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Homo Sacer e um Tambor [Feliz aniversário]

20 Set 2012

Feliz Aniversário (Rúben Gomes). Foto Jorge Gonçalves.

Feliz Aniversário, de Harold Pinter. Tradução: Artur Ramos e Jaime Salazar Sampaio. Encenação: Jorge Silva Melo. Cenografia e figurinos: Rita Lopes Alves. Luz: Pedro Domingos. Interpretação: Alexandra Viveiros, Américo Silva, Andreia Bento, Antonio Simão, Rúben Gomes e Tiago Matias. Artistas Unidos, Teatro da Politécnica, 14 de Setembro de 2012.

Nascemos no século em que, de longe, a lista de medicamentos é mais longa.
Festejemos, pois, com a bebida certa.
Gonçalo M. Tavares

Feliz aniversário é uma obra sobre como a rotina alienada dos dias no espaço de um gorduroso bed and breakfast pode ser sinónimo de uma tirania sem tirano, devoradora. Uma obra sobre como nesse espaço de fictício refúgio, que é a casa, cabe uma angústia latente do ser humano sem expiação e, portanto, devoradora. Isto porque, afinal, não há sacrifício possível para o anti-herói Stanley, a não ser a sua manutenção num sistema higiénico. Uma comemoração perturbante, agora levada à cena pelos Artistas Unidos, que nos mostra como a marginalidade é, ainda assim, uma forma de resistência.

Jorge Silva Melo encena este jogo de relações equívocas entre seis personagens num compromisso empenhado com o texto, que se poderia fazer valer muito mais na intensidade interpretativa dos personagens que no cuidado de uma cenografia e caracterização tão fieis quanto dispensáveis. Uma peça que cumpre a missão de um teatro que não prescinde do seu poeta: Harold Pinter.

A casa está no guia: numa perdida cidade operária inglesa à beira mar, o simpático casal anfitrião Meg e Petey (Andreia Bento e Américo Silva) e a vizinha Lulu (Alexandra Viveiros) aguardam a inóspita chegada de dois novos inquilinos Goldberg e McCann (António Simão e Tiago Matias). Mas esta trama é, sobretudo, sobre Stanley (Rúben Gomes), um músico frustrado recolhido num dos quartos há um ano, e cujo passado duvidoso aparece gloriosamente descrito. Entre colheradas de cornflakes e alguns cigarros, antevê-se a inércia de um recluso no interior da sua própria existência sob o auspício de nervosas expectativas. Um recluso promiscuamente protegido por Meg, figura maternal que, para festejar o seu aniversário, lhe oferece um tambor.

Pinter faz girar todos os personagens sobre si próprios, numa ambiguidade absurda que, ao invés de apontar uma cartografia que os desmascare, um a um, como num thriller revelador, prefere confundi-los (e confundir-nos). Em clima de aparente e apática tranquilidade e reconhecendo o cómico dos diálogos que a classe trabalhadora inglesa lhe ensinou, a peça irrompe com inesperados nós na garganta. Os hóspedes são os culpados pela tensão de palavras aparentemente inocentes, compostas numa encruzilhada sem solução que friamente descobre o caos labiríntico que cerca o homem.

Consciente das antipatias que o próprio autor tinha a excessos interpretativos, arrisco-me a dizer que Stanley está na condição de Homo Sacer. Adoptando a norma jurídica romana, analisada por Agamben como condição das sociedades ocidentais, o Homo Sacer é o protótipo do não-sujeito. É aquele que, despido de existência, entra na comunidade humana pela sua própria desumanização dado que, de uma forma contraditória, está incluído no sistema ainda que sob um regime de exceção. Parece que no claustrofóbico espaço desta casa se metaforiza a soberania do estado de exceção favorável ao monopólio da decisão. No texto de juventude do dramaturgo, essas memórias são revisitadas – as portas batentes – a realidade da guerra que conheceu no interior da família judaica. E Stanley é um marginal encurralado no paradoxo desta soberania: deslocado, decide-se o valor da sua vida.

Eles vêm aí hoje! E batem à porta da frente! – Stanley assiste a tudo: corpos em silêncio nos discursos (como na sonoplastia inexistente) e através das lentes dos óculos que usa tudo parece tornar-se mais nítido. Porque herói revoltado é a figura menos alienada na trama surda, ainda que não se faça entender senão através do bater crescente de um tambor de brincar.

Chegaram sem bater à porta. Goldberg, na interpretação magnífica de António Simão, máquina de discurso vomitado que mente memórias e nomes; acompanhado por McCann, obediente, no seu vício meticuloso de rasgar pedaços de jornal como quem esquece o real, um instrumento amedrontado. O Processo kafkiano está por eles instalado e culmina com a comemoração da trágica do Homo Sacer que é, em cena, um murro no estômago. Então, o que a encruzilhada pinteresca (ou o jogo da cabra cega) está a mostrar é que do discurso se dissolveu o signo, algo que já não existe em si mesmo senão em regimes de verdade estruturantes que o regulamentam em relações de poder. Facilmente as palavras se transformam em armas assombrosas. Do mesmo modo, a dupla perturbadora de novos hóspedes conduz a cena à sua solução de exceção. Um ataque de nervos e a necessária recuperação de Stanley. Escacam-lhe os óculos para que não veja, um blackout e dão-lhe um tiro de lanterna, penteiam-no e assim o reinserem no sistema supostamente produtivo; a cura: a capitulação.

E o tambor partiu-se.

Feliz aniversário é uma caricatura antiga, porque em cena, ao que parece, tudo se mantém semelhante após inúmeras encenações. Quando nos Artistas Unidos se insiste em revisitar Pinter prova-se a necessidade de ouvir um outro eco; de convocar o fantasma tragico-cómico e de o despejar num espaço de inquietação concedido a um espectador dito emancipado, que somos nós. O enigma é irremediavelmente político. Como o é hoje!

Hoje, o tempo em que o medo parece um pouco descontrolado, o espetador reconhece nos espaços opressores a perpetuação da relação desumanizada de si com o outro, e o paradigma do contemporâneo: a soberania no estado democrático do inominável capital. Mas algo estremeceu com as batidas do tambor no pescoço do herói capitulado. Um tambor que, entre nós, parece não ter deixado de rufar…

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7 comentários leave one →
  1. apr permalink
    21 Set 2012 0:52

    E porque é que o crítico está tão distante do seu texto? É muito o comentário tradicional sem auto-questionamento do receptor/crítico….apr

  2. Jorge Silva Melo permalink
    21 Set 2012 7:54

    Leio e não entendo o que se diz , por exemplo, neste horrendo parágrafo: “Jorge Silva Melo encena este jogo de relações equívocas entre seis personagens num compromisso empenhado com o texto, que se poderia fazer valer muito mais na intensidade interpretativa dos personagens que no cuidado de uma cenografia e caracterização tão fieis quanto dispensáveis. Uma peça que cumpre a missão de um teatro que não prescinde do seu poeta: Harold Pinter.” Suspeito que “quer dizer” que os actores não trabalharam o que deviam e que o cenário era mau. Mas o trabalho do leitor de crítica não é o de supor: é o de compreender. Só o poeta tem direito à sua obscuridade: legisladores e críticos luzem na luz da precisão. É bom ter lido Agamben – mas indispensável aprender a escrever (com Cícero, Pe Manuel Bernardes, Garrett, Francisco Manuel de Mello…) E, na crítica teatral, com Kenneth Tynan, claro, que escritor!

  3. 29 Set 2012 17:36

    Silenciosa e atenta fui acompanhando as discussões fomentadas nas redes sociais a propósito do meu texto, que entretanto se generalizaram em questões mais abrangentes e importantes acerca da crítica e do seu estado em Portugal.

    APR: Agradeço o comentário. Irei trabalhar nesse sentido.
    Jorge Silva Melo: Obrigada pela atenta leitura! Quero também dizer que o seu comentário, por momentos depreciativo, foi discutido no interior do grupo Mais Crítica, e resultou numa saudável partilha de ideias e opiniões.
    Estou (e estamos todos) motivados a ampliar o discurso crítico e a continuar com redobrada energia. À parte polémicas e desconfianças, venho também dizer que o meu objetivo é um único: participar neste núcleo aberto de formação de vozes atentas, informadas, participantes, acordadas, e assim críticas. Aceito quando diz que o trabalho do crítico seja o de fazer compreender, sendo por isso necessária maior precisão na transmissão das ideias. Mas parece que o papel do crítico não se limita aí – questionar, encontrar articulações fundamentadas, organizar ideias à volta das peças e até supor, podem proporcionar ao leitor uma oportunidade para criar a sua própria opinião, no sentido de uma real e informada democratização da cultura. Espero continuar a contar com a sua leitura atenta e comentários. E, sem querer conquistar qualquer aprovação, gostaria que a minha presença no Mais Crítica continuasse a suscitar estes interessantes debates, assegurando-lhe que a energia não murcha face a outros constrangimentos.

  4. Mónica Guerreiro permalink
    13 Out 2012 21:43

    Boa noite.
    Obrigada pela iniciativa e pela publicação de opiniões livre de filtros e de zonas privadas.
    Não tenho um comentário dirigido a nenhum assunto de substância. Só gostava de sugerir que o blog, ou que cada autor, decide redigir as suas críticas e artigos em AO90 ou não, para evitar a coexistência de duas grafias no mesmo texto (como acontece neste: com duas linhas de intervalo, a mesma palavra aparece grafada de formas diferentes).
    De resto, boa continuação aos promotores e aos envolvidos!

    • 18 Out 2012 11:35

      Olá Mónica,

      Pela minha parte a redação é feita dentro do previsto novo AO. Mas há sempre aquela adaptação a ser feita, e palavras que nos escapam…Claro que já existem instrumentos de verificação e é bastante importante o rigor na aplicação das novas regras.
      Continue a ler-nos!

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