Organização:
SINTOMA|performance investigação experimentação [Núcleo de Arte Intermédia do i2ADS - FBAUP]
NEAP [Núcleo Estudos Artísticos e do Património do InED (ESE/IPP)]
Curadoria: Fátima Lambert | Rita Castro Neves | Rita Xavier Monteiro
A programação Sintomas e Efeitos Secundários nasceu do desejo de partilhar a prática artística nacional e internacional da arte da performance. Com o objetivo fundamental de promover um intenso encontro convergente de dinâmicas artísticas, num contexto intergeracional – os Sintomas, pretendeu também ser um espaço de reflexão entre criadores, investigadores e o público – os Efeitos Secundários. Realizou-se durante dois dias – 3 de maio na FBAUP e 4 de maio na ESE – em torno de três eixos ilimitados e comunicantes: MOSTRAR-PENSAR-REGISTAR:
MOSTRAR |Apresentação de ações nos espaços interiores e exteriores da FBAUP e ESE/IPP com caráter site-specific. Além disso, desenvolveu-se um núcleo de vídeo-performance-documentação.
PENSAR |Análise, interpretação, reflexão, decifração… a partir três conversas (des)moderadas.
REGISTAR |Este último núcleo temático propôs reavivar a produção histórica de eventos e pensar as questões do registo da performance, seja por via do testemunho, seja através crítica, contando com a parceria do Mais Crítica e dos estudantes de Mestrado em Estudos Artísticos da FBAUP. Os jovens críticos convidados, através da redação em direto no próprio dia das ações, publicaram os seus textos online e, logo no segundo dia, num jornal de parede.
Por outro lado, a reposição de dois covers de uma performance de Albuquerque Mendes, coordenada pelo seu autor, coloca questões pertinentes que envolvem um acontecimento que recria o original e, ao mesmo tempo, performatiza o documental.cTodo o evento foi registado em vídeo.
Sintomas e Efeitos Secundários quis ativar as possibilidades de contaminação e troca de experiências que, partindo da academia, estão abertas à comunidade, cúmplices de uma prática que é, sobretudo, um processo.
Mais informações em: http://www.i2ads.org/sintoma/
CRÍTICA EM DIRETO (produzida em parceria com o MAIS CRÍTICA):
O tempo da paciência, por Alexandra Balona
Em: http://www.i2ads.org/sintoma/?page_id=511
Performance Expandida, por Ana Dinger
Em: http://www.i2ads.org/sintoma/?page_id=496
Uma longa caminhada, por Ana Dinger
Em: http://www.i2ads.org/sintoma/?page_id=500
Ensemble sonoro (por vir), por Alexandra Balona
It´s going to get worse and worse and worse, my friend, conceito, coreografia e interpretação: Lisbeth Gruwez. Composição, sonoplastia e assistência: Marteen Van Cauwenberghe. Estilismo: Veronique Branquinho. Aconselhamento artístico: Bart Meuleman. Desenho de luz: Harry Cole. Assistência de desenho de luz: Caroline Mathieu. Produção: Voetvolk vzw. Co-produção: Grand Theatre Groningen, Troubleyn/Jan Fabre, Theatre Im Pumpenhaus e AndWhatBeside(s) Death. Teatro Municipal Maria Matos, 29 de Abril, 2013.
Se eu tivesse que escolher uma palavra-chave para o espetáculo intrigante de Lisbeth Gruwez, essa palavra seria: ventriloquismo. Nesta peça, ela mostra quão poderosamente o corpo consegue “falar” sobre “música” composta de sons manipulados eletronicamente, recolhidos da voz de Jimmy Swaggart – pregador de televisão conservador e por vezes histérico. O processo é formalizado através de movimentos repetitivos extremamente nítidos que às vezes parecem ser guiados por princípios fonéticos em que cada fragmento de discurso é representado por um movimento único e específico, que se repete quando o referido fragmento é pronunciado. De certo modo, é inventado um alfabeto corporal para os sons escolhidos e, nesse processo, verifica-se que uma eficaz (de)sincronização consegue problematizar expectativas tanto ao espectador como ao artista. Gruwez constrói uma espécie de dança ventríloqua: aquilo que vemos e o que ouvimos, simultaneamente, não coincide, no entanto, embora nós saibamos que não coincide, continuámos a desfrutar do jogo. A essência da disparidade reside no profundo questionamento de estereótipos de género: mulher vestida de homem confronta sons de voz masculina histérica, acrescentando uma dimensão de paródia através da sua linguagem corporal. À semelhança do que Laurie Anderson faz, Gruwez trai de uma forma poderosa as expectativas comuns da mulher no palco. Esta atuação marcante, provocante e poderosa foi uma excelente escolha para celebrar o dia mundial da dança.
It´s going to get worse and worse and worse, my friend, conceito, coreografia e interpretação: Lisbeth Gruwez. Composição, sonoplastia e assistência: Marteen Van Cauwenberghe. Estilismo: Veronique Branquinho. Aconselhamento artístico: Bart Meuleman. Desenho de luz: Harry Cole. Assistência de desenho de luz: Caroline Mathieu. Produção: Voetvolk vzw. Co-produção: Grand Theatre Groningen, Troubleyn/Jan Fabre, Theatre Im Pumpenhaus e AndWhatBeside(s) Death. Teatro Municipal Maria Matos, 29 de Abril, 2013.
A simplicidade deste espectáculo é notável: uma mulher vestida com umas calças escuras e uma camisa branca, um rectângulo de luz e som. It’s going to get worse and worse and worse, my friend é baseada nos discursos que movem massas, no poder das palavras, na manipulação. Neste caso, a coreógrafa inspirou-se num discurso do “televangelista” ultraconservador Jimmy Swaggart, da década de 80. A coordenação entre o som, o movimento e a luz são irrepreensíveis e percebe-se o trabalho árduo que está por trás desta obra da dupla Lisbeth Gruwez e Marteen Van Cauwenberghe.
O espectáculo inicia com um movimento muito subtil de braços, e desde logo a relação que a intérprete estabelece com o público é arrebatadora. Ficamos presos, no seu olhar, na intenção de cada pequeno gesto, pressentimos que se está a fabricar um momento único e explosivo. A peça está dividida em três momentos, identificados pelas três músicas distintas e também pelo tipo de movimento e intencionalidade. Estes três momentos vão evoluindo progressivamente em termos de velocidade e intenção. Há uma violência desconcertante implícita na fisicalidade da coreografia. A intérprete executa sequências de movimentos utilizando duma forma precisa essencialmente o tronco e os membros superiores com gestos que fazem lembrar figuras políticas a discursar e, ao mesmo tempo, é como se estes gestos fossem infligindo o seu próprio corpo com brutalidade e descontrolo.
Assiste-se a uma desconstrução de frases utilizadas nos discursos políticos ou religiosos que têm a intenção de manipular pensamentos e comportamentos. É um jogo de manipulação feito com subtileza e humor. O gesto acciona o texto e vice-versa, são palavras soltas, mas carregadas de significado e a intenção imprimida em cada gesto pela intérprete é lançada para a plateia contagiando o público. A certa altura não sabemos se estamos num espectáculo de dança ou num culto satânico – há uma espécie de transe induzido pela música e pelo movimento espásmico e repetitivo.
Apesar de a coreografia ter partido de um discurso dos anos 80 aparentemente ultrapassado, não podia ser mais actual pela maneira como nos é apresentado. A actual sensação de que as coisas apenas tendem a piorar e o desânimo geral da população é aqui habilmente descontextualizado e sente-se a opressão à flor da pele e o quanto se entranham palavras repetidas inúmeras vezes. A genialidade desta criação não está apenas no conceito, mas também na subtileza inteligente e irónica com que a intérprete se move e como a palavra é utilizada.
A dança de Lisbeth Gruwez não podia ser melhor escolha para celebrar o dia mundial da dança. É uma coreografia inteligente e perspicaz, pois vai sendo construída passo a passo, sem nunca ser demasiado óbvia ou gratuita. A ironia do gesto e a expressão facial são duas armas poderosas utilizadas ao longo de toda a coreografia que se vai revelando num crescendo, e termina no clímax, ou seja, faz jus ao título, mas ao contrário: vai melhorando, melhorando e melhorando.
The Untitled Still Life Collection. Cocriação: Trajal Harrel & Sarah Sze. Interpretação: Trajal Harrel e Christina Vasileiou. Encomenda: Co Lab: Process and Performance(Projecto a decorrer entre Summer Stages Dance Concord Academy e Institut of Contemporary Art/Boston). Museu de Arte Contemporânea de Serralves, 20 de Abril de 2013.
Toda a linha é eixo de um universo.
Novalis
The Untitled Still Life Collection é um diálogo silencioso entre um coreógrafo, Trajal Harrell e uma escultora, Sarah Sze. É um exercício de conciliação da notação do movimento dos dois corpos, com a materialidade de uma finíssima linha de fio azul.
O que se exibe resulta de um questionamento que é, simultaneamente, artístico e relacional. Que procura revelar uma intimidade antiga aliada a uma colaboração de dois percursos profissionais distintos. Como é que um material existe na energia entre dois corpos? Como se faz aparecer essa ação, desligando a especificidade indelével de cada prática criativa?
Este parece ser o desígnio para The Untitled Still Life Collection, a performance que inicia o ciclo Matérias Vitais. O ciclo, influenciado pelo livro da politóloga Jane Bennett “Vibrant Matter: A Political Ecology of Things”, propõe espetáculos que, através de diversas abordagens, reflitam o potencial dos materiais não-orgânicos na sua relação com o humano.
O título (ou a ausência dele) coleciona essa ambivalência. Por um lado, still life como natureza-morta, a matéria inerte – duas porções de fio azul são medidas e cortadas do novelo para se disporem no chão. Por outro, still life como algo que ainda é vida, numa celebração da sua efemeridade – dois corpos que se relacionam no espaço e no tempo através de um fio, por um fio.
A dicotomia, aparentemente intransponível – orgânico/inorgânico, animado/inanimado -, é problemática que se estende da exposição Arte Vida / Vida Arte de Alberto Carneiro recentemente inaugurada no museu. Em Momento 13 — Três linhas do horizonte com céu aberto e uma descrição contínua de paisagens com vinte e uma imagens do teu ser imaginante, uma fina tira de papel prolonga-se e percorre o espaço do museu, encerrando todo um horizonte de linhas que se intercruzam com as palavras manuscritas. Uma poética reveladora da coexistência estética do eu-corpo-natureza.
Também Sarah Sze, ainda que num outro sentido, desvia pequenos objetos quotidianos dos seus respetivos destinos, articulando-os e conferindo-lhes nova vitalidade. Reservando um outro destino possível. A artista que representará os E.U.A. na Bienal de Veneza deste ano, explora a escultura e a instalação site-specific, numa relação entre o banal e o precioso, o residual e o monumental.
Na perpetuação desse rasto sensível, é como se as linhas desenhadas por Alberto Carneiro se animassem plasmadas no gesto dos dois interpretes. Porém, quem agora interpreta a peça é Christina Vasileiou. A passagem de testemunho para Christina implica a possibilidade da sobrevivência da peça sem a presença de Sarah, que permanece reminiscente na notação coreográfica. Esse movimento passa a ser reativado a partir do corpo da performer que é, como em Trajal, um corpo da dança.
À entrada da sala sentam-se um diante do outro, o olhar de um devolvido pelo olhar espelho do outro. E numa ritualização do gesto, suportado por uma colagem musical em surdina, iniciam uma sucessão de frases coreográficas atravessadas por um fio. Da tensão exercida sobre esse fio conexo, mostra-se uma partitura de movimentos coordenados que se querem fazer demorar. Em certos momentos, Trajal claramente exerce o domínio, puxando o fio enquanto contrai o sobrolho. Christina, de expressão impávida e pontas nos pés, deixa-se levar pela trama, é conduzida ou a desfaz.
Daquela ténue linha azul recortada no horizonte branco do olhar, que ora se move, ora permanece fixa na imprecisão do movimento, gera-se uma obra de instalação animada. Uma paisagem que poderia caber na op art, pela ilusão que opera na percepção. A linha compromete todo o olhar do espetador. E, todavia, essa matéria não se autonomiza das mãos que a conduzem, enrolando-se nos dedos dos performers através do arquétipo movimento circular dos braços. Por vezes a conexão não pode deixar de ser equívoca, de ser múltipla: vemos o jogo (a cama-do-gato), a medida de um espaço ou o cálculo de coordenação dos dois corpos, o equilíbrio e o desequilíbrio. Vemos o traço, a escrita…o desenho do tempo.
Num determinado momento da curta performance, Christina parece vestir Trajal com aquela linha, qual jóia preciosa. Trajal exibe-a na contração quase imperceptível de cada músculo do peito, para depois se libertar, contorcendo o corpo todo em movimentos fluídos e numa atitude contemplativa de si próprio. Retomada a conexão, comunga-se a evocação do animalesco: o performer absorve com a boca toda a poção do fio de ambos. E depois expele-o, algo próximo da Baba Antropofágica de Lygia Clark.
Fragilidade e imprevisibilidade, a cada uma das quatro exibições surge algo de novo. A performance The Untitled Still Life Collection, delicada e comovente, coloca a subtileza no centro da atenção, descobrindo o raro, o quase-velado. O quase-inacessível está a caminho do sublime, numa espécie de aparição. Talvez a possamos situar, no contexto do relevante percurso de Trajal Harrell, já a caminho do Butoh – a “dança das trevas” japonesa do pós-guerra -, que explora atualmente na mais recente obra Used, Abused and Hung Out to Dry, estreada em Fevereiro no MoMA.
À saída da biblioteca de Serralves, atravessando a mostra de documentação de Carneiro, reparo no título de uma exposição sua de 1981: O Corpo Subtil. The Untitled Still Life Collection torna-se um culto ascético entre dois corpos e uma matéria vital, como novelo para múltiplas tramas e desenlaces. Um novelo de subtilezas.
The Untitled Still Life Collection. Cocriação: Trajal Harrel & Sarah Sze. Interpretação: Trajal Harrel e Christina Vasileiou. Encomenda: Co Lab: Process and Performance (Projecto a decorrer entre Summer Stages Dance Concord Academy e Institut of Contemporary Art/Boston). Museu de Arte Contemporânea de Serralves, 20 de Abril de 2013.
Da primeira colaboração entre o coreógrafo/performer nova iorquino Trajal Harrel e a escultora americana Sarah Sze, resultou a peça The Untitled Still Life Collection, apresentada no ICA/Boston em 2011, no contexto da exposição Dance/Draw, que explorou as relações plurais entre a dança contemporânea e o desenho, nos últimos 40 anos.
Apresentada no passado dia 20 de Abril, no Museu de Arte Contemporânea de Serralves, por Trajal Harrel e a bailarina e coreógrafa grega Christina Vasileiou, The Untitled Still Life Collection propõe um território híbrido entre a dança e a instalação, o movimento e o desenho no espaço. Dois performers e duas finas linhas azuis, desenham em movimento a complexidade do espaço que os une e os separa. Como num diálogo, momentos de tensão e provocação intercalam tempos de cedência, de partilha e de aproximação. Sempre com uma subtileza desarmante.
Esta peça inaugurou o ciclo de artes performativas “Matérias Vitais”, que irá decorrer em Serralves durante 2013, com propostas que cruzam os limites disciplinares da música, performance, cinema e artes visuais. O livro Vibrant Matter: A Political Ecology of Things, da politóloga Jane Bennett, que serviu de influência a este ciclo, questiona a rigidez dos “binómios vida/matéria, humano/animal, orgânico/inorgânico”, defendendo uma mesma materialidade vital que atravessa todos os seres e coisas, e propõe um projecto político de partilha mais inteligente e sustentável entre a matéria e os seres.
Em paralelo, a exposição Alberto Carneiro: Arte Vida / Vida Arte: Revelações de Energias e Movimentos da Matéria, inaugurada no museu no passado dia 19 de Abril, reitera esta crença de uma mesma vitalidade transversal ao homem e à natureza.
Luz, espaço, ar, bancos, corpos, roupas, linha azul são algumas das matérias vitais de The Untitled Still Life Collection. O espaço cénico resume-se à parede branca da biblioteca do Museu de Serralves, onde uma ampla janela deixa entrar o exterior, ao pavimento em soalho e a dois bancos em madeira, dispostos em linha e paralelos à parede, a escassos metros entre si. Os visitantes sentam-se informalmente no chão. Momentos depois, os performers entram: Trajal veste calças pretas, sweatshirt cinza, botins pretos, trendy mas discreto; Christina, belíssimo vestido preto e pés nus, segura um tubo de linha azul e uma tesoura. Cortam duas porções de linha que dispõem no chão de um banco ao outro, uma de cada lado, e sentam-se frente a frente. Enrolam as extremidades das linhas nos dedos indicador de cada mão e, em tensão, pousam as mãos no colo. Imóveis, duas linhas azuis paralelas desenham a distância entre os corpos, unindo-os, de certa forma.
Ao som de uns intensos acordes de piano (de uma composição musical não identificada), os dois fios azuis iniciam lentamente o seu movimento. Assiste-se a uma conversação entre duas linhas, fios de pensamento, a partilha do sensível nos gestos simples que elevam uma linha, cruzam a outra, puxam, cedem na pressão, ou soltam o objecto. Primeiro com as mãos, nos dedos indicadores, depois já em pé, uma linha em torno do tronco, que se desfaz num apontamento de dança. Em seguida nos pés, das meias amarelas de Trajal aos dedos nus de Christina, as linhas ganham, novamente, vida. E na boca, com a língua, as linhas são enroladas até se transformarem em novelos. A Christina coube a tarefa final de desembaraçar o emaranhado de fio azul. Tarefa que, por vezes, fica incompleta.
Trata-se de um evento minimal e abstracto que não é dança, nem instalação, mas outra coisa qualquer, e de uma delicadeza notável. O título da peça encerra uma certa ironia que, aliás, é característica do trabalho de Trajal: “Colecção de Naturezas Mortas, sem título” (minha trad.). Dois corpos e um objecto estão muito distantes de ser uma “natureza morta”, do mesmo modo que a dança, ou o movimento, são tudo menos “still” (imóveis). Trata-se de uma referência tangente à história da pintura e uma crítica subtil ao crescente interesse das instituições artísticas pela performance, incorporando-a nas suas estruturas e colecções. O carácter efémero da performance e da dança, que as aproxima da experiência contingente da vida, seria menos atractiva na óptica museológica e do capital. Porém, como referiu Baudrillard , pouco ou nada escapa a essa mesma lógica. Tanto a arte como as instituições se reciclam de forma a encontrar valor naquilo aquilo que, aparentemente, não o teria.
Curiosamente, Trajal é tanto crítico como cúmplice deste processo, tendo inclusive apresentado com Perle Palombe uma conferência-performance intitulada “The Conspiracy of Performance”, uma adaptação do texto “Le complot de l’art”, publicado por Baudrillard, em 1996, onde o coreógrafo substitui a palavra arte por performance.
Longe do que é convenção, as suas performances cruzam elementos das artes visuais, e outros de origem menos provável, como o mundo da moda ou o movimento de dança voguing.
Trajal Harrel ganhou notoriedade com o projecto seminal Twenty Looks or Paris is Burning at The Judson Church, que desenvolve há mais de uma década, em torno da relação entre a dança pós-moderna de Judson Church e a tradição de dança voguing. A série vem em sete tamanhos que deram origem a sete propostas: (XS), (S), (M), (jr.), (L), (Made-to-Measure) e uma publicação (XL). Embora ambos os movimentos tenham surgido no início da década de sessenta em Nova Iorque, o primeiro em Greenwich Village e o segundo em Harlem, tinham premissas e intervenientes muito distintos. Os performers da Judson Church, politicamente activos, privilegiavam a neutralidade e a “autenticidade” dos movimentos do quotidiano na dança. O movimento voguing era dançado por performers afro-americanos, de classe baixa, inspirado nos ícones da moda e da cultura pop. A história da dança conta a versão dominante, mas foi nas omissões que o coreógrafo se baseou para, através das suas performances, problematizar estética e politicamente um período tão marcante, ainda hoje, para a dança contemporânea.
Em The Untilted Still Life Collection encontramos referência à herança da dança pós-moderna, no desempenhar de tarefas e gestos triviais com a maior naturalidade, assim como pequenos detalhes que fazem referência ao glamour do voguing ou ao universo da moda. Da obra de Sarah Sze reconhecemos, pelo menos, a linha azul quer como elemento do desenho, quer do universo da instalação. Mas isso serão apenas detalhes, numa colaboração que resulta numa proposta situada algures “em terra de ninguém”.
altered natives’ Say Yes To Another Excess – TWERK. Cocriação: Cecilia Bengolea e François Chaignaud. Interpretação Élisa Yvelin, Alex Mugler, Ana Pi, Cecilia Bengolea e François Chaignaud. Música: DJ Elijah, DJ Skilliam (Butterz, London – UK). Desenho de Luz: Sindy Négoce, Jean-Marc Segalen, Cecilia Bengolea e François Chaignaud: Figurinos Cecilia Bengolea e François Chaignaud. GUIdance, Black Box Fábrica ASA, Guimarães, 14 de Fevereiro.
“You Gotta Say Yes To Another Excess” dá título ao álbum, editado em 1983, dos Yello, um grupo de música electrónica suíço composto por Dieter Meier e Boris Blank. “A little fool I want to be (…) I don’t want to wait to heaven (…) We need it/ We love it/ Excess” são excertos da letra da música homónima e poderiam ser subtítulos da peça que Cecilia Bengolea e François Chaignaud trouxeram ao GUIdance Festival Internacional de Dança Contemporânea de Guimarães, no passado mês de Fevereiro.
Na sua terceira edição anual, o festival GUIdance ajuda a colmatar a asfixia de oferta cultural no norte do país na área das artes performativas, a par de outros eventos pontuais como o Circular Festival de Artes Performativas em Vila do Conde. Num passado recente, contava-se ainda a existência do Festival Trama, programado em parceria com a Fundação de Serralves, a Matéria Prima, o brrr _ Festival de Live Art, suspenso em 2012 e, num passado dolorosamente distante, o Rivoli Teatro Municipal era o epicentro da divulgação e experimentação nesta área. Neste sentido, o GUIdance, dirigindo-se a um público diversificado, tem permitido a divulgação de propostas nacionais e internacionais (algumas mais consensuais na sua recepção, outras mais experimentais), nomeadamente, de Olga Roriz, Vítor Hugo Pontes, Né Barros, Tânia Carvalho, Sofia Dias & Vítor Roriz, ou internacionais como do Australian Dance Theatre, Peeping Tom, Les Ballets C de La B, Meg Stuart/ Damage Gods, Companhia Rosas e, neste caso, como a recente e provocatória proposta de Cecilia Bengolea e François Chaignaud. Com altered natives’ Say Yes To Another Excess – TWER, Bengolea, Chaignaud e os restantes três performers Ana Pi, Elisa Yvelin e o voguer, Alex Mugler desafiaram, uma vez mais, o público a tornar-se voyeur de “outros excessos”.
Um frio glaciar no foyer da Fábrica ASA, agora mais despojada no rescaldo de Guimarães Capital Europeia da Cultura. À medida que o público se aproximava da Black Box, o som de música electrónica vindo do interior introduzia um ritmo que fazia esquecer o corpo contraído e expectante. A performance começava ali, com a cadência a entrar pelos corpos no corredor negro da Box até ao primeiro confronto com a imagem do palco. Dois djs numa das laterais davam o som, o linóleo branco do pavimento reflectia uma luminosidade crua e os neons suspensos na teia desenhavam linhas no tecto que partiam de um ponto e se alargavam em leque, ampliando, por ilusão perspética, o palco para toda a sala. Em ambiente “disco”, os cinco performers já em cena rodopiavam sobre si mesmos e entre si, com os braços alongados perpendiculares ao corpo, e desenhavam círculos aleatórios sem cessar. Figurinos excêntricos em tom de verde fluorescente, perucas com cristas de cor e “parangolés”[1] semi-transparentes imprimiam um ambiente desconcertante a toda a cena – algo situado entre o êxtase dos derviches e a alienação abstracta de uma noite de transe.
Do cimo da plateia, e após uma observação mais atenta, a negro sob o linóleo branco lia-se o título da peça escrito com um grafismo geométrico de grandes proporções: num dos lados “altered natives’ Say Yes To Another Excess” e no outro “TWERK”.
“Altered natives” – a hibridez de ser nativo (ou o que é ser nativo hoje?) – numa co-criação que procura ir além de outros limites ou, como referiram os autores, um processo em que os intérpretes se “devoram e multi-colonizam uns aos outros”.
A performance evolui através da fusão híbrida de movimentos importados dos clubs nocturnos e da street dance de Londres a Nova Iorque, o “jump and split”, o krump, o jamaican dancehall e, em especial, o “twerk” (dançar agitando as nádegas com clara conotação sexual) remisturados com referências da dança moderna como Cunningham ou através da simples exploração da dança pela dança.
O movimento fazia-se indissociável da música dos djs Elijah and Skilliam da cena Grime londrina, que remisturavam e transformavam sons de dancehall, ragga, hip-hop e música garage. A cena Grime terá surgido no início do ano 2000 nos clubs underground do leste de Londres e caracteriza-se por uns sons brutos, sincréticos e rimas agressivas e pouco polidas. Terá sido a primeira vez que estes djs actuaram em palco e colaboraram com criadores de dança contemporânea.
Existe uma vertente antropológica nas propostas de Cecília Bengolea e François Chaignaud quando importam para o palco da dança contemporânea gestos e corpos de outros contextos, em geral provenientes de nichos underground, de comunidades com idiossincrasias próprias (afro-americana, latina, gay, etc.) ou, simplesmente, da noite londrina e nova-iorquina, afastadas dos dispositivos de divulgação e validação mais convencionais. A peça que apresentaram anteriormente “(M)imosa”, em colaboração com Marlene Monteiro Freitas e Trajal Harell, no Festival Circular em Vila do Conde (2011), e no Festival Alkantara (2012) é disso exemplo. Partia, nomeadamente, da exploração do movimento voguing em Harlem nos anos 60, praticado por gays, travestis e transexuais afro-americanos e latinos, que competiam em salões de baile a imitação de ícones dos media e da moda.
Nas suas propostas é ainda evidente o simples interesse da dança pela dança, sem subtítulos nem teorias. Como refere François Chaignaud, “a dança é digna de falar por si própria. Não a pretendo usar para falar de um tema inteligente”.
Numa leitura superficial, esta peça reduzir-se-ia a um cenário fugaz de um club de dança, combinando estereótipos de diversas “urban dances” com elementos da dança moderna. Todavia, mesmo sem teorias subjacentes, existe nesta proposta um plano crítico e irónico sobre o que é, ou pode ser hoje, uma proposta de dança num palco contemporâneo. Não se importam os simples movimentos do quotidiano como nos encontros da Judson Church, mas os gestos de “outros” quotidianos menos mainstream, populares na rua e na noite das grandes metrópoles, no YouTube. Sem a pretensão discursiva sobre temas como género, sexo, identidades ou comunidades urbanas, são os corpos e a dança que se dispõem à nossa interpretação de uma determinada contemporaneidade, aquela que Bengolea e Chaignaud nos decidem mostrar.
À saída, fica-nos a dança no corpo.
[1] Os “parangolés”, criados pelo artista brasileiro Hélio Oiticica na década de sessenta e feitos em tecido, plástico ou outros materiais semelhantes, eram simultaneamente figurinos para vestir e esculturas em movimento. Os primeiros parangolés foram usados pelos bailarinos da escola de samba da Mangueira, de que Oiticica era participante. Esculturas vivas e dançáveis, os “parangolés” tornaram-se ícones da fusão entre a arte e a vida, intenção expressa na obra deste artista.
Jornal Falado da Crítica
O Jornal Falado da Crítica é uma iniciativa conjunta da Associação Internacional de Críticos de Arte e do MUDE, com apoio à divulgação por parte da Culturgest. São encontros com críticos e entrevistas ao vivo com artistas, arquitetos e responsáveis de instituições de arte contemporânea que procuram partilhar perspetivas, ideias e conceitos a propósito da atualidade cultural do país. O repto lançado aos críticos é que sejam assertivos e que defendam pontos de vista, possivelmente polémicos, sobre o cenário artístico. O repto lançado ao público é que seja participante, que partilhe as suas posições, que interrogue e que faça deste jornal falado uma efetiva troca de ideias e experiências.
Os encontros acontecerão às quartas-feiras, de 15 em 15 dias, no excelente espaço do Auditório do MUDE, no centro da Baixa Pombalina. Numa altura em que a crítica quase deixou de existir na imprensa e num mundo de incertezas e interrogações, o exercício do pensamento crítico e a partilha de ideias, livre e empenhada é uma forma de resistência em relação à passividade.
Debater a arte e a arquitetura dos nossos dias é uma forma de cidadania ativa e participante.
O convite está lançado.
A Associação Internacional de Críticos de Arte é uma Secção da organização não-governamental homónima sediada em Paris e criada no rescaldo da Segunda Guerra Mundial. A atividade da Secção Portuguesa iniciou-se em 1952, tendo sido reestruturada em 1969 em sequência do Congresso de Críticos que teve lugar no Centro Nacional de Cultura em 1967 e que pugnava pela dinâmica e independência do exercício da crítica numa circunstância política fechada e difícil. Para além de outras atividades, a AICA organiza os prémios de arte e arquitetura desde 1981 em parceria com a Secretaria de Estado da Cultura, a que agora se associou também o Millenium BCP. Os vencedores de 2011 foram João Queiroz (Prémio de Artes Visuais) e Miguel Figueira (Prémio de Arquitetura). A AICA atribui ainda um prémio de crítica em parceria com a Fundação Carmona e Costa.
Dia 20 de março, 18h30
Delfim Sardo, Sérgio Mah e Nuno Grande
Dia 3 de abril, 18h30
Luís Santiago Baptista entrevista Inês Lobo
Nuno Faria entrevista Rui Toscano
Dia 17 de abril, 18h30
Liliana Coutinho, António Pinto Ribeiro e Ana Tostões
Dia 8 de maio, 18h30
Paulo Pires do Vale, Rui Mário Gonçalves e Margarida Medeiros
Auditório do MUDE – Museu do Design e da Moda



