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I´m alive only by accident [Senti um vazio]

12 Nov 2012

Senti um vazio, de Lucy Kirkwood, enc. Ricardo Correia, Casa da Esquina, 2012 (Cláudia Carvalho), fot. Filipa Alves.

Senti um vazio, de Lucy Kirkwood. Encenação: Ricardo Correia. Interpretação: Cláudia Carvalho e Adiana Silva. Casa da Esquina (Coimbra), 24 de Outubro de 2012.

Partiram uma garrafa e penetraram-na com esse objecto de vidro irregular. Rasgaram-na, roubando-lhe a possibilidade de ter filhos, feriram-na até ao ponto em que o corpo não sara e as marcas de tudo o que lhe foi subtraído, visíveis e invisíveis, se tornam indeléveis.

Esta podia ser parte da história de Dijana (Senti um vazio), ou Lilja (Lilja 4-Ever, de Lukas Moodysson, 2002) ou Sónia (Noite Escura, de João Canijo, 2004 e coincidentemente, personagem homónima em Transe, de Teresa Villaverde, 2006). Podia ser mas não é, ainda que estas personagens tenham passados ou futuros pontuados por estórias igualmente tenebrosas.

Este início, porém, não é ficção. Nem sequer ficção construída a partir de pedaços verídicos de biografias de mulheres traficadas, como o foi Senti um vazio. Este início é factual, não simulação.

Em 1999, a artista sueca Ann-Sofi Siden deslocou-se por longos períodos à localidade fronteiriça de Dubi, onde desenvolveu um trabalho de recolha documental. Entre Alemanha e República Checa, atravessada pela estrada que une Dresden a Praga, Dubi é um foco de prostituição. Ann-Sofi Siden entrevistou prostitutas, proxenetas, clientes e polícia, reuniu um conjunto de fotografias e vídeos e produziu um diário escrito com os seus relatos ‘de campo’. Warte Mal! (Hey Wait!) é o título que circunscreve a instalação que a artista faz deste material em contextos expositivos como a Hayward Gallery (2002) ou o Moderna Museet de Estocolmo (2004), entre muitos outros.

Lucy Kirkwood, a autora de I felt empty when the heart went but it´s alright now – título original de Senti um vazio –, demorou dois anos a coligir testemunhos de mulheres retidas em centros de detenção ou acolhimento, na sequência de se verem enredadas na trama do tráfico internacional. Previamente levada à cena pela companhia de teatro Clean Break num armazém intervencionado em Londres, a peça foi premiada com o John Whiting Award em 2010. Fundada, em 1979, por duas mulheres que passaram pelo sistema prisional, Clean Break é uma companhia que investe em produções cujas temáticas relacionam crime (e castigo) e o género feminino, assim como em formação especializada e apoio a grupos específicos (como mulheres em reabilitação).

No trabalho de Ann-Sofi Siden, ouvimos os depoimentos dos actores sociais envolvidos, vemos fixados momentos das suas vivências. E embora enquadrados, mediados, com todas as vicissitudes da interferência do olhar externo, materializado pelo aparato físico de um dispositivo fílmico ou fotográfico, são aqueles corpos que sofrem, que são manietados, que suportam, que infligem, que exercem poder, que contam, que escondem, que escolhem. É (especificamente) nos corpos daquelas mulheres que se inscrevem as histórias, são esses corpos que as contêm, que se tornam delas índices. Tem de existir uma espécie de verdade transportada por aquelas rugas, aquelas manchas, aquelas cicatrizes, aquela maquilhagem barata, aqueles olhares deslocados, aquele humor incomodativo, aquele tremor da mão que segura o cigarro, aquele fumar compulsivo, etc., etc., etc. Todas aquelas coisas que não são postiças, que não são próteses, que não são adereços.

Mas no trabalho de Kirkwood, inevitavelmente, assistimos à invenção radical de uma personagem. Apresentada através de um trajecto pelas divisões da Casa da Esquina, tal como havia sido no armazém londrino oportunamente compartimentado, a narração de Dijina obriga-nos, com os avanços, recuos e elipses, a um deslocamento no espaço e no tempo. Sozinha com um colchão e uma mala, enceta um solilóquio auto-iludido: as contas que aponta na parede indicam-lhe que só precisa de satisfazer mais um cliente para angariar a quantia necessária que a libertará daquela situação. No corredor encontramo-la no centro de detenções, único excerto em que contracena com outra personagem, de vida tão martirizada como a sua. Numa outra divisão, somos transportados para a discoteca em que Dijina, ainda cheia de sonhos e projectos, conhece aquele que os vai destruir. Finalmente, num outro espaço da casa e da história, o início da trajectória descendente: o dia em que simultaneamente lhe matam o/a filho/a que carrega e os planos que acalenta para o futuro.

Pode ser uma personagem sólida, complexa, densa que se vai compondo diante de nós mas continua a ser uma personagem fictícia. (Perdoe-se o eventual pleonasmo, considera-se o desdobramento de personagens que cada indivíduo pode comportar sem que resulte de fingimento.) Como compete a ficção com o rasto da realidade? Pode alguma vez a inexorável materialidade das coisas, a acção simulada por um corpo presente, a artificialidade de uma construção, diante de nós, forjar essa veracidade dos corpos marcados?

Diferentes meios activam a imaginação de formas distintas. O cinema, nos exemplos referidos, parece particularmente propício a uma suspensão da descrença que o teatro, no seu imediatismo, dificulta. Principalmente tratando-se de um teatro que trabalha a verosimilhança. Por outro lado, o estar à altura de uma temática desta complexidade pode residir no diferencial que separa o verídico do documental (apesar de todas as possíveis mediações) do baseado-no-verídico da ficção. Evitando problematizar a possível transformação em mercadoria de um ‘objecto’ artístico que se debruça sobre a mercantilização de seres humanos, releva-se o potencial de desvelamento das instalações de Ann-Sofi Siden. E, independentemente de qualquer aporia, um trabalho que aborde uma determinada temática contribui para que esta transite de um espaço de sombra para um espaço de visibilidade.

As histórias podem sair da sombra mas a sombra nunca sairá das histórias. Muitas destas mulheres escolhem a morte como alternativa à continuidade do suplício ou à continuidade após o suplício. Estranha-se que o título (original) da peça seja I felt empty when the heart went but it´s alright now, mesmo conhecendo a probabilidade de provir, mais ou menos aproximadamente, de um dos testemunhos recolhidos por Lucy Kirkwood. Fica a intuição da presença persistente, ainda que espectral, desse vazio sentido. Pode alguém recuperar, depois de (sobre)viver (a) tamanha monstruosidade? Ecoam frases de Sylvia Plath, ainda que atormentada por razões de outra natureza: “I do not want much of a present, anyway, this year. / After all I am alive only by accident.”

Há uma casa numa esquina em Coimbra onde coisas acontecem. Exposições de artes visuais, cursos de pintura, desenho, figurinos ou costura, residências artísticas e apresentações de artes performativas, para elencar algumas. Uma programação improvisada consoante as oportunidades e parcerias que emergem neste clima inóspito que vivemos. Foi assim, a partir de uma dessas parcerias que não se efectivou, com o Observatório do Tráfico de Seres Humanos, que surgiu a decisão de encenar a peça Senti um Vazio, em cena até 18 de Novembro.

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