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Da dimensão das coisas e de como uma exposição encolheu

5 Out 2012

Scratching on Things I Could Disavow. Section 139: The Atlas Group (1989-2004)
Media: Mixed Media. © Walid Raad. Courtesy: Galerie Sfeir-Semler (Beirut / Hamburg) / Anthony Reynolds Gallery (London) / Paula Cooper Gallery (New York)

Scratching on things I could disavow
A History of Art in the Arab World
Walid Raad, dOCUMENTA (13), 14 de Setembro 2012

«Ficou pequenina! Encolheu.» A exposição antológica Atlas Group 1989-2004, um projecto de Walid Raad – a mesma que em 2007 pudemos ver em Lisboa, na Culturgest – ficou reduzida a 1/100 do tamanho original. Quem o conta é Walid Raad na dOCUMENTA (13) em Kassel, onde apresenta Scratching on Things I Could Disavow – A History of Art in the Arab World, projecto onde explora a História da Arte no Mundo Árabe por via de peças e de histórias criadas “a partir do seu encontro pessoal com gente, instituições, economias, conceitos e formas” . Uma delas, Section 139: The Atlas Group (1989-2004), a terceira que nos conta, é a história da apresentação em Beirute da exposição antológica do Atlas Group.

Scratching on Things I Could Disavow_Section 139: The Atlas Group (1989-2004). Media: Mixed Media. Year: 2008. © Agostino Oslo. Courtesy: Galerie Sfeir-Semler (Beirut / Hamburg) / Anthony Reynolds Gallery (London) / Paula Cooper Gallery (New York).

Confrontada com a iminência da sua tão adiada apresentação no Líbano, Raad explica, a exposição encolheu por vontade própria, ficando reduzida a uma maquete exemplar, comovente… com todas as peças, todas as obras e todos os textos que pudemos ver em Lisboa, mas em miniatura, do tamanho de um polegar – impossibilitada a leitura dos seus muitos textos e impossibilitado o corpo a corpo com as obras, que chegavam a ocupar paredes inteiras e nos desafiavam também pela escala. No Líbano, o trabalho do Atlas Group ganhou literalmente uma dimensão ‘menor’ e tudo o que dele se pode ver foi esta maquete, o que nos faz pensar como a dimensão das coisas varia consoante os contextos:

– O que pode alguém que já vive fora há muitos anos, como é o caso de Walid Raad, devolver ao seu país como retrato de si mesmo? Que estará esse lugar disposto a aceitar?
– O que permite (ou não) uma sociedade que se diga – e quando? A exposição do Atlas Group aborda a memória recente da Guerra do Líbano. Não tem a memória histórica o “tempo de uma geração”, ou seja 30 anos? Não é este o tempo invocado para se abrirem os arquivos após grandes acontecimentos trágicos? A quem pertence a memória das guerras do Líbano? Quem pode abordar este assunto e para quem, a partir de que lugar, para quê, de que forma, com que dimensão?

O trabalho de Walid Raad, como quem viu a exposição do Atlas Group se recordará, parte frequentemente de uma profunda investigação factual, muitas vezes histórica, que, não se inscrevendo nos habituais circuitos de produção do conhecimento académico, nem por isso é menos fiel à natureza da investigação ou da ‘veracidade’ do que aconteceu. As suas pequenas histórias sobre a guerra do Líbano (Atlas Group), por exemplo, permitem-nos aceder a uma espécie de narrativa anedótica e visual/sensorial do indizível mas que urge ser dito (neste caso a guerra recente).

Deixando-nos ver o que há de ficcional em qualquer narrativa do que aconteceu, Walid Raad questiona simultaneamente os mecanismos do Poder e o que é a História (quem a escreve, com que media, história de quê, escrita como), mas sempre com o cuidado de não perder uma certa leveza desconcertante, tecendo sempre fragmentárias narrativas altamente imagéticas, quase à maneira de um Italo Calvino ou de um Boris Vian. São narrativas que muitas vezes confluem num objecto, num pormenor, numa imagem – fazendo-nos olhar para quadros com vários tons de azul (Atlas Group) e procurar neles corpos de mortos desaparecidos no mar, encontrando-os.

Em apresentação no nº 14 da Untere Karlsstr, Scratching on Things I Could Disavow – A History of Art in the Arab World tanto podia ser visto apenas como exposição/instalação como enquanto performance levada a cabo por Walid Raad duas vezes por dia. Raad, contador de histórias, guiava-nos então pelas obras em exposição: obras-ensaio, síntese em objecto das narrativas que Raad explicava em palavras.

O encolhimento da exposição é uma das narrativas desta sua ‘História da Arte no Mundo Árabe’, uma História que tem em conta não só as acções das pessoas mas também as acções das coisas – e nisso propõe uma historiografia outra. Em Scratching on Things I Could Disavow, talvez mais do que no projecto do Atlas Group (onde os objectos indiciavam a acção humana), a presença material das coisas afecta e é afectada pela história, as coisas resistem, traumatizam-se, agem.

Da resistência dos materiais e do trauma das coisas, dá-nos Raad também conta noutra destas histórias, Appendix XVIII: Plates 22-257, onde, partindo da teoria da superação dos desastres de Jalal Toufic, nos faz ver como certas palavras de certos romances, certas partes de pinturas e de esculturas traumatizadas – na forma – por guerras, massacres, injustiças, condições adversas e insuportáveis se retiram (withdraw), encontrando refúgio noutras obras, noutras peças, noutras formas. As que temos em exposição perante nós -uma composição de 30 quadros a fazer lembrar provas tipográficas -, são disso um exemplo.

Raad explica a verdade oculta naquela que parece ser uma composição gráfica banal, e o que vemos é uma história da Arte no Mundo Árabe pautada por momentos sucessivos de retirada (withdraw) e de impossibilidade: novamente em causa a escrita da história. Uma história não das palavras mas dos silêncios, não das acções mas da contenção das acções, das contra-acções, dos desaparecimentos.
Disso nos dá conta também o final de Views from Inner to Outer Compartments, a segunda história, onde nos fala do muro invisível que há no novo Museu de Arte Contemporânea numa cidade árabe, um muro que não deixa um homem entrar: toda a gente entra e este homem vai sempre contra o muro invisível. Por que razão uns passam e outros não? Que muro é esse que acompanha a Arte Contemporânea, esse território de modernidade e democracia em ascensão no Mundo Árabe rico?

Scratching on Things I Could Disavow_Translaor’s Introduction: Pension Arts in Dubai. Media: Two-channel projection on wall with paper cutouts. Year: 2010. © Walid Raad. Courtesy: Galerie Sfeir-Semler (Beirut / Hamburg) / Anthony Reynolds Gallery (London) / Paula Cooper Gallery (New York).

Para responder a estas perguntas é preciso regressar à exposição que encolheu e com ela à questão da escala, organizando o discurso cronologicamente e voltando ao início, a Translator’s Introduction: Pension Arts in Dubai , a 1ª e mais longa narração de Walid Raad – a explicação de um gráfico interactivo que se encontra logo à entrada, e à frente do qual nos sentamos durante 30 minutos em plateia tradicional.

Em Translator’s Project Walid Raad partiu do “pequeno”: o telefonema do grupo privado Artist Pension Trust – APT convidando-o a fazer parte de um fundo de reforma para artistas juntamente com outros 250 artistas de 5 cidades, cedendo uma obra por ano durante 20 anos. Investigando este grupo, ele aborda as condições da precariedade hoje em dia, em particular a dos artistas, mas vai mais longe, desvelando interligações entre a financeirização da Arte Contemporânea, Wall Street, o Exército de Israel e as economias dotcom. Atenção que, ao contrário do trabalho do Atlas Group, nada desta investigação é ficcional. E Walid Raad é, pode dizer-se, dos artistas que no contexto da dOCUMENTA (13) mais eficazmente consegue re-situar a esfera do mercado da Arte Contemporânea no âmbito da Alta Finança de onde não pode ser separada, transportando-nos assim para o grande, o macro.
E são também as macro-interligações entre Capital, Arte e Finança o assunto de Views from Inner to Outer Compartments (a segunda história, a tal onde no fim aparece o muro invisível). Rodeando-nos de ecrãs, Raad embarca-nos numa viagem pelas salas dos Museus de Arte que estão a abrir no Mundo Árabe rico, em sítios como o Dubai, Abu Dhabi, Kathar e Doha.

É a financeirização da cultura e do conhecimento o que está em causa na instalação de empresas aparentemente tão ‘neutras’ como o Guggenheim Museum, a Universidade Sorbonne, ou a New York University, que abriram campos em Abu Dabhi , modificando radicalmente a geografia global do dinheiro e do conhecimento, sem por isso alterarem as estruturais desigualdades em que estas assentam, antes pelo contrário, acentuando-as. O que está a acontecer é fruto da transformação do direito a esferas básicas da vida (casa, educação, cultura) em máquinas de fazer lucro. Disso nos dá conta também a história anterior, ao começar com uma coisa tão simples como a questão das reformas.

Um telefonema para um plano de reforma que leva a uma investigação de vários anos sobre a financeirização da economia mundial e o boom do Médio Oriente; uma exposição que encolheu; a porta invisível de um museu de arte numa cidade árabe que não deixa um homem entrar; o desaparecimento traumatizado de partes de obras e o seu aparecimento noutras obras — a questão da escala acompanha, na obra de Walid Raad, a escrita da História. Uma escrita que não é reescrita, antes modo de colocar o olhar, de o reposicionar como sentir do mundo e a partir daí contar histórias que nos fazem entender o presente de outra maneira – o que tanto para a Arte como para a História não é um desafio menor.

[1] O Atlas Group foi um projecto desenvolvido por Walid Raad entre 1989 e 2004 para pesquisar e documentar a história contemporânea do Líbano, com uma ênfase particular nas guerras de 1975 e 1990. Raad encontrou e produziu documentos áudio, visuais e literários que convocam e desvendam essa história. Os documentos foram preservados no Arquivo do Atlas Group, localizado em Beirute e Nova Iorque. O trabalho de Walid Raad inclui até à data instalações em vários mediums, performance, vídeo e fotografia, assim como ensaios literários. Walid Raad nasceu no Líbano (1967) e vive em Nova Iorque. É professor associado na Cooper Union em Nova Iorque e membro da Arab Image Foundation (Beirute/Nova Iorque).

[2] Walid Raad, programa da exposição.

[3] Para mais informações sobre estas novas universidades-corporações ver o trabalho do colectivo Edu Factory ou do sociólogo Andrew Ross (aqui, consultado a 19/9/12), entre outros.

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2 comentários leave one →
  1. massacrítica permalink
    8 Out 2012 9:24

    Demasiado longo e sem a síntese do essencial no 1º paragrafo. O texto é muito interessante e bem estruturado, mas de tão longo torna-se uma tentação saltar de parágrafo em parágrafo para avançar. Quando pensamos que o estamos a fazer, a avançar, recuamos no assunto para depois saltar para diante.

  2. Ana Bigotte Vieira permalink
    8 Out 2012 11:02

    Verdade. Muito obrigada pelo comentário. Na realidade este texto foi escrito de um jacto só, entre viagens de comboio, no entusiasmo de quem tinha acabado de vir da dOCUMENTA (13), estava a caminho do festival Steirischer Herbst, em Graz (ver: http://www.truthisconcrete.org/), e tinha de entregar um texto no final da semana. Ainda o tentei reestruturar quando cheguei a Lisboa, mas dei-me conta de que teria de escrever um texto novo e a minha condição precária não me permite ter tempo para isso. Decidi partilha-lo mesmo assim. Espero que consiga passar algumas das questões que esta obra, nada simplista, me levantou. Mas sei que não é fácil de ler – é como que um texto aos solavancos.

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