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Uma nota vinda do Porto (S. Bento)

11 Nov 2012

Porto S. Bento, enc. Nuno Cardoso, Ao Cabo Teatro / Manobras no Porto / TNSJ, 2012, fot. João Tuna.

Participei no processo criativo de Porto S.Bento: um projeto formado por um grupo heterogéneo, construído a partir de 17 histórias muito diferentes que cada um dos participantes quis oferecer à cidade. São parcelas de identidades, embora não sejam retratos. São relatos de desejos e frustrações, lutas diárias e testemunhos de vida, ora escondidos pelas personas sociais, ora transfigurados pela narrativa teatral. A estação de S.Bento, no espaço de errância do não-lugar da estação de metro, e no compasso de tempo de espera que é o ter de ir de um lugar para o outro, compõe-se de histórias saturadas de verdade, cruzadas numa travessia emocional.

Da intensidade física e psicológica dos ensaios, guardo o cuidado e a agilidade com que se geriam disponibilidades e afetos e a dedicação que cada um dos atores e dos não-atores foi depositando no trabalho. Criou-se um espetáculo com algumas debilidades mas que exibe, orgulhoso, uma mensagem comovente e bela, como só as coisas simples e desempoeiradas sabem ser. O grupo integrou o Manobras no Porto, realizando performances no interior da estação, e estreou no passado mês no TeCA, circulando agora um pouco por todo o país. Num país estrangulado pela inércia do “mais-vale-não-fazer-nada” e perante uma crise que parece atacar (quase) tudo e todos, Porto S. Bento é, para mim, um exemplo de como é possível cativar novos públicos para as salas de teatro, neste caso, convocando uma amostra da comunidade para a criação coletiva.

Partindo do princípio de que todos somos criativos e, sobretudo, de que todos somos dotados de um juízo estético, importa perceber como colmatar este desacerto entre as obras performativas contemporâneas e o público (legitimadores e testemunhas do acontecimento). Sabemos que a quantidade de público contabilizado nos locais de apresentação não equivale à “estimativa” da qualidade desse espetáculo. Por outro lado, mantém-se essa espécie de culpa generalizada, uma vez que os acontecimentos contemporâneos não são verdadeiramente públicos, tal como se desejaria, antes reservados a uma elite. É urgente e necessária a reavaliação das condições para uma educação estética e das estratégias de formação de públicos. E haveria todo um mundo a dizer e a explorar sobre este tema – a aproximar o fosso que ainda existe entre a academia, a prática artística e a sociedade.

De que forma se pode chegar a públicos mais latos, sem passar pela dependência da publicidade? Como promover a opinião pública, combatendo simultaneamente a “banalidade” e o “mau gosto”? Se a sensibilidade estética é da ordem do emocional, como é que ela pode ser educada, com tudo o que isso implica de metódico, progressivo, didático? Como cumprir o desejo de Schiller em que a arte surge como instrumento para um nobre aperfeiçoamento da nossa humanidade, na sua dimensão social, política e ética?

Porto S. Bento. Encenação: Nuno Cardoso. Assistência de encenação e movimento: Victor Hugo Pontes. Cenografia: F. Ribeiro. Desenho de luz: José Álvaro Correia. Música original: Rui Lima, Sérgio Martins. Interpretação: Daniel Pinto, João Melo, Mafalda Deville e Alexandra Calado, Amélia Pereira, Ana Sousa, Catarina Pontes, Celeste Fagundes, Eurico Santos, Guilherme Castro, Hélio Pereira, Hugo Olim, Jaime Ribeiro, Lurdes Fernandes, Pedro Quiroga, Sandra Alberto, Zulmiro Santos. Coprodução: ao Cabo Teatro, Manobras no Porto, TNSJ. Colaboração: Companhia Instável.

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