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Cage como “produto”

23 Out 2012

Muito dentro do espírito de John Cage, a minha própria “chance operation” no que diz respeito à disponibilidade de bilhetes para o 100 CAGE colocou-me numa posição assimétrica em relação a este evento. Para além das partituras de Cage expostas no lobby, apenas me foi possível ouvir peças de outros artistas relativas a Cage: “334-1185921 Possibilidades para 4 altifalantes”, uma instalação de Luis Fernandes, “100*100*100”, uma instalação para 100 auscultadores de Paulo Raposo e “Almost a Song Book” por Joana Sá, Luis José Martins e Jorge Martins. As duas instalações “falavam” acerca do uso da linguagem “cageana”, usando muitas vezes gravações da sua própria voz sedutora. No entanto, as três obras fizeram-me pensar que possivelmente seria mais desafiante comentar Cage sem recorrer ao uso da linguagem “cageana”. A dimensão didática do projeto 100 CAGE é, provavelmente, a mais importante, tendo em conta a significativa presença do público jovem no evento. É uma pena o facto da peça emblemática de Cage – 4’33 – não ter sido abordada, mesmo que apenas por motivos pedagógicos. Curiosamente, o estatuto e a forma deste evento revelam-se mais polémicos do que qualquer um dos programas que incorpora. 100 CAGE é um híbrido entre um “Museu Cage”, um “Simpósio Cage”, um “Festival Cage” e uma “Loja Cage” (vários modelos de T-Shirts com “motivos” de Cage encontravam-se à venda no lobby). Assim, o evento levanta um conjunto de questões sobre como as modalidades concerto, palestra, performance, exposição e museu podem ainda ser postas em causa no contexto de um dos pioneiros da música não-convencional “moderna”.

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5 comentários leave one →
  1. Sílvia Pinto Coelho permalink
    24 Out 2012 4:06

    Olá Jelena,
    Acho pena teres que dizer que te esqueceste de reservar os teus bilhetes com antecedência. Preferia não saber, mas já que o dizes, de certeza que foi por acaso, não terá sido desleixe?
    Em relação ao texto, percebo que queres falar do excessivo uso de Cage como produto para vender pedagogia, é isso? Mas se não viste o programa que querias, ficaste nas montras a ver os “recuerdos”? Podes escrever um artigo só sobre os produtos laterais de um evento, mas acabaste também por assistir a trabalhos do Paulo Raposo, da Joana Sá e de outros. Foram-te indiferentes porque usaram uma linguagem cageana? (O que é uma linguagem “cageana”? podias explicar) Porque ficaram misturados com as T-Shirts? Fico muito triste se assim foi, pois sigo de perto o trabalho destes artistas e custa-me pensar que andem a trabalhar para o boneco, ou para ensinar os jovens o que é a linguagem cageana, mas não é impossível.
    Obrigada pelo texto de qualquer forma
    Sílvia

    • Jelena Novak permalink
      24 Out 2012 17:57

      Hi, Silvia and Francisco. To be more quick I respond in English, hope that is ok.
      In 100 CAGE several programs were performed at the same time so no one could see everything. I take that as the part of ‘the game’. It makes ‘lateral’ views legitimate. Consequently, my text is not as elaborate as it would be if I have seen more events.
      In relation to ‘Cage as product’: I don’t look at it as it is something good or bad. (Mozart is a ‘product’ already for a long time,remember Mozartkugel for instance). That shows how cultural mechanisms work in relation to ‘classical music’ and it is thought-provoking.
      Pedagogical dimension of this kind of retrospective is the positive one, I believe.
      What I miss is the explicit concept of 100 CAGE event that would propose why and how to see/hear/read Cage today (except that it is his centenary).
      Francisco, I agree that the issue of music as language is the complicated one. Still I use the construction ‘musical language’ when I refer to distinctive sets of procedures, expressions and techniques used in music.

  2. Francisco Monteiro permalink
    24 Out 2012 13:13

    Cara Jelena:
    Gostei das suas questões.
    É complicado pensar em merchandising John Cage – se fossem, ao menos, cogumelos. Bem como o formato “concerto” com “obras” de e apropos J. C.; melhor instalação, evento, etc., o que parece que foi realizado; ou então repetir as suas célebres conferências e conferências/concerto – porque não falar duas horas sobre nada?
    “Linguagem cageana”: não sei se ele gostaria muito disso; se reconhecesse alguma tentaria, talvez, desconstrui-la.
    Sabemos ainda quão discutível é dizer que a música é uma linguagem.
    Melhor pensar sobre o Zen.
    Parabéns pelo texto: levanta questões sem cair na ratoeira de dar respostas definitivas; repensar formatos musicais precisa-se.
    Francisco Monteiro

  3. Ana Bigotte Vieira permalink
    30 Out 2012 9:52

    Olá a todos,
    eu também passei esse dia no Teatro Maria Matos e a minha opinião é bastante diferente. Para mim foi uma proposta muito interessante e isso sobretudo pela relação que estabeleceu entre público, músicos e espaços do Maria Matos. A música de John Cage como que nos unia a todos, fazendo-nos reparar no “agora” do estar ali – fosse esse “ali” o corredor do teatro, um camarim, ou o palco utilizado de forma não convencional. Num ritmo lento de fim de semana, o público subiu escadas, desceu escadas, foi aos bastidores, regressou ao palco… constituindo-se neste percurso como companheiro – entre si, entre si e os músicos, entre si e a música que estava por todo o lado, entre si e os sons do teatro naquele dia. A música de Cage transformou-se numa forma de estar, de estar com… o dia, o teatro, a chuva lá fora: e não era isso que (também) se pretendia?

    Eventualmente a minha opinião estará viciada à partida. Fiquei muito contente de ver tantos músicos que admiro (e já não via alguns há tanto tempo!). Fui para lá já com essa expectativa, não me defraudou. Venham mais iniciativas destas!

    • JM Leal Sousa permalink
      10 Nov 2012 13:24

      Afinal não saíste. Ou melhor, saíste mas queres continuar. É assim tão difícil decidir? Ah já percebi, na caixa de comentários é mais fácil.

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