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Três viagens e um pára-quedas [Ele Precisa Começar + 2histórias]

24 Out 2012

2histórias (Felipe Rocha). Foto Renato Mangolin.

Ele Precisa Começar, de Felipe Rocha. Interpretação: Felipe Rocha, direção: Alex Cassal e Felipe Rocha, assistência de direção: Stella Rabello, direção de movimento: Dani Lima, iluminação: Tomás Ribas, cenário: Aurora dos Campos, banda sonora: Felipe Rocha. Foguetes Maravilha, Espaço Alkantara, 26 de Setembro de 2012.

2histórias. Concepção: Alex Cassal e Felipe Rocha. 1. Uma História Nefanda? Texto de “Um conto nefando?” de Sérgio Sant’anna. Direção e interpretação: Felipe Rocha, direção de movimento: Alice Ripoll. 2. Alcubierre. Texto e interpretação: Alex Cassal, direção: Clara Kutner, assistência no processo: Marina Provenzano. Foguetes Maravilha, Espaço Alkantara, 26 de Setembro de 2012.

Tudo o que não invento é falso.

Manoel de Barros

 Viajar pela imaginação é viajar sem limite. Está ao alcance de todos e não custa dinheiro. Esta pode ser a posição zero dos brasileiros Foguetes Maravilha quando iniciam o caminho pelo microcosmos inventado do teatro. Os três monólogos que trazem ao Espaço Alkantara, ainda que independentes entre si, mostram a vontade de partilhar a experiência da teatralidade como um todo, testando os instrumentos da invenção, da apresentação e da recepção que este objeto artístico implica.

A companhia formada em 2008 por Alex Cassal e Felipe Rocha pretende assim experimentar a estrutura do teatro e as dinâmicas relacionais que a compõem, pela mão de encenações que “borram os limites entre palco, plateia, ficção e realidade, e empilham camadas de significados, linguagens e procedimentos artísticos”. É através de uma composição cenográfica despojada, sem recursos técnicos extraordinários e facilmente adaptável aos espaços, que os criadores convocam o seu público para o exercício da fantasia, seja na sua dimensão lúdica, seja na suposição de cenários outros, no sentido de um gestante e necessário reposicionamento dos papéis que desempenhamos no mundo. Brincar com os limites do teatro é também a sua fórmula para tomar consciência da constante teatralidade das atuações e intervenções na realidade.

Ele precisa começar anuncia a urgência de iniciar uma ação genuína, ponto de partida do dramaturgo, ator e também músico Felipe Rocha: um monólogo que é como um sonhar acordado que ali se germina, descrito em imagens adjetivadas que se manifestam no corpo, desconcertando a convencional tríade de intervenientes num espetáculo, autor/ator/espetador.

2histórias surge como Cartão de Visita (2009) inserido no projeto Estúdios de Tiago Rodrigues quando, a convite da companhia portuguesa Mundo Perfeito, sete atores (portugueses e brasileiros) prepararam sete solos e, no lugar da desativada piscina municipal do Areeiro em Lisboa, se apresentaram contando uma história.

Foi nesta ocasião que Alex Cassal e Felipe Rocha decidiram lançar mãos à obra como dupla, percebendo os pontos comuns, não só na linguagem teatral, como na abordagem da juventude e da família feita nos dois depoimentos que comungam um certo grau de afastamento à ordem socialmente estabelecida.

1. Um conto nefando? descreve um episódio negro da realidade humana – o ato de cumprir o incesto – forçando-nos a olhar a violência tantas vezes velada pelo curso aparente dos dias.

2. Alcubierre abre o álbum biográfico de Alex Cassal, revivendo os seus 12 anos, e exibe a memória resgatada dos objetos cenográficos encaixotados.

No ano do  Brasil em Portugal, é com a doçura cantada do sotaque que estas narrações preenchem as três longas horas do espetáculo.

Ele precisa começar

Felipe Rocha teve vontade de dizer alguma coisa. O que nos traz como assunto é esse simples desejo de começar a criar alguma coisa. Inicia-se o monólogo a partir da descrição da situação do dramaturgo que representa toda a cena: a de 21 de Outubro do ano de 2007, às 12h37, em Paris, está com 35 anos e devia começar a escrever. Ele está sozinho no quarto de hotel, chávena de café, e sentado diante do laptop, o dia de folga de espetáculo, o dia todo para escrever…

Esta história é sobre a viagem mental do criador narrada na terceira pessoa, Ele (o dramaturgo), e onde também Nós (público) participamos. Uma ficção atualizada em cena que turbina as relações do observador e do observado e, como no teatro-vida artaudiano, ensaia formas de estar consigo próprio e estar com o outro, o estar aqui e agora.

Partindo da angústia do escritor diante da folha em branco, Ele resolve, num processo de metalinguagem, des-cobrir o exercício de escrita e des-construir o tradicional trio do jogo teatral: quem cria / quem conta / quem ouve confundem-se a cada momento. Felipe mostra todo o processo da criação por meios muito simples, manipulando também o som e a luz. Brinca com os objetos como se fossem outros, e brinca com as ideias como quem quer apelar a uma imaginação mais depurada – tornando-a mais ingénua, mais curiosa, quase infantil – ao mesmo tempo que, entre abertas gargalhadas, nos leva a questionar os papéis que representamos no mundo. E através da luz do candeeiro da escrivaninha do escritor começamos a ver como as sombras dos objetos cenográficos se agigantam e ganham vida. São sombras mágicas enquanto vão sendo refletidas naquelas paredes tão sujas, tão descascadas quanto poéticas do Espaço Alkantara.

Assim se desenrola a reflexão sobre o código teatral, em caleidoscópica aventura, que percorre, em jeito de realidade virtual, vários géneros, desde o thriller – monstros verdes podem entrar porta dentro e inundar o quarto de hotel de lodo; a ação e o western – uma perseguição de fazer de conta pela estrada colorida do cortinado, e quase sentimos a oscilação do carro manobrado desde o sofá; a fantasia de uma cadeira levitante que não sai do sítio; o musical – no cimo da montanha um épico concerto rock, e todos podemos gritar como se fosse mesmo verdade… E, novamente, a escrita, o laptop que apita, reage, resmunga e impõe sempre as suas condições. Existe, ainda, um lugar cativo reservado ao romance: com Fátima, a empregada do hotel do escritor, voluntariamente substituída por uma espetadora presente, que acompanha o protagonista numa leve descida à realidade, suspendida pela voz doce do ator que entretanto canta, apoiada pelo tal pára-quedas que faz, sem grande tombo, aterrar na realidade.

Foram momentos de surpreendente beleza que compuseram o enredo, um trabalho de entrega e dedicação ao espetador que foi conduzido a um ritmo certeiro mas alucinante. Do turbilhão de ideias que se confundem na mente dos homens raras são as que fluem e, com efeito, se concretizam. Por isso, Ele precisa começar alerta também para a urgência de cada um encetar o seu projeto e perseguir o seu sonho; de dar o salto (com ou sem pára-quedas).

2histórias

Uma História Nefanda?

No início da segunda parte, Felipe vai compondo a cena escrevendo com fita-crepe os pronomes Ele e Ela sobre o fundo escuro, assegurando-se que todos encontram novo lugar para sentar e que não falta ninguém, fecha a porta, e só então inicia. O título sugere a interrogação da natureza nefanda da história. Entre todas as histórias possíveis, surge uma cruel, pertencente ao mundo real pelo que deve ser contada: um adolescente viciado em drogas possui sexualmente a sua mãe. Felipe descreve-a com uma precisão cirúrgica e deixa apenas operar a brutalidade das palavras, engolindo intensidades dramáticas acessórias. No segundo momento, descreve-a pelo gesto e exibe aquilo que não pode ser dito de outra maneira senão pela relação com a pele. Um poema sobre a escrita, o corpo e o erotismo que ainda faz lembrar Livro de Cabeceira, o filme de Peter Greenaway.

Alcubierre

A anamnese dos 12 anos, criada e interpretada por Alex Cassal, materializa-se nos caixotes de lembranças, nos livros, nos LP’s e nas cicatrizes que anunciam brincadeiras de guerreiros inter-galácticos. É como se abríssemos um gigante baú do seu sótão mágico e espreitássemos lá para dentro, adivinhando cada fragmento de história revelado em cena. A colorida passagem de um rapazinho nerd num determinado espaço-tempo do mundo, um astronauta da vida que sonha viajar mais rápido que a luz.

Ao longo das três histórias, os Foguetes Maravilha foram descobrindo questões que moldam os relacionamentos afetivos, sociais e culturais com inteligência e leveza, submetendo o próprio aparelho teatral, seus mecanismos e engrenagens cénicas, suas imperfeições. Esta metodologia de trabalho retoma a ideia do fingimento tradicional do teatro, ou seja, a representação e o seu espaço ficcional separado de mim (o facto-de-não-ser-eu que está ali). Mas depois distingue-se dela, reconfigura os seus limites, e uma aproximação olhos nos olhos com cada espetador surge na vez da sua dissolução naquela espécie de massa anónima a que chamamos público.

Felipe Rocha e Alex Cassal conquistaram e trouxeram momentos de puro divertimento a par de uma visão arejada sobre as condições do teatro e da realidade atual. Os monólogos resultaram quase em conversas, as histórias transformaram-se em íntimas viagens reconfiguradas à medida dos espetadores. Um encontro único desdobrado em três pedaços de mundo.

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