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Meu Deus, por que me abandonaste? [Inverno]

2 Out 2012

Inverno. Foto Nuno Cardoso.

Inverno, de Nuno Cardoso. Co-criação e interpretação: Daniel Pinto, Gonçalo Fonseca, João Melo, Luís Filipe Silva, Mónica Tavares, Rui Mendonça, Tânia Almeida. Cenografia: F. Ribeiro. Desenho de luz: José Álvaro Correia. Co-produção: Comédias do Minho e Ao Cabo Teatro. São Luiz Teatro Municipal, 28 de Setembro 2012

“Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?”, permitam-me a blasfémia de evocar o nome de Deus em vão nesta criticazinha. Mas em Inverno, de Nuno Cardoso, foi a frase que a todo o momento ecoou, ressoou e se debateu na minha cabeça. Não porque o espectáculo partia do Livro de Job (portanto, da Bíblia, livro de todos os livros), mas porque muitas vezes o sofrimento terreno, por mais pequeno que seja, nos faz aderir à experiência de Cristo na cruz e às suas dores inefáveis.

Inverno, uma co-produção entre as Comédias do Minho e Ao Cabo Teatro, contava com a co-criação e interpretação de Daniel Pinto, Gonçalo Fonseca, João Melo, Luís Filipe Silva, Mónica Tavares, Rui Mendonça e Tânia Almeida que partiram do Livro de Job, um dos livros do Antigo Testamento, para uma actualização carnavalesca, que pretendia questionar os princípios fundadores da cultura ocidental e, ao mesmo tempo, pensar o confronto do homem, efémero e precário, com a sua fé e com o seu Deus. Num palco de pequenas dimensões pouco convencionais — decisão condicionada pela itinerância pelo Vale do Minho, onde as Comédias vão desenvolvendo o seu trabalho e onde o espectáculo foi sendo apresentado em casas do povo, salões paroquiais e juntas de freguesia— vemos desfilar uma parada que às vezes se quer fazer parecer burlesca, outras vezes um pastiche (gratuito e despropositado) de figuras de estilo da cultura pop/televisiva ou, mais esforçadamente, que pretende criar as imagens do sofrimento sem repouso narradas pelo Livro de Job. Mas durante o espectáculo vemos apenas os brados de Job esboroarem-se em sound bites berrados de maneira confusa, no meio de uma desconstrução narrativa que saltava de suplício em suplício. Um reboliço tal que não havia tempo para nos darmos conta de uma reflexão sobre a interioridade, a fé, ou sobre essa condição a que toda a gente chama humana.

Os actores iam desaparecendo, perdidos naquele pequeno palco, no meio de uma panóplia colorida de adereços e figurinos. Iam e vinham e vestiam-se e despiam-se, tentando criar uma proximidade forçada com o público. Enquanto a figura Job, interpretada à vez por todos os actores, contribuía apenas para adensar o frenesim histriónico. As relações que se estabeleciam, principalmente com o público, eram condescendes e didáticas ao ponto de não nos querer fazer aderir às humilhações daquele homem que perdera as graças do céu.

Estavam em Inverno todos os recursos do pós-dramático, mas Nuno Cardoso tornou-os inconsequentes e ineficazes. Sem libertar o texto do qual partiu de uma leitura conservadora, fez dele apenas mais uma loa aos valores católicos de família, amor, fé, sem lhes conseguir tirar o bafo do catecismo de escola primária pouco iluminado e pouco iluminador. Do último desespero de Job, em que Daniel Pinto sobe a um banco e rasga um desenho de criança com a frase “quem me dera um país de profetas” e polvilhado de palavras como “saudade”; “filhos”; “amor”; “lar”, podíamos pensar que estávamos perante o derradeiro acto herege, em que os valores seculares e conservadores podiam ser repensados e transformados. Mas não, logo a seguir vem o renascimento com a descoberta da luz, todos os Job voltam à sua fé de dentro de alguidares de plástico e com óculos de sol coloridos para não ferir retinas desabituadas à luz do divino.

Não é possível, contudo, deslocar este espectáculo do contexto da sua criação. Ele surgiu de uma parceria com as Comédias do Minho que desenvolvem um trabalho, com grupos de teatro amador e associações locais, de cinco câmaras municipais do Vale do Minho — Melgaço, Monção, Paredes de Coura, Valença e Vila Nova de Cerveira. As Comédias programam e convidam diferentes criadores para trabalhar com a comunidade e fazer circular os espectáculos por lugares onde, habitualmente, não havia uma programação teatral regular. O seu papel é decisivo no trabalho com a comunidade na sua integração em dramaturgias que, à partida, se poderiam considerar contemporâneas e demasiado arriscadas. Mas em Inverno, Nuno Cardoso abandonou o seu público a uma deriva onde um enorme vazio tentava constantemente ser preenchido pelo gag, pela introdução de novos adereços e novas situações, conduzindo os actores a exageros performáticos que nem a salvação de Job conseguiu redimir.

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9 comentários leave one →
  1. Jorge Silva Melo permalink
    2 Out 2012 18:33

    Obrigado. Este parece-me um texto bem estruturado e que me ajudou a situar o espectáculo.
    Mas eu diria duas coisas:
    1.cuidado com a língua! “quer fazer parecer” (foi mesmo indispensável usar três verbos seguidos? que canseira, tanta acção)
    2.mais importante. Compreendo que digas “(…) não havia tempo para nos darmos conta de uma reflexão sobre a interioridade, a fé, ou sobre essa condição a que toda a gente chama humana.” Compreendo que foi isso ( querer reflectir sobre isso) o que te levou a assistir ao espectáculo. Mas o facto de o espectáculo não te dar esse tempo não é em si mau: tu é que querias ver lá o que o espectáculo não sei se te prometera. Acontece muitas vezes pensarmos : este não é o Hamlet que eu conheço, nem a Mãe Coragem em vez de vermos que Hamlet é aquele (e será interessante? Ou que Anna é aquela?). Em críticos mais velhos então é mais do que normal quererem que o espectáculo seja aquilo que eles há décadas pensam que a peça é. Não teria sido mais prudente se tivesses escrito “não há neste espectáculo tempo para qualquer reflexão – sobre a interioridade, a fé – tudo nele é…. etc” (e aí descrevias). É que arriscas a fazer uma crítica tímidamente normativa. E já te digo:podia ser interessante fazer um espectáculo com JOB sem reflectir sobre a fé, nem… deixar tempo para mais nada, como o fariam os expressionistas de há um século… não?.

    • Marta Brito permalink
      8 Out 2012 15:52

      Caro Jorge,
      em primeiro lugar peço desculpa pela demora desta resposta. Ainda por cima porque é tão bom saber que há leitores atentos.

      Tem toda a razão essa frase está demasiado activa. Relativamente ao que me diz acerca da reflexão sobre a interioridade, a fé, ou a condição humana, achei que era necessário haver espaço no espectáculo para nos demorarmos sobre isso porque, na folha de sala, Nuno Cardoso diz-nos “Neste labirinto poético que tem, como em lado nenhum, a coincidência de interrogar o humano em face da potência divina, priviligia-se o trabalho da descoberta paralela de um território e de uma geografia da interioridade.” Apesar da obscuridade da frase, acho que ela nos exortava a reflectir sobre a fé e a interioridade e a condição humana.
      Compreendo, no entanto, o aviso de que é preciso ter muito cuidado para não cair numa tentação normativa na crítica, muitas vezes esse é o caminho mais fácil.

  2. A. Branco permalink
    5 Out 2012 7:18

    “Inverno, uma co-produção entre as Comédias do Minho e Ao Cabo Teatro, contava com a co-criação e interpretação de Daniel Pinto, Gonçalo Fonseca, João Melo, Luís Filipe Silva, Mónica Tavares, Rui Mendonça e Tânia Almeida…”
    Não é estar a repetir a informação como ela está na ficha técnica?

    • Marta Brito permalink
      8 Out 2012 16:03

      Claro que é.

      • Ana Bigotte Vieira permalink
        8 Out 2012 16:09

        Caro A. Branco,
        na minha opinião, não. Para mim, a repetição dos nomes confere peso ao facto de ser uma co-criação, dado importante.

      • A. Branco permalink
        9 Out 2012 3:50

        Cara Ana Bigotte Vieira, concordo que a informação, em causa, é bastante pertinente para se perceber o espectáculo. Mas não seria mais interessante passar essa informação sem “chapar” a ficha técnica?

      • A. Branco permalink
        14 Out 2012 8:29

        Cara Marta Brito, ainda tenho alguma dificuldade em perceber que comentário estou a comentar… Assim sendo, e correndo o risco de não ter visto o meu comentário: “Mas não seria mais interessante passar essa informação sem “chapar” a ficha técnica?”

  3. Ana Bigotte Vieira permalink
    10 Out 2012 13:29

    Sinceramente, não é uma coisa que me tenha feito grande espécie. Muitas vezes as fichas técnicas nem são publicadas, prefiro discutir isso a discutir o facto de ser copy-paste da ficha técnica ou não. E agrada-me o gesto de não se atribuir toda a autoria ao encenador, de se assinalar – no corpo da crítica – a co-criação e o trabalho dos intérpretes.

    • A. Branco permalink
      14 Out 2012 8:26

      Cara Ana Bigotte Vieira, acredito que sim, mas a minha nota é sobre esta crítica e não sobre a crítica em geral. A mim também me agrada aquilo que refere, até por ser facto, mas não havia outra forma de o fazer?

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