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Mais Conversas: Jelena Novak com Miguel Castro Caldas

6 Nov 2012

Bodas de Fígaro: uma tradução, de Miguel Castro Caldas, enc. Bruno Bravo, Primeiros Sintomas / Maria Matos Teatro Municipal.

Conversa entre Jelena Novak e Miguel Castro Caldas, autor do texto Bodas de Fígaro: uma tradução, encenado por Bruno Bravo e interpretado por Ana Brandão, António Mortágua, David Almeida, Dinis Gomes, Inês Galvão, Inês Pereira, Jan Gomes, Ricardo Neves-Neves, Sandra Faleiro, Sofia Vitória. Uma Co-produção Primeiros Sintomas e Maria Matos Teatro Municipal. O espectáculo esteve em cena de 6 a 18 de Outubro de 2012.

Jelena Novak: A relação entre o que ouvimos e o que vemos no palco da ópera convencional é intrigante: os personagens não estão conscientes de que o que dizem, é dito a cantar. Parece que o Miguel e Bruno Bravo jogavam com este paradoxo em Bodas. Usam o visual-gestual “réplica” da ópera da Mozart, retirando a música, mas mantendo o ritmo de pronúncia das palavras cantadas,  os gestos e aparência do encenação convencional da ópera. Depois de ver Bodas, suponho que consideram a encenação convencional de ópera problemática. Qual é a vossa relação com a ópera? Como é que a ópera se tornou num material para o vosso trabalho?

Miguel Castro Caldas: A questão é essa: os actores têm consciência que não estão a cantar? Não cantam porque não sabem ou porque não querem? O meu interesse foi entrar num domínio em que o elemento do poder fosse evidente. Na ópera, é claro que esse elemento de poder é a música. E se falamos em Mozart, mais ainda. Identificado o elemento de poder, o elemento que faz as ligações – é retirá-lo. Ver o que fica e como se liga com isso. Agora, a minha questão é: o que é esse poder que acabámos de retirar? É um poder extrínseco ou intrínseco? É a música o poder ao qual nós nos sujeitamos no dia-a-dia (como o governo, por exemplo) que nos foi incutido desde pequenos, ou é o nosso poder como artistas, como músicos, como virtuosos? Que poder é que estamos a subtrair? Esta questão interessa-me muitíssimo, e obviamente que não a tenho resolvida.

JN: Mesmo quando remove o elemento do poder – para usar os seus termos – , neste caso a música, não pode remover os seus efeitos. Não ouvimos nenhuma música em Bodas, mas a maneira como a música estrutura a ópera de Mozart ainda está lá: é no ritmo da fala, na forma e na repetição de frases, nos gestos dos actores. Por que escolheu esta ópera em particular? Porquê Mozart? Poderá explicar qual a sua relacão com a peça original de Beaumarchais? E com o libreto de Da Ponte para a ópera de Mozart? Sabe-se que Da Ponte fez muitas intervenções na peça de Beaumarchais …

MCC: Pois, o ritmo, as repetições do texto que foram feitas em função da música, aparecem agora sem ela. O texto fica em primeiro plano. Parece martelado. Escolhi As Bodas de Fígaro por ser uma ópera que desafia os lugares do poder, e as identidades. Todos são obrigados a trocar de lugar, nesta ópera. O querubino, que é uma actriz, disfarça-se de mulher: a condessa de criada, a criada de condessa. A Marcelina é a credora que afinal é a mãe. Todos se enganam e por momentos duvidam de quem são. E depois porque foi uma peça de teatro antes de ser ópera. Eu queria voltar ao teatro sem andar para trás, sem regressar ao Beaumarchais (apesar de ter ido buscar coisas a ele). É um teatro que avança. A ópera perde a música, o teatro perde as portas, é um teatro que parte das transformações que foi sofrendo. É um teatro feito a partir do que resta. E Mozart porque é um sacrilégio negá-lo. É o contrário de Forever Mozart. Será Never Mozart, ou No More Mozart. Eu adoro Mozart.

JN: Mozart parece sempre ser uma inspiração… por exemplo, Michael Nyman tem uma peça titulada Não Mozart, e a primeira colaboração de Peter Greenaway com Louis Andriessen também problematiza Mozart (M is for Man, Music, Mozart).

MCC: Pois, e o Forever Mozart, do Godard.

JN: Quando diz: “o teatro perde as portas” – a que se refere exatamente?

MCC: Quando digo o teatro perde as portas é porque a peça de teatro Bodas de Fígaro, de Beaumarchais, é uma comédia francesa, dita comédia-de-portas, que vive do que uns sabem e outros não sabem, o que uns ouvem e outros não ouvem, com as entradas e saídas das personagens pelas portas. Nestas Bodas de Fígaro, a ideia é estar tudo à mostra, não há portas, as personagens estão sempre em cena. Tem que ver também com o que eu considero o mais importante neste projecto: chamo-lhe “tradução”. É uma tradução para a frente. Ao tirares a música, a ópera transforma-se em teatro, mas sem regressar ao Beaumarchais, não se trata de um regresso. Trata-se de um passo em frente nas sucessivas traduções. É um teatro que vem depois da ópera cair.

JN: O estatuto e a função da ópera convencional ainda hoje aparece frequentemente associado a elites sociais. Este assunto foi considerado no contexto de Bodas?

MCC: As “Bodas” foram desde a sua origem uma provocação ao poder. Nunca na ópera se tinha desafiado assim a figura do soberano. E essa provocação só faz sentido se for feita no palácio. No nosso caso, o palácio é um teatro municipal, e o soberano, quando muito será o Estado, na sua figura de governo. Como se a música fosse o que nos governa. Se a música não nos governar, como é que se faz? É esta a pergunta. É claro que o desfecho não é o grande final da ópera, no nosso caso não há desfecho, há dúvidas, só, perguntas. Tudo isto só faria sentido no palácio. Seria perfeito no Teatro S. Carlos, mas no Maria Matos também serve. E a elite, se calhar, são os intelectuais e os artistas (intelectuais não sei se os há). É o público que se move de festival em festival, entre o teatro, a dança, o cinema…

JN: Bodas foi muito intrigante para mim, principalmente porque problematiza a ópera. Agora parece-me ainda mais provocante. Por outro lado, tenho algumas dúvidas: será que um público não familiarizado com a ópera poderá aceder a esse grau de provocação? Ou, até que ponto têm leitura estas intenções de questionar o poder político?

MCC: Pois, isso não sei. A única maneira de fazer arte é respeitar a nossa ignorância sobre o público. Não sei o que o público sabe. Só sei que o público é inteligente.

JN: O que vai ocupar a seguir?

MCC: A seguir vou ser/estar ocupado pelo Ibsen.

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