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O número 846 pode ser de outra maneira [Feliz aniversário]

18 Set 2012

Feliz Aniversário (Rúben Gomes). Foto de Jorge Gonçalves.

Feliz Aniversário, de Harold Pinter. Tradução: Artur Ramos e Jaime Salazar Sampaio. Encenação: Jorge Silva Melo. Cenografia e figurinos: Rita Lopes Alves. Luz: Pedro Domingos. Interpretação: Alexandra Viveiros, Américo Silva, Andreia Bento, Antonio Simão, Rúben Gomes e Tiago Matias. Artistas Unidos, Teatro da Politécnica, 14 de Setembro de 2012.

Stanley faz anos porque Stanley vai ser obrigado a nascer de novo. Ainda não estava bem vivo – tinha que nascer outra vez para se tornar um vivo como deve ser. Esterilizaram-no, derrotaram-no e tiraram-lhe os óculos, para que nascesse outra vez vazio e pronto para novas ideias. O mito do homem que tem que voltar a nascer não é novo e deu água pela barba aos regimes autoritários do século XX — e não estará também a dar aos nossos neo-neo-neo-neo liberais mais a sua austeridade? — e Pinter levou-o para uma pensão inglesa à beira-mar.

Através de uma composição de elementos que à partida nos podiam parecer inofensivos: uma casinha do final dos anos 50; uma dona de casa muito ocupada com as tarefas domésticas (Andreia Bento); o seu marido trabalhador e honesto (Américo Silva); o nosso anti-herói Stanley (Rúben Gomes); uma vizinha pudica (Alexandra Viveiros) e os dois hóspedes misteriosos que tagarelam sem parar (António Simão e Tiago Matias), Feliz Aniversário é uma peça que nos prende a um ambiente de medo e de repressão. As personagens andam de um lado para o outro numa sala que se torna a prisão de um quotidiano e que aos poucos se alastra a todo o corpo, a todos os gestos e à linguagem. São vagos no discurso que é frágil e que constantemente ameaça desfragmentar-se e onde até as palavras e as conversas mais quotidianas deixam escorregar o seu significado e perdem a materialidade que, quando estamos distraídos, achamos que têm. Na verdade, todos estão à mercê desses dois homens misteriosos que lhes vêm sussurrar ao ouvido que o número 846 “é apenas necessariamente necessário”, que não pode ser de outra maneira, por mais que eles lutem, por mais que eles tentem fazer outras contas.

Stanley luta contra eles enquanto pode. Não se quer deixar asfixiar pelas compras, pelos cereais, por essa rotina que nos invade, como invadiu as outras personagens, que foram cair ao limbo de quem vive em piloto automático. Não faz a barba, não toma banho, acorda tarde. Adopta tudo o que é socialmente reprovável e essa é a sua forma de lutar e de se afastar ainda mais da realidade a que tinha fugido. Mas se aparecerem muitos Stanley, as regras que ao longo de tanto tempo se foram introduzindo nos hábitos, até ao ponto de se tornarem invisíveis, são quebradas e isso o poder não quer. Elimine-se, então, o velho Stanley, crie-se o Stanley novo e tudo continuará a ser como sempre foi.

Jorge Silva Melo voltou a Harold Pinter como se volta a uma profunda amizade – esta é já a décima quarta peça do autor apresentada pelos Artistas Unidos – e não podia ser mais oportuno. Agora que se percebeu, após o anúncio de mais um pacote de absurdas medidas de austeridade, que a Troika — com a conivência e solicitude da classe política portuguesa — nos usa como cobaias de um sistema económico caduco, Feliz Aniversário é um texto que nos alerta para os perigos de um poder que se esqueceu das pessoas e para uma democracia que se esqueceu do seu povo. Porque é nesta peça de Pinter, profundamente política, que percebemos o quão difícil é resistir e enfrentar uma ordem social que acata com conformismo políticas económicas que a deterioram, onde interessa muito mais que cada cidadão obedeça a um estereótipo de trabalhador responsável, que não reflecte sobre as regras que lhe são impostas pelo poder.

Em Feliz Aniversário, o percurso dos personagens, o seu traço, encerra já a claustrofobia da rotina e todos os gestos que a demarcam e a enfatizam são desnecessários. A simplicidade com que Pinter usa a repetição de expressões do quotidiano é suficiente para nos dar a ver o desconforto em que todos os dias nos movimentamos. Por isso, a dimensão caricatural que alguns actores imprimiram na sua abordagem a este texto parece desnecessária. A ironia está na normalidade daquele dia de Verão, onde tudo se passa como se deve passar. Portanto, marcar demasiado os gestos ou reforçar estereótipos faz perder a força a esse ambiente claustrofóbico criado pela banalidade. Porque Pinter não nos dá a ver a caricatura de uma dona de casa de classe média mas, sim, a dona de casa de classe média tal como ela é.

Os elementos perturbadores, Goldberg e McCann, hóspedes recém chegados, são personagens que trazem consigo uma maldade subtil que se sente apenas na tagarelice contínua do primeiro e no silêncio submisso do segundo. Eles desconcertam-nos e desprotegem-nos porque vemos Stanley, que é ao mesmo tempo todos nós, os que lutamos e resistimos, a ser engolido novamente pelo mito da normalidade. António Simão interpretou Goldberg com uma inteligência desarmante, tornou a sua tagarelice incansável (própria dos bem falantes cheios de sucesso) numa arma poderosa para nos encurralar contra uma parede de papel colorido. O cansaço de o ouvir e a impotência de Stanley era também o cansaço de ouvir todos os que dizem que temos que andar na linha, que o trabalho é o sustento da sociedade, que a ociosidade só traz vícios e que os vícios só trazem problemas. A tagarelice que nos invade é sintoma do dano que Goldberg está prestes a infligir, porque o que é ousado precisa de poucas palavras, como Stanley que se esconde daquele mundo e não lhe quer responder até ser coagido para que o faça.

Não são os móveis, nem as roupas, nem os excessos dramáticos que fazem de Feliz Aniversário uma peça invasiva. Pelo contrário, é a sua discrição, a sua fina ironia inglesa disfarçada na normalidade e a sua sobriedade formal que nos põem a engolir em seco e esta encenação, que ao preocupar-se demasiado em nos situar nos anos cinquenta, em retratar socialmente cada personagem numa abordagem quase cinematográfica do cenário, arriscou a que desviássemos o olhar. Com ou sem sala, com paredes ou sem paredes, Pinter atira-nos para aquela prisão que tantas vezes nos esforçamos para não ver.

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