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Theatrum anatomicum reloaded [Cadáver esquisito]

28 Set 2012

Cadáver esquisito. Foto Mette van der Sijs.

Cadavre Exquis (Cadáver Esquisito). De Kassys em colaboração com Nature Theater of Oklahoma, Tim Crouch e Nicole Beutler. Encenação: Liesbeth Gritter (Kassys), Pavol Liška & Kelly Copper (Nature Theater of Oklahoma), Tim Crouch e Nicole Beutler (nb projects). Intérpretação: Esther Snelder, Hannah Ringham, Jarid Rychtarik e Bas van Rijnsoever; Coordenação e assistência artística: Mette van der Sijs; Desenho de luz e técnica: Adriaan Beukema. Culturgest, 20 Setembro de 2012.

Nas universidades dos séculos XVI e XVII verificava-se a ocorrência de uma prática chamada “teatro anatómico”, onde cadáveres eram dissecados em frente ao público em anfiteatros. Deste modo pretendia-se ensinar a anatomia dos seres humanos e de animais aos estudantes. No entanto, a função do teatro anatómico não era apenas didática: os corpos que eram dissecados pertenciam muitas vezes a criminosos executados, sendo que, desmembrar os seus corpos em público, servia também para mostrar que quem não respeitasse as regras seria punido e que mesmo ao cadáver não seria permitido descansar em paz, a fim de pagar pelos seus pecados. Uma referência distante a esta prática é estabelecida pelo presente espectáculo – Cadavre Exquis – cuja autoria pertence à encenadora holandesa Liesbeth Gritter (Kassys), em colaboração com quatro outros encenadores (dos EUA, Reino Unido e Alemanha).

Gritter começa por decidir sobre o conceito e a forma, dividindo a peça em cinco partes (cada uma com 15 minutos de duração), das quais ela desenvolve a primeira e a última, reservando as restantes para os artistas convidados. Este procedimento foi inspirado pela técnica surrealista, transformada jogo de crianças, em que cada uma desenha uma parte da mesma criatura, ou escreve uma frase de um texto, sem saber o que a criança antes dela fez. O resultado final é uma imagem um pouco monstruosa, cujas partes se fundem num produto surreal de diferentes expressões. Neste “cadáver” teatral, os encenadores trabalharam sempre com os mesmos intérpretes (um de cada estrutura envolvida), só podendo ver os últimos sessenta segundos da cada sequência. A primeira parte consiste numa projeção de cinema mudo acompanhada por música, que apresenta quatro personagens deambulando por uma cidade pequena, e recolhendo objetos que eventualmente se tornarão adereços. A segunda parte (dirigida por Pavol Liška e Kelly Copper) é uma miniatura teatral autorreflexiva, cuja temática principal é a atuação. A terceira parte (dirigido por Tim Crouch) é um episódio fragmentário, com diálogos curtos (sobre Deus, por exemplo) em que um ator toca guitarra no palco e canta. A quarta parte (Nicole Beutler) é uma dança com uma coreografia sincronizada e exaustiva sobre música de dança eletrónica e a última parte é uma espécie de pantomima que poderá ser vista como referência teatral à famosa pintura de Hieronymus Bosch, “Navio dos Loucos”, onde os “loucos” são os atores cujo navio (o teatro) é feito de adereços, figurinos e os seus corpos.

Um conceito claro, um palco, cinco “atos”, quatro atores, cinco encenadores, alguns adereços e figurinos e um desempenho de teatro pós-dramático: estes são os ingredientes que compõem esta autópsia espetacular do teatro. E há ainda o ingrediente secreto que realmente traz vida ao ‘cadáver’ dissecado: a música, usada em formas diferentes e imaginativas. Na primeira e na última parte Gritter usa a música de Angelo Badalamenti – retirada da banda sonora do filme Mulholland Drive de David Lynch. Esta música expressiva, designando humores melancólicos, combinada com sons concretos de passos humanos, ou com o som de água torna o cinema mudo num poema de música eletrónica com imagens. Na última parte, com o “navio”, a música utilizada é a mesma, e, neste caso, re-caracteriza as situações cómicas apresentadas no palco tornando-as irónicas ou mesmo trágicas. Na segunda parte, onde os atores falam sobre a atuação, é usada uma música de filme convencional de Hollywood, e esta alusão traz um sentido de ironia afiada para o palco. Na terceira parte, que representa uma cena da vida quotidiana, o ator canta e toca uma música pop na guitarra, e na quarta parte, a dance music sugere atmosfera alienada de megalópoles contemporâneos. A música funciona como o ventríloquo que confere o significado crucial para o desempenho do teatro.

O ‘cadáver’ é um teatro pós-dramático, teatro para lá do drama, teatro em que os significantes dissecados do teatro dramático são deixados a flutuar e a recombinar-se. No início dos tempos modernos o teatro anatómico revelou-se essencial para a divulgação de conhecimento sobre a anatomia humana. E hoje, a dissecção, fazendo as perguntas sobre a estrutura, procedimentos, mecanismos de representação (anatomia) de performance, é de grande importância para o estatuto e função da produção teatral contemporânea. Isso é o que Gritter e seus colaboradores de forma convincente problematizam: O que é o teatro hoje?

Com o Cadáver Exquis Gritter sugere que o teatro hoje pode ser um caleidoscópio de “histórias” pequenas e fragmentadas, realizadas em diferentes midias com diferentes linguagens e expressões artísticas. É um teatro no qual as ‘grandes histórias’ chegaram ao seu fim. O que é deixado para trás da História são personagens e situações que continuam a ‘viver’ na sua insignificância pós-narrativa. E verifica-se aqui um paradoxo – embora Gritter insista na estrutura fragmentada, não-narrativa, ela ao mesmo tempo continua a ser a autora do conceito e da forma do espetáculo. É ela quem dirige as posições do resto dos artistas envolvidos. Se eu não soubesse que diferentes diretores participaram da peça, eu poderia facilmente imaginar que Gritter dirigiu todos os “atos” utilizando diferentes expressões teatrais. O conceito forte de autor e a forma clara do espetáculo fizeram-me entender o “Cadáver Exquis” como uma peça de teatro, e não uma série de miniaturas. E esse é o ponto em que voltamos de novo para as grandes histórias, e desta vez, trata-se de uma história sobre a história que o teatro conta.

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5 comentários leave one →
  1. Paula Freitas permalink
    29 Set 2012 15:22

    Gostei bastante deste texto, pela subaestrutura e pelo seu conteudo e das suas referencias da tematica do que é o teatro hoje .

  2. A. Branco permalink
    30 Set 2012 5:50

    Não consigo perceber quem assina o texto…

    • 30 Set 2012 10:31

      Estimado A. Branco, a autora deste texto é Jelena Novak. Neste post o nome da autora encontra-se entre parentesis, depois do título.

      • A. Branco permalink
        2 Out 2012 3:37

        Obrigado, não me tinha apercebido.

  3. 12 Out 2012 3:45

    Sou obviamente parte interessada, porque programei este espectáculo na Culturgest, mas também gostei bastante desta crítica quando a li há umas semanas. Tem uma ideia forte – a comparação surpreendente e instigante com o teatro anatómico – e para além disso executa com nitidez as tarefas da descrição e interpretação que se esperam de uma crítica. Acho relevante o destaque dado à música como motivo condutor do espectáculo, mas gostaria de ter lido mais sobre as formas como cada um dos criadores lidou com a proposta (e como isso se articula com a sua prática anterior). Para além disso, acho a questão da autoria mais complexa do que o último parágrafo deixa entender, mas talvez possa deixar isso para um comentário à outra crítica sobre este espectáculo.

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