, para nos confrontarem com os 125 cm de espaço que separam o palco da primeira fila de espetadores, o triângulo das Bermudas onde o barco racha, o Maria Matos quebra, e todos nós somos engolidos. A sua teimosia ao cruzar esse limite, aparentemente intransponível, significa que a desobediência é, em certa medida, um gesto político, assim como a resistência de lutar contra aquela corrente de mar imaginário.

A história de um naufrágio e outras fábulas incompletas compõem o trajeto desorientado mas cheio de humor do espetáculo. Essa desorientação traduz a permanente viagem existencial do indivíduo contemporâneo no centro de um mundo muito acelerado, demasiado escuro, igualmente à deriva. Como Renato que, sobre os seus patins, repete, em crescente velocidade, o seu trajeto encruzilhado no palco até se desequilibrar, até cair.

Finalmente vencidos pelas intempéries, o que estes heróis tragico-cómicos querem mostrar é a imprecisão do caminho, quer na representação performativa, quer na vida – “parto sem saber nadar mas tento fingir que sei” – fazem a apologia da deriva, subvertem a linguagem catastrófica e, no final, ironizam a música de despedida.

Os atores, personagens de si próprios, cúmplices nas relações que foram descobrindo criativamente uns com os outros, são notáveis no equilíbrio e coesão que emprestam ao grupo, embora se sinta que este espetáculo careça um amadurecimento, um crescimento nos palcos.

A ideia que vem dos navegadores romanos de Pompeu, passando para criação de Fernando Pessoa, até à viagem íntíma do fado brasileiro “Os Argonautas” de Caetano Veloso (que na mesma época cantava “É proibido proibir”), mantém-se: navegar é preciso, viver não é preciso. Para o bem e para o mal, é este encanto natural que atravessa todo o espetáculo a bordo do Mundo Maravilha, o de continuar a sonhar mais do que concretizar, de sugerir mais do que aprofundar, de seguir mais do que chegar. E repete-se: Navegar é preciso.

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