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No ínicio, no início / Abriu-se o pano [Celebração]

12 Nov 2012

Culturgest durante a Celebração. fot. Rita Barbosa.

De 1 a 4 de Novembro acompanhámos a Celebração. Quase todos os textos produzidos durante estes quatro dias – pela Ana Dinger, Marta Brito e Rita Xavier Monteiro – foram publicados num pequeno livro, a Auto-Publicação. Se a tecnologia tivesse respondido às ambições de todos, este livro teria sido distribuído logo ali, a quente, uma hora depois do último espectáculo ter acabado. Como não respondeu, tivemos de esperar mais um pouco. Publicamos agora neste blogue dois textos escritos pela Marta a propósito do contexto do qual emergiu este evento. O “No início, no início” foi lido na abertura de Celebração, antes mesmo do Coro da Achada ter cantado nas escadarias da Culturgest. “Abriu-se o pano” foi escrito para a Auto-Publicação.

NO INÍCIO, NO INÍCIO.

Bom, a Lígia conhece a Andresa desde uma pré-vida e depois já nestes infernos quotidianos inventaram uma máquina agradável. A Andresa na verdade não se lembra da primeira vez que falou com o Nuno Lucas, mas diz que ele é o centro do mundo (certamente foi no Majong, antigo centro do mundo) mas depois partilharam a Estrada Nacional 2 e tornaram-se La Famiglia pela Lígia. A Rita Natálio já saiu à noite com toda gente e até entrevistou a Lígia e a Andresa.

A Márcia foi com a Andresa, à IURD. Trabalho de campo no dia da corrente do descarrego e acharam tudo muito esquisito com gajos agarrados às cabeças delas, a exorcizarem-nas freneticamente e elas tiveram que se aguentar aos movimentos deles para não partirem o pescoço nem serem linchadas.

O António Pedro e a Vânia só têm uma amizade desde 2012 mas já sabem que vai ser para durar.

A certa altura o Gui, teve um sonho erótico com a Andresa, e com a Lígia e com o Lucas, que se mete em tudo. Já tinha conhecido melhor a Lígia, quando a raptou para uma residência em Montemor o Novo, em que passaram três semanas a bulir e a curtir no Espaço do Tempo. Foi também aí, uns anos antes, que a Andresa e a Lígia deram de caras com o Vítor e com a Sofia, que além de namorarem estavam a preparar uma peça juntos. A Rita até trabalhou com os dois Antónios nus e o Nuno guarda, lá para ele, a Marianne a saltar no trampolim com os seios à mostra e a fazer uuuuuuhhhhuuuuu – uma pessoa fora de série.

Alguns cozinham ideias no DemiMonde, ali ao Cais do Sodré. Mas antes disso iam-se cruzando em Driftings no Negócio, a Vânia estava lá a contracenar com o Ursinho durante o casamento do António. Aí dava-se a mão a estranhos e estrangeiros. A mão da Andresa passou pela do Peter. Esse o Gui conheceu-o na Áustria, passaram uma semana a beber caipirinhas no Porto e muitos espectáculos aconteceram depois.

O Herman é o amigo imaginário do Nuno Lucas, a projecção do Nuno em grande. O Gui também já o tinha visto e também se apaixonou por ele – um caso de alucinação colectiva? A verdade é que estes 3 – Hermann, Gui, Lucas, mais o Pieter formaram uma Comunidade.

O Vítor e a Sofia são quase um porque partilham trabalho e namoro e e-mail. Gui viu a Teresa e lembra-se dos seus olhos super expressivos: “esta gaja é um power do caraças”.

A Lígia mal conheceu o António Pedro em Paris dormiu logo com ele na mesma casa. A Márcia até já viveu com o Nuno, mas só se lembra dele no quarto a tocar guitarra. O Nuno viu-a a dançar no Júlio de Matos muito antes disso e ficou mesmo impressionado.

O António Pedro encontrou o António Júlio no Curso do Fórum Dança no Porto, têm mil e uma histórias pelo meio – Mistério ou censura! Voltaram a encontrar-se subrepticiamente, debaixo do palco do São Luiz, nus a dar massagens e a passar plumas pelo público, entre outras coisas. A Márcia também já andou toda nua, em 2003 na altura do Existência.

A Vânia conheceu a Lígia em Berlim, onde desabafavam horas a fio sobre as vidas frias da Europa Central mas toda a gente já tinha ouvido falar Vânia, por causa da Meg Stuart. Os seus primeiros encontros, seguindo a lista dos nomes em ordem alfabética, foram todos em noites loucas. A partir do E de Elizabete, de certa forma, já navegam em mares mais calmos.

A Sofia e a Andresa já se conhecem desde antes da Sofia ir para a Suíça, tinha vindo da Holanda, por isso era mesmo pequenina. Foi há 10 anos e faziam ballet juntas. E a Teresa e a Sofia conhecem-se do Conservatório, ainda mais pequeninas, com trancinhas, e a crescer.

O Cláudio, segundo a Vânia, conheceu-a em Montreal, numa noite inesquecível em que todos os mini-bares foram esvaziados. Há os arrabaldes de Paris e o evento da sande com uma fatia de queijo ou fiambre ressequidos que muitos tiveram que comer: a Márcia, o Lucas, a Lígia, a Elizabete, a Francisca, a Teresa e até o António Pedro foi assistir.

Os sítios e as circunstâncias foram muitas: manifestações, lutas, conversas sobre precariedades, camarins, aeroportos, foyers, cigarros nas varandas durante o Alkantara, pendurados em andaimes em cima do palco, parras a tapar as partes do Nuno e da Sofia (o Adão e a Eva) e ainda a Marianne e a Rita em fatos de espelhos a dançar uns swings, mesmo antes de se porem a investigar o canibalismo urbano para um guia do Porto.

A primeira vez que o Gui viu o Nuno Lucas foi em 2001, no Fórum Dança no seu primeiro workshop de contacto improvisação. Ele estava para lá a mexer-se descontraidamente. Depois os olhos do Gui só voltaram a tocar o corpo do Nuno na ESAD das Caldas num dia em que houve uma ameaça de bomba. O Nuno lembra-se dele porque era arrojado no look, uma espécie de alien. Isso tornava-o muito especial, ficava logo na retina.

Ainda em 2001 foi a Capital Europeia da Cultura no Porto que juntou a Sofia e o Vítor. Tinham um amigo em comum mas começaram por não se falar. Quando o Vítor ainda estava a dar aulas de Educação Física em Espinho convidou a Sofia para jantar lá em casa. Depois ele veio para Lisboa e começaram “formalmente” a relação, viveram juntos em Genebra e depois vieram. Passou a estar tudo ligado: a vida, o trabalho, as pessoas, as relações com outras pessoas porque já há muito tempo de partilha e assim…

A Teresa lembra-se da Francisca na Escola Superior de Dança. Mas não foi aí que falaram. Voltaram a encontrar-se no Fórum Dança, não eram as melhores amigas, mas fisicamente as improvisações funcionavam muito bem e acabaram por fazer um dueto e a partir daí ficaram a trabalhar juntas e a partilhar suspiros.

Poucos conhecem “mesmo” o Calixto mas a história da Márcia e do Calixto já vem de longe. Começou num curso de aéreos no Teatro Rivoli em 2002. O Calixto andava por lá e a Márcia ficou assim a olhar para ele, naquela coisa de empatia com as pessoas, não há assim muitas palavras para explicar isto melhor. Um dia, já mais tarde, ele entrou por um café adentro e disse à Márcia que estava a dar umas aulas de maquinaria de cena e ela “eishhhh” e aproveitou para ficar logo com o número dele. Depois ela ofereceu-se para assistente dele mas ele recusou. E passado uns tempos um novo encontro e a Márcia pergunta-lhe: “se eu precisar de me sentar tu constróis-me uma cadeira?” E foi assim que começou.

A Rita já dirigiu a Elizabete Francisca e misturou-a com o Caetano Veloso, o Fidel Castro e a Marina

Abramovic. O Cláudio, a Lígia e a Andresa fizeram juntos uma Gata Borralheira. E no grupo dos Observadores do Alkantara a Rita conheceu a Francisca e a Lígia onde podiam dizer mal… e bem e mal de espectáculos e desabafar.

A Márcia tinha medo do António Pedro mas o António Pedro nunca teve medo da Márcia. Ele era um dos terríveis, naquele trabalho do João Fiadeiro, onde estiveram juntos. Mas agora, depois de anos, o homem tornou-se um doce. Enfim, um rapaz espectacular! Depois desapareceram da vida um do outro e e uns anos depois voltaram a entrar na vida um do outro.

“Foi no workshop do Fiadeiro, estávamos os dois na RE.AL, estavas na porta do Fórum Dança, ou no Cem, já não me lembro. E depois voltei a encontrar-te na RE.AL ou tu ainda estavas no Cem? Tu andavas a fazer o danceWeb e encontramo-nos em Bruxelas. Ah! Eu vi-a pela primeira vez quando estava a ensaiar na casa da Vera Mantero. Ou na Plataforma do Espaço do Tempo? Já não me lembro. Foi em Montemor, sim!”

O mais engraçado disto é que não se foram conhecendo por uma ordem crescente ou cronológica ou alfabética, foram-se todos cruzando assim uns com os outros, e uns nos outros e através uns dos outros e de maneiras diferentes. Uns em pequeninos outros maiores conforme os anos 2000 iam começando e já lá vai uma dúzia de anos e muitos projectos…

E há trabalhos que nunca irão estrear mas hoje é dia de festa porque vieram todos pelo próprio pé à Culturgest celebrar a continuação de todos os trabalhos e de todas as noites.

Se é para haver festa encarreguemo-nos de a celebrar.

(ABRE-SE O PANO)

Culturgest durante a Celebração (Pic-Nic). Fot. Rita Barbosa.

ABRIU-SE O PANO.

E começou-se a celebrar. Todos em conjunto: público e não-público, tornado público. Porque a Celebração quando nasce é para todos não é só para alguns, como às vezes querem fazer crer. Celebrar não é só festejar assim no vazio de um temperamento do momento, pelo contrário, é também crescer e fazer-se ver. Pode celebrar-se a luta, aliás, sempre se disse que o que é bom é para se ver. A criação em Portugal está em risco, a cultura está em risco e quando começou esta Celebração sabíamos disto mas batemos o pé e celebramos que haja quem bata o pé.

A Celebração furou os esquemas a que nos temos vindo a habituar. Programou-se, organizou-se e neste momento tão negro do nosso país trouxe uma esperança: há quem queira continuar a trabalhar e a partilhar o seu trabalho com o público, mesmo que tudo à volta tente impedir. No segundo dia a Celebração foi parcialmente interrompida por uma greve dos trabalhadores da Caixa Geral de Depósitos — é o ar dos tempos e a luta dos trabalhadores, apesar de ter como consequência o cancelamento de dois espectáculos, articula-se com a Celebração. Arranjou-se uma oportunidade para, apesar da greve (e com ela), fazer o Cabaret Curto e Grosso, que convidava artistas de todo o país e de todos os contextos mostrarem pequenas performances de 5 minutos.

Foi um encontro marcado em Lisboa de muitos, iguais a tantos, que são obrigados a viajar e a sair para fazer o seu trabalho. Nestes quatro dias juntaram-se todos aqui e fizeram da Culturgest o centro do mundo e o centro da festa. Que não se tenha medo de partilhar a festa, porque a luta também é festa. E é luta porque decidiram juntar-se por uma causa, partilhar uma ambição, um direito, que o estado das coisas e a sempre falada crise económica, fez adiar e tornar-se um sonho que, à medida que o tempo passa, se vai tornando um pesadelo.

O que assistimos durante estes quatro dias não foi só uma mostra. Ao ter sido desenhada por artistas e performers foi um espaço que se abriu para criar ideias, gestos e novos espaços onde parecia não haver nenhum.

Ver a Culturgest cheia de panos, uma bola de espelho, mesas e cadeiras, relva falsa e pessoas, principalmente o foyer da Culturgest cheio de gente que não ia nem vinha de nenhum espectáculo estava ali só para ficar, só para comer, só para fazer perguntas, só para afiar conversas.

Poucas vezes se vira esta frescura e sinceridade no meio daquele chão e destes dias tão cinzentos.

Culturgest durante a Celebração (Pic-Nic). Fot. Rita Barbosa.

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