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O Sr. Ibrahim e as Flores do Corão

18 Set 2012

O Sr. Ibrahim e as flores do Corão (Miguel Seabra e Rui Rebelo). Foto Nuno Figueira.

O Sr. Ibrahim e as flores do Corão, de Eric-Emmanuel Schmitt. Tradução: Carlos Correia M. Oliveira. Versão cénica, encenação e desenho de luz: Miguel Seabra. Espaço cénico: Marta Carreiras e Miguel Seabra. Figurinos: Marta Carreiras. Música original e sonoplastia: Rui Rebelo. Interpretação: Miguel Seabra e Rui Rebelo (música). Teatro Meridional, 13 de Setembro de 2012.

Duas pessoas fazem o palco de O Sr. Ibrahim e as Flores do Corão, em cena no Teatro Meridional (TM), na sua casa do Poço do Bispo, em Lisboa. De um conjunto cénico discreto, composto por uns tecidos suspensos em pano de fundo, poucos objectos dispostos no chão e imersos numa penumbra indiferenciada, destacam-se duas figuras sentadas e subtilmente iluminadas: Miguel Seabra oferece-nos o texto e Rui Rebelo traduz as palavras para ressonâncias musicais e sonoras. Dois intérpretes, porque “a unidade mínima humana não é um, mas sim dois”, palavras de Bertolt Brecht tão caras a Miguel Seabra, director do Teatro Meridional.

Espectáculo que assinala as duas décadas da companhia, O Sr. Ibrahim e as flores do Corão teve estreia na 29.ª edição do Festival Internacional de Teatro de Almada (FITA), onde foi distinguido com o Prémio do Público 2012 e Espectáculo de Honra 2013. Nesta data relevante para a companhia, foi também o momento de Miguel Seabra regressar ao palco, após um período dedicado mais à encenação, e de resgatar um texto lido em tempos e guardado com um desejo particular de o levar a cena.

O Sr. Ibrahim e as flores do Corão, texto do filósofo e escritor franco-belga Eric-Emmanuel Schmitt, fala-nos de dois homens que habitavam a rua Bleue, num bairro popular em Paris, na década de 60: Moisés, um menino judeu de onze anos de idade e o sr. Ibrahim, o velho merceeiro árabe. Aparentemente desencontrados em culturas, religião e gerações, os seus encontros diários vão possibilitar uma transformação na vida de ambos, através da amizade e do afecto. Trata-se de um texto que fala desses sentimentos, e da aprendizagem da sexualidade, do diálogo com o Outro, da tolerância, do sentido da vida, e até da aceitação da morte “como viagem para a imensidão”. Apesar da aparente simplicidade que poderia ser o diálogo pueril entre uma criança e um sábio velho, a densidade dos ensinamentos do sr. Ibrahim traduz-se em frases cortantes como: “a lentidão é o segredo para a felicidade” ou “aquilo que dás será teu para sempre”.

Traduzido em mais de 43 línguas e encenado em cerca de 50 países, o texto que nos traz o Teatro Meridional, é a segunda obra do Ciclo do Invisível, que Eric-Emmanuel Schmitt dedicou à reflexão sobre as religiões. Nas palavras do autor, “há textos que carregamos dentro de nós com uma tal naturalidade que nem lhes damos a devida importância. Escrevemo-los como respiramos. Expiram-se mais do que se compõem”. À recepção generalizada da sua obra, o autor limita-se a constatar que “somos todos feitos da mesma carne, independentemente da latitude”.

Num certo sentido, existe um paralelismo entre estas palavras e as directrizes de uma companhia como o Teatro Meridional, que se define pelas trocas da itinerância (cerca de 44 produções teatrais, exibidas em mais de 19 países), “independentemente da latitude”. Outros traços dramatúrgicos da companhia que reflectem a abertura à experimentação e ao Outro, são o trabalho a partir de textos originais e não teatrais privilegiando a lusofonia (e o que esta tem de ramificações geográficas, históricas e identitárias), e ainda, o enfoque dedicado ao trabalho do actor e a exploração dramatúrgica para além do texto, como o recurso a músicos em cena. Nas palavras de Miguel Seabra, O Sr. Ibrahim e as Flores do Corão resultou num espectáculo “com uma densidade trágico-cómica, o que são águas muito meridionais” (entrevista TVI24, Cartaz das Artes, 13-09-2012) , onde se destaca o trabalho do actor e a palavra dita, em consonância com um músico em palco.

Em cena, o intérprete Miguel Seabra desdobra-se, habilmente, em Momo (o nome carinhoso que sr. Ibrahim dá a Moisés) e na sobriedade do sr. Ibrahim. A sua voz consegue traduzir tanto os momentos hilariantes de Momo na sua descoberta de si próprio (os pequenos furtos, a sexualidade), como a densidade dos ensinamentos do velho merceeiro árabe que, afinal, é somente muçulmano e que tudo o que sabe deve ao seu Corão. Esta opção dramatúrgica de concentrar todo o texto num só intérprete virá reiterar, por um lado, a simplicidade cénica que reduz o espectáculo a duas presenças – a palavra dita e a música – e, por outro, poderá reforçar a ideia da multiplicidade inerente a cada um de nós, aqui numa só voz e intérprete. Rui Rebelo complementa esta viagem dramatúrgica que se inicia no Poço do Bispo, e que vai de Paris, passando pelo mar da Normandia, até ao Crescente Dourado na Turquia, com sonoridades que nos lembram as danças místicas dos dervishes, e confere ao espectáculo o seu tom de fábula sufi.

No período turbulento que vivemos, onde o medo e a insegurança são incitados para justificar a intolerância, o fanatismo, a guerra à diferença e a usurpação dos direitos dos outros, e quando assistimos a práticas distorcidas de um Islamismo, bem distinto de um outro Islão sensato e milenar, O Sr. Ibrahim e as Flores do Corão vem abrir espaço e ar para um outro tempo. Um fôlego contemplativo, um espaçamento para olhar o outro e a importância do auto-conhecimento. O tempo da lentidão, de que nos falava o sr. Ibrahim, dito pela voz sensata de Miguel Seabra, como possível prenúncio da felicidade.

Um espectáculo sobre as afinidades que nos unem a todos, independentemente de proveniências ou crenças, e de como através do afecto e do diálogo, as diferenças se diluem na tolerância.

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